Revista Rua

Saber. História e Religião

Jesuítas ou misticismo judaico de fusão

Claúdia Sil

Texto: Claúdia Sil |

Mesmo que não quisesse falar de misticismo judaico não o conseguiria quando o tema é a sigla IHS. Descendo a Rua D. Frei Caetano Brandão, agora em voga na noite bracarense onde se pode degustar cozinha de fusão ou beber gin (con) fusão ou qualquer uma das outras paradigmáticas bebidas como a caipiroska, evidência líquida de que o mundo se globalizou, avista- se ao no 154 uma padieira de janela onde se lê, entre dois ornatos, IHS. 

É realmente surpreendente a percepção de que os transeuntes entendem que aquelas letras dizem algo: “O que querem dizer?”. Ninguém tem uma resposta imediata, clara, concisa. A esgaravatação documental não trouxe nenhuma informação relevante sobre o assunto. Nem Albano Bellino, na sua magnífica obra “Inscrições e lettreiros da cidade de Braga e algumas freguezias ruraes”, 1895, fala na dita inscrição ao longo das 180 páginas desta preciosidade.

O único IHS bem conhecido é a sigla da Companhia de Jesus e toda a história da sua existência está envolta em enorme mistério, imprecisões e perseguições. E quando se pensava que já tudo se tinha conjecturado sobre isto aparece agora, pela primeira vez na história, a ilustre sigla no escudo do Papa Francisco.

A Companhia, ou Sociedade em tradução literal do latim, de Jesus, foi fundada em 1534 por Inácio de Loyola que vai estudar para Paris e se junta a cinco outros companheiros, entre os quais Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues de Azevedo. Inácio esteve, antes disso, em Jerusalém du- rante um ano e depois, de regresso à Europa, é perseguido pela inquisição. Primeiro sob a suspeita de pertencer ao movimento dos alumbrados, que se pode considerar como um dos ramos do, naquela época emergente, mis- ticismo Europeu designado por iluminismo, cujos membros eram na sua maioria judeus convertidos ao cristianismo. Depois é preso por ter dado muito nas vistas com as suas pregações baseadas no livrinho por ele escrito de “Exercícios espirituais”. Apesar disso a ascensão desta organização de estudantes foi apaixonante e meteórica e 25 anos depois já D. Frei Barto- lomeu dos Mártires lhes oferecia a igreja e edifício do Colégio de S. Paulo em Braga. Estudar sempre foi o seu mote, como faziam todos os místicos, os cabalistas, como foi Jesus, que por cá tanto haviam e “desapareceram”.

Sobre o significado das letras IHS no logotipo da Companhia existem diversas versões, algumas que são divergentes dentro da própria igreja ca- tólica, outras mais extravagantes ou menos esclarecidas:

- monograma de Jesus em caracteres gregos ΙΗΣ (iota, eta, sigma; Iesous);

- In Hoc Signo (versão de Constantino que significa por este sinal);

- Iesus Hominem Salvator, em latim, quer dizer Jesus Salvador dos Homens;

- Isis, Horus e Set, trindade de deuses egípcios adoradores do Deus Sol.

Rodando o escudo pode ler-se a palavra SHI. Remeterá para a letra he- braica shin conectada com o nome de Deus Shadai? E aquilo que se vê agora como três pregos foi inicialmente, em documento de 1548, uma flor-de-lis talvez referindo-se à coroa do shin que significa o novo estado das coisas, o mundo que está para vir, o mesmo significado do sol flamejante. O escudo tem ainda representada uma espada, não uma cruz como pode parecer à primeira vista. Quando se vira ao contrário sugere a morte de S. Pedro sendo que a cruz invertida está também associada à negação do cristianismo.

Isto há Segredos... 

 

 


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