Revista Rua

Apreciar. Cultura

Joana Páris Rito

Um mundo em folhas de papel

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

É com o icónico Bom Jesus de Braga, que empresta o seu cenário a uma passagem de um livro seu, que nos inspiramos para uma conversa sobre inspiração com Joana Páris Rito. Eterna apaixonada pelas artes no seu todo, não tivesse sido ela bailarina clássica e estudado Pintura e Artes Plásticas no Conservatório Calouste Gulbenkian, Joana Páris Rito é uma escritora bracarense que encontrou na sua imaginação uma forma de nos contar a História, nossa e dos outros, abrindo-nos um mundo de memórias com pitadas de fantasia. Borboletas Sem Asas e Azul Índigo são apenas dois dos livros que nos apresentam o admirável mundo de uma mulher que escreve sobre o universo que a impressiona.

 

Com seis anos, a descoberta do prazer da leitura despertou um vício que até hoje se manifesta. Leitora assídua, Joana Páris Rito foi crescendo como uma verdadeira colecionadora de livros: não há sítio para onde vá sem um. Aos poucos, foi mergulhando nas histórias dos outros sem optar por um caminho próprio na Literatura. “A minha vocação não se manifestou imediatamente, na idade em que os jovens escolhem determinada área para seguir profissionalmente”, relembra. Bailarina clássica durante 12 anos, o dilema de Joana Páris Rito surgia com a típica questão: ser ou não ser? Decidiu que o percurso na dança chegava ao fim, pensando em seguir uma carreira nas Belas Artes. No entanto, foi o Direito que a arrebatou: “Optei pelo curso de Direito porque fascinava-me uma carreira de magistrada, embora não tenha sido. Foi um curso muito trabalhoso, mas que me deu muita bagagem cultural e ensinou-me muito a nível de expressão escrita e oral. Exerci advocacia apenas dois anos. Achei que aquele não era o caminho que eu queria. Mas o curso de Direito está muito presente na minha escrita”, conta-nos Joana, esclarecendo ainda que esteve envolvida com uma empresa de design e projetos de interiores, algo que lhe foi preenchendo o tempo até decidir embarcar na maior aventura de todas.

Bebendo da inspiração que surgia em todas as experiências que tinha, Joana Páris Rito abraçou o seu destino literário depois dos 40 anos. “Não é por acaso que os grandes escritores conseguem ter outra força expressiva a partir dos 40 anos, porque as vivências benéficas ou dramáticas de cada um, o confronto com a realidade, toda essa maturidade se nota depois na escrita. Eu só me senti capaz de escrever aos 43 anos, momento em que comecei a fazer as minhas pesquisas, a engendrar a história na minha cabeça. Tanto pesquisava e surgiam-me ideias, como me surgiam ideias e eu pesquisava”, explica Joana. No entanto, o ato de começar efetivamente a escrever foi quase que motivado por uma provocação. “Um amigo meu, que me conhece muito bem, dizia-me ‘se não escreves é porque não és capaz!’ e aquelas palavras espicaçaram-me. Pensei: ‘mas quem és tu para dizer que eu não consigo escrever?’. Nesse dia cheguei a casa e comecei a escrever. Demorei seis anos a escrever as 750 páginas que compõem o meu primeiro livro, Borboletas Sem Asas”, assume a escritora bracarense, acrescentando: “O processo de escrita é muito enriquecedor, muito mágico, mas não é aquela fantasia que muita gente provavelmente pensa. Para mim, é um processo muito difícil porque exige muito de mim, muita disponibilidade emocional, temporal, física até. É um processo que acarreta algum medo, medo de não conseguir transmitir aos leitores aquilo que realmente eu quero e da maneira como eu quero”.

Passo a passo, Joana Páris Rito foi deixando as sombras de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa ou José Saramago, influências que a inspiravam por toda a sentimentalidade que colocavam em cada palavra que escreviam. “Eu achava que não era capaz de escrever porque o grau de exigência que eu impunha a mim mesma era muito elevado. Eu caía no erro crasso de me comparar e um escritor não se pode comparar com outro. Apercebi-me disso mais tarde. Somos todos diferentes, temos formas únicas de nos expressarmos”, afirma.

Conciliando a escrita com as suas restantes atividades, Joana Páris Rito foi deixando a sua imaginação fluir. “Ao escrever e fazer as pesquisas para o primeiro livro, começaram a surgir ideias para um segundo. Isso foi um pouco assustador, mas ao mesmo tempo muito gratificante porque insinuava-se a ideia de continuidade, ou seja, eu tinha encontrado o caminho para a minha vida”. Já com história e personagens desenhadas para um segundo desafio, a escritora apresentou recentemente Azul Índigo, o romance com 450 páginas que é o resultado de dois anos de trabalho. E podemos já desvendar o véu: há um terceiro a caminho, já com título escolhido: Vermelho Sangue, uma espécie de continuação do segundo livro, embora os leitores possam ler as histórias separadamente sem se perderem no enredo. Contudo, há uma questão que precisa de ser esclarecida: que mensagens quer transmitir Joana Páris Rito com os seus livros?

“As minhas personagens transmitem muito aquilo que é o Homem na sua essência, a condição humana. O horror, o amor, o ódio”, descreve a escritora. No seu Borboletas Sem Asas, uma metáfora alusiva à mulher e à sua necessidade de emancipação, Joana explora os temas que envolvem a figura feminina, desde os momentos da maternidade aos episódios de violação, de aborto, de subvalorização social. Já a mensagem de Azul Índigo transporta-nos para o universo da discriminação referente à homossexualidade, ao racismo, ao desrespeito pela terceira idade. “Temas fortes, polémicos ainda nos dias de hoje. Acho que o escritor deve ter uma missão humanitária, alertando o mundo para os temas que são castradores na sociedade”, refere Joana Páris Rito. Relativamente ao terceiro livro que se encontra em fase de desenvolvimento, a escritora afirma manter a temática da homossexualidade e do racismo, envolvendo outros povos, como os ameríndios (os índios da América do Norte, povos exterminados ao longo do tempo), cultura que a fascinou ao longo das pesquisas que foi realizando. “Quero muito que os meus livros se foquem na nossa História local e mundial, já que os meus personagens viajam pelo mundo”.

Com uma escrita rica e uma capacidade de criar emoção, envolvendo os leitores na história de personagens que, muitas vezes, têm essências não-ficcionadas, inspiradas em pessoas que de alguma maneira a marcaram (como o seu bisavô ou a rainha D. Amélia), Joana Páris Rito é um talento a descobrir, entre os seus mundos de fantasia preenchidos por uma realidade que tanto nos cerca. 


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