Revista Rua

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Jorge Gomes, na rota do furacão Irma

Jorge Gomes, diretor de um Concessionário Automóvel em Braga, foi um dos portugueses apanhados na rota do furacão Irma. A RUA esteve à conversa com ele.

Joana Soares

Texto: Joana Soares |

Jorge Gomes é diretor de um Concessionário Automóvel em Braga e estava na República Dominicana quando passou por lá o furacão Irma. “Todos os anos é atribuída uma viagem às melhores representações da marca no país, pelas suas performances comerciais. Este ano, a viagem foi a Samaná - República Dominicana, na parte Norte da Ilha, zona bastante atingida pela passagem do furacão”, explica o minhoto.

Enquanto estavam em Samaná, Jorge e os colegas foram ouvindo falar do furacão e da força que ia adquirindo enquanto se deslocava na direção das Caraíbas. “Muito francamente, sempre tivemos a esperança de que não passaria de uma ameaça e que, a qualquer momento, mudaria o seu rumo e tudo não passaria de um falso alarme”, confessa.

Enquanto comunicavam com os familiares, a preocupação foi aumentando também, já que o acompanhamento da comunicação social em Portugal foi grande e as novidades não eram, de todo, as mais tranquilizantes.

Dois dias antes da passagem do furacão em Samaná, os hóspedes começaram a sentir dificuldades. Verificaram variadíssimas medidas de precaução no hotel onde estavam instalados: “janelas tapadas com madeira, fita-cola em todos os vidros para não causar estilhaços ao partirem, recolha de todo o material de exterior tal como tendas, toldos, cadeiras, etc.”. Ao mesmo tempo, iam acompanhando os noticiários locais (que já não falavam de outra coisa) e a passagem do furacão em Porto Rico fez com que percebessem da real devastação que um fenómeno da natureza como este é capaz de provocar. Mais de metade da ilha ficou sem água e sem eletricidade.

“Um dia antes da passagem do Irma na zona onde estávamos instalados, foi tomada a decisão de fecharem o hotel e de evacuarem todos os turistas para zonas mais afastadas da rota do furacão. Samaná não era seguro! É neste momento que começam as maiores confusões, desde logo no transporte das pessoas. Grandes esperas, um calor insuportável e uma humidade digna de um banho turco, famílias impacientes e apavoradas com a informação que tardava em aparecer”. Contrastando com a organização canadiana, que enviou vários aviões para retirar os seus cidadãos de perigo, os portugueses foram sendo retirados do hotel sem muita organização, seguindo-se uma viagem de camioneta, durante cinco horas, até Punta Cana.

Quando chegaram à estância turística onde iam ficar, foi-lhes entregue uma chave apenas com a informação de que teriam de ir para o quarto de onde só sairiam quando fosse dada autorização para isso. Informaram-nos que, entretanto, a comida iria ser levada aos quartos, uma vez que o furacão iria passar pela República Dominicana nessa madrugada. “Ventos fortes e chuva foi uma constante nessa noite e no dia seguinte, deixando-nos pouco à vontade para dormirmos ou descansarmos. De manhã, ao abrir as persianas, vemos um cenário de palmeiras no chão, alguma destruição e sem uma única pessoa no exterior do resort porque a autorização para sair ainda não tinha sido anunciada. Ligámos a televisão e Samaná tinha sido devastada! Foi aqui que admitimos todos ter sido uma boa decisão retirarem-nos dali, apesar de algumas pessoas se terem demonstrado mais renitentes em sair”, constata Jorge.

Após a abertura do Aeroporto de Punta Cana, embarcaram para uma viagem que faria escala na Jamaica (Montego Bay) e seguiria para Lisboa. “Sobrevoámos durante mais de uma hora, às voltas, na entrada do espaço aéreo da Jamaica, quando somos confrontados com a informação do comandante do avião de que um raio tinha atingido as comunicações desse aeroporto e que teríamos de voltar para trás. A alegria de termos conseguido abandonar a zona do perigo rapidamente passou a frustração uma vez que teríamos de voltar à República Dominicana”. Quando aterraram novamente em Punta Cana, seguiu-se outra espera de mais de duas horas, até que anunciaram nos altifalantes do aeroporto que dormiriam num hotel ali perto. Acabaram por ser duas noites e uma espera incessante de notícias de quando poderiam embarcar novamente com destino a Portugal. A impaciência e ansiedade das pessoas era bem visível: “Pude confirmar que a vida de um guia de viagens não é de facto a profissão mais agradável do mundo; foram completamente arrasados pela fúria dos turistas menos pacientes”, relata o bracarense. 

Ao fim de dois dias, foram acordados de manhã cedo para saírem, já que iriam tentar novamente aterrar na Jamaica. A fila de aviões para levantar daquele aeroporto, parado há dois dias, era considerável. Foi então dada luz verde para levantarem voo, o que só se verificou após uma hora e meia de espera, dentro do avião. Já a caminho de Portugal, Jorge e os restantes portugueses foram informados pelo comandante do avião que acabaram por ter muita sorte em terem levantado voo, uma vez que o aeroporto tinha acabado de fechar novamente e sem prazo para reabrir.

O português tem noção de que os canais de televisão transmitiam ininterruptamente a evolução da trajetória do Furacão Irma e apercebeu-se da preocupação das pessoas, que não tinham verdadeiramente conhecimento do que estava prestes a acontecer. “O Governo da República Dominicana decretou recolher obrigatório e, nos bairros com menores condições, as pessoas foram retiradas das suas casas frágeis para escolas da zona ou empreendimentos mais seguros. Nenhum país está completamente preparado para responder a todas as necessidades e houve várias queixas das populações por serem colocadas juntas em sítios onde depois faltavam bens essenciais, tais como, água e comida”, observa Jorge.

Já os turistas, “foram uns autênticos privilegiados, quer pela proteção constante das entidades públicas e turísticas, quer pela robustez da construção que os alberga, em contraste com a construção débil das casas circundantes pertencentes à população”. Quando evacuaram os turistas de Samaná, os funcionários do hotel mantiveram as suas funções até abandonarem as instalações. “Várias vezes perguntámos se tinham medo da chegada do furacão. A resposta foi sempre a mesma - muito medo!”, conta Jorge, evidenciando o receio da população local.

É nestas situações, em que se sente mais de perto a verdadeira fúria da natureza, que por vezes é mais fácil perder a calma. No entanto, Jorge tentou sempre manter a tranquilidade e passá-la a quem estava consigo, dentro do que é possível numa situação destas. “Quando assisti a situações em que as pessoas perdiam a calma e a serenidade percebia que não adiantaria muito assumir esse estado de espírito. Não estava ao alcance de ninguém a possibilidade de nos retirar rapidamente dali e sem qualquer inconveniente para nós”, observa.

“O contacto com esta imensa força da natureza, e os danos que ela provoca, faz-nos perceber a real dimensão do ser humano. Eu próprio fui uma das pessoas a considerar a nossa evacuação de Samaná um pouco desajustada, até perceber que aquele território foi completamente arrasado pelo furacão. Ventos de quase 300 km/hora é uma força tal que está longe daquilo que nós alguma vez experienciamos ou conhecemos. E isso faz-nos subestimar o perigo”, confessa.

“Sempre achei que para valorizarmos o nosso país temos que conhecer o mundo, e, assim, aprendemos a gostar de Portugal com muito mais argumentos e convicção. Viajo constantemente para o estrangeiro, mas sinto sempre a mesma satisfação de voltar ao nosso país e, muito concretamente, à nossa cidade de Braga!”, remata Jorge.


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