Revista Rua

Apreciar. Música

Kimi Djabaté

"Como griot que sou sempre tomo referências na minha herança cultural"

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Em primeiro lugar, gostaríamos de perguntar a Kimi se as suas raízes são o mais importante na sua música. Quer falar-nos um pouco do legado, de ser griot? O que significa exatamente isso?

Os saberes de um griot  vêm desde o século XIII. Foram os griots que criaram instrumentos como a balafon, kora, djembe. Os griots são os contadores de histórias por excelência e os intermediários entre o povo e o Rei. No fundo eu nasci de toda esta riqueza de saberes que passa de geração em geração. E que somente um verdadeiro griot o adquire.

 

A Guiné-Bissau continua a estar sempre presente na sua música, independentemente do sítio onde viva e do sucesso que tenha?

Sim, claro.

 

É verdade que começou a tocar balafon com apenas três anos? O que é que essa sonoridade lhe transmite?

Sim comecei a aprender com 3 anos. Esta sonoridade transmite-me alegria, tranquilidade, sensação de viagem, mesmo longe do meu pais faz-me sentir perto dele. E acima de tudo um sentimento de realização, quer emocional quer profissional.

 

Nessa altura de criança, o que é que a música representava para si? O que ouvia na altura?

Música traz um sentimento ambíguo, tanto representava alegria como a tristeza. Maioritariamente música de West África, griots do Mali e Guiné Conacri.

 

As suas experiências e memórias inspiram o seu processo de composição? Li numa entrevista que deu há muitos anos que às vezes estava a compor e sentia "uma coisa boa no peito”. Ainda sente essa coisa boa no peito quando compõe as suas músicas?

Sempre o sinto. As memorias são muito importantes para as minhas novas composições, no entanto também fazem parte delas as experiencias atuais da minha vida em Portugal.

 

Chegou a Portugal há muito tempo. O povo português ainda não o inspira de certa maneira? O que acha sobre o nosso país?

Cheguei a Lisboa nos anos 90. Naturalmente, sempre o que me rodeia me inspira. Para as minhas músicas absorvo também a cultura que estou a viver no momento e essa é agora a portuguesa. Até porque os portugueses são um povo hospitaleiro ede uma forma geral sou bem recebido. Sinto-me em casa.

 

Quer explicar-nos o seu disco Karam? Que músicas são estas

Karam, em língua mandinga, significa edução. Este meu álbum foca essencialmente  num dos papéis dos griots que é de levar a mensagem ao seu povo, neste caso Karam “educa” através das varias músicas toca as varias esferas da política, da vida social dos guineenses, do papel da mulher, da importância da mãe,  dos sentimentos.

 

Quis fazer um disco bastante diferente do primeiro Teriké. Porquê? Não estava satisfeito com o seu primeiro disco?

Teriké satisfaz-me bastante. Mas cada disco tem seu caminho e seu objectivo. E reflete muito o que estou a viver no momento. E o que quero transmitir em cada fase da minha vida. Cada contexto cria a sua história que traduzo em canções.

 

O disco Karam foi mesmo muito elogiado. Porque acha que isso aconteceu?

Karam foi um disco, assim como os meus outros, no qual depositei muita dedicação. Estrategicamente optei por uma editora que tem uma óptima distribuição internacional e por isso o álbum chegou mais longe.  Ligando isto com a cada vez maior procura e consumo de World Music, foi um disco com enorme sucesso, atingindo até o 2º lugar no World Chart Music.

 

O amor a África está muito presente nesse disco, não é? Sentiu necessidade de cantar as suas origens?

Sim. Como griot que sou sempre tomo referências na minha herança cultural.

 

Kanamalu foi o seu terceiro disco. O que quis fazer neste disco? Também canta as suas origens aí. Mas o que muda neste seu disco?

No fundo sigo uma linguagem semelhante em ambos os discos. Pois o nosso papel (de griot) é dar continuidade à nossa tradição. No entanto e comparativamente com Karam, em Kanamalu explorei mais um certo tipo de instrumentos como a bateria. Introduzi a sonoridade da Môlo (instrumento feito pelos griot, mas que não tenho hábito de o tocar publicamente, mas sim na minha privacidade/intimidade familiar, porque representa saudade), no entanto eu quebrei a tradição e usei este instrumento. Introduzi o fado procurando uma simbiose entre a cultura portuguesa e mandinga.

 

“Não tenhamos vergonha de quem somos”. É essa a principal mensagem do disco Kanamalu?

Sim, o maior ênfase do disco é de fato isto. Quero realçar que ser griot é um dom e uma virtude e devemos ter orgulho nisso e dar continuidade à nossa tradição. Sei de casos de griots que desistiram de ser griot. O disco encoraja os griots e nomeadamente a minha família a continuarem a ser quem são.

 

As músicas do Kanamalu (exceto uma) são cantadas em crioulo guineense. É uma homenagem à sua terra?

As minhas músicas são cantadas em Mandinga e Fula. E uma pequena percentagem de crioulo Guineense. Não é propriamente uma homenagem.

 

Pretende também chamar à atenção para os problemas da Guiné, correto? A sua voz é veículo para uma união a favor da terra que o viu nascer? É isso que quer?

Sim. Conforme dita a tradição, um griot leva a mensagem do povo aos superiores. Adaptando isto aos tempos de hoje, a minha voz é o instrumento para levar uma mensagem de união para os guineenses, lembrando de vários conflitos políticos e necessidades de mudanças sociais no que concerne ao papel das mulheres, dos próprios griots.

 

Vai atuar no festival urbano L’Agosto, em Guimarães. O que tem preparado para esse espetáculo? O que vai apresentar aos presentes?

Um espetáculo que é composto por um reportório de músicas pertencentes aos três álbuns e novas sonoridades que ainda não estão editadas.

 

Quer deixar uma mensagem para que as pessoas assistam ao seu concerto no L’Agosto?

Uma viagem sem necessidade de comprar bilhete de avião.


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