Revista Rua

Observar. Região

Leituras com vida dão alma às freguesias de Braga

Um conto que conta para minimizar a solidão dos idosos.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

A sala está cheia. Aqui são todas mulheres. Uma a uma ocupa o seu lugar. Aos poucos, a sinfonia de conversas vai acalmando. Não, não é fado que se vai cantar, são histórias e leituras que dão alma às freguesia. E é preciso silêncio que se vai contar um conto! Desde 2012 que a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em parceria com o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Braga e com o Grupo de Voluntárias “Patrulha Teodora – Associação de Guias de Portugal – 1ª Companhia de Celeirós dá vida às leituras com o projeto “Leituras com vida: dão alma às freguesias de Braga”. É assim uma vez por mês nas  juntas de freguesia da cidade bracarense. O programa tem como vertentes de atuação a Biblioterapia para idosos, com atividades de leitura e de expressão artística desenvolvidas por animadores para idosos.

Hoje estamos na sede da União de Freguesias de S. Lázaro e S. João Souto. É o último dia de Novembro e assiste-se à leitura, interpretação e dinamização de “Pedro das Malasartes”. O conto, extraído do livro Contos para rir de Luísa Ducla Soares, pôs toda a gente à gargalhada com as trapalhadas no decorrer de toda a história. Segundo as palavras das animadoras Celeste Magro e Conceição Marques, “este é um projeto que pretende chegar junto da população idosa, aproximando-a da leitura, e onde nós, mensalmente, promovemos uma hora do conto, como garantia de animação lúdica e de leitura”.

Desde o primeiro ano que Armanda Pires participa neste programa: “É importante para mim e para estas pessoas para poderem conviver. Para reavivar as histórias e as animadoras são muito boas, já não passamos sem elas”. Com 86 anos, Duartina Alves Pereira frequenta esta actividade há quatro: “Gosto de vir porque é como uma terapia e sinto-me muito bem. Passo aqui a tarde e estou sempre atenta para saber o dia. Sabe-me tão bem. Fico consolada”.

Gargalhadas não faltaram enquanto as animadoras iam desenvolvendo a narrativa. O conto escolhido era engraçado e divertido mas também ensinava e alertava para situações e questões da vida prática. Com uma grande interactividade entre animadoras e público presente, os grandes objectivos desta sessão foram rir, divertir, socializar, estimular a imaginação e atenção, bem como proporcionar momentos recreativos, ocupacionais e de alívio de tensões diárias através da brincadeira e do lazer. “A adesão é expressiva e sentimos que os idosos gostam de recordar, gostam destes momentos e de ouvir histórias. Gostam, sobretudo, que lhes leiam e contem histórias, porque muitos não sabem mesmo ler, ou já têm muita dificuldade”, ilustrou Celeste Magro. São, muitas vezes, “viagens em redor das histórias e contos mais tradicionais, quase sempre adaptados para uma linguagem acessível e sempre dramatizadas, de forma a envolver e estimular a participação dos mesmos”.

Um conto que já tem quatro anos

Este projecto começou há quatro anos na Junta de Freguesia de S. Vicente:  “É com enorme prazer que podemos dizer que, mensalmente e já há quatro anos, trazemos ao Asilo de S. José leituras e sorrisos, despertamos memórias e emoções. Fazemo-lo de coração e com o coração para que se passem bons momentos de prazer e convívio sempre aliados à tradição oral”, dizem Celeste Magro e Conceição Marques. As animadoras ainda aproveitaram para dar uma palavra de agradecimento à Junta de Freguesia de S. Vicente, dirigido à pessoa do Dr. Domingos Alves, por “todo o carinho que demonstra por estes residentes”.

João Pires, presidente do executivo da União de Freguesias de S. Lázaro e S. João Souto agradeceu pelo trabalho desenvolvido pelas técnicas na freguesia em prol dos mais velhos. Agradeceu igualmente à biblioteca Lúcio Craveiro da Silva e a todos os presentes. “Abraçamos sempre todos os projetos que dão uma melhor qualidade de vida às pessoas que vivem na freguesia. Há pessoas que vivem numa absoluta solidão e este projecto procura dar um pouco de companhia e pelo menos tirá-las de casa. Quando nos foi feita a proposta de trazer à freguesia esta actividade aceitamos imediatamente e tem tido um resultado excelente todos os meses. Sendo coordenado e dirigido por estas duas técnicas formidáveis”, conclui João Pires.

Esta é uma história que ainda não tem fim. Um conto invulgar que encontra nas palavras das técnicas a melhor expressão para terminar este capítulo: “o bom trabalho é aquele que, em alguma medida, nos realiza, nos dá satisfação e nos faz sentir úteis para a sociedade em que vivemos; enfim, um trabalho cujo sentido conseguimos perceber. Continuaremos até quando nos quiserem…com muita alegria, muitas histórias e muita animação. Esta é a nossa promessa. Muito obrigadas e bem hajam!”.


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