Revista Rua

Saber. Entrevista

Luís Coquenão: o guardião da arte pura

Precisa de poucas palavras para descrever a sua obra mas os pensamentos que expõe têm uma complexa profundidade. Para criar é preciso fazer “tudo o que é menos provável”. Deixámos o guião de lado e descarregamos tudo para sermos livres, como o mestre ensinou.

Fotografia: Nuno Sampaio

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Luís Coquenão tem exposto em galerias como a Astarté, Galeria Mário Sequeira, Fundação Muñuz. Tem também dado um importante contributo para a afirmação regional e nacional da Bienal de Arte Jovem de Vila Verde.     

Pintor conceituado, recebe-nos no seu atelier, na casa onde vive há cerca de 20 anos, em Vila de Prado. “Isto aqui é super desconfortável”, diz. Tão incómodo como “o tal masoquismo de criar as coisas impossíveis”. Acorda todos os dias a imaginar um quadro e é no “momento em que acorda e que se deita que a pintura existe”. Entre panos, vassouras e pincéis normais descobrimos na sua voz a incessante procura de ser autêntico e único. Luís Coquenão cria “iconosofias” e é poesia ver os seu pensamentos nas telas. E, ao longo da conversa, os quadros pendurados nas paredes da sua sala passaram a fazer parte de nós. 

Disse-me que até à Bienal de Vila Verde nunca quis falar em público. Porque aceitou agora falar connosco?

Essa é a pergunta chave da questão da arte e da relação do artista com o público. Tudo aquilo que é a expressão artística, em princípio, é muito individual. Não preciso de outras palavras para além daquelas e quanto menos palavras usar para explicar o que estou a fazer mais estou dentro do elemento em si. A obra tem de falar por si.

Na sociedade contemporânea qual é o papel que a arte ocupa?

Não era uma coisa que me interessava, principalmente no princípio, porque fazia uma coisa que gostava e havia muita gente que gostava de ver. No meu caso completamente apolítico, via mais a política a interessar-se por mim do que eu me interessava pela política. A arte estaria num plano em que, ainda hoje não me considero profissional a essa parte, é complicado os artistas tornarem-se profissionais. Tornam-se responsáveis no sentido de produzir alguma coisa útil. O sentido de utilidade só vai acontecer depois, se acontecer. Como iria tentar saber ou colocar-me no mundo a não ser na minha individualidade?

Assume-se como um autodidata e diz que isso lhe dá liberdade de pensamento. Porquê?

O que eu noto, e as candidaturas que vejo chegarem à Bienal, é que hoje, e bem, há muita gente que faz o curso de Belas Artes. Há uma tendência para uma pessoa se adaptar a algum tipo de formatação que vem da própria escola. Saem da escola com um certo currículo, com uma triagem feita e já têm uma galeria à espera, ou seja, há já uma saída natural dentro de um determinado formato. Eu comecei por frequentar o curso de Belas Artes mas por razões da vida desinteressei-me e voltei-me para filosofia. Não sabia que isto de ser artista não é uma opção concreta que se tem. É algo que se vai construindo e desenvolvendo, no meu caso mais pelo próprio prazer que eu tinha na arte do que pelo prazer em ser artista porque essa parte é a mais difícil, o tal masoquismo de criar as coisas impossíveis e sair da nossa zona de conforto. 

É difícil ser artista pela concretização das ideias ou pela vida que um artista tem?

Para mim, a razão é que as coisas pareciam muito fáceis. Estava a ser criativo e era fácil fazer um desenho. No entanto, os desafios vão sendo maiores. Eu tenho de encontrar o meu próprio espaço no mundo da arte. Isto não quer dizer ser o melhor do mundo, que é um pensamento linear que existe bastante: o mais conhecido, menos conhecido, melhor que o outro. Ainda que a aceitação seja o primeiro ponto, a única coisa que acontece é encontrarmos o nosso lugar, como em tudo na vida. Para desaparecer o stress, a frustração, qualquer tipo de competitividade… tudo isso são venenos para a própria atitude artística na forma mais pura. 

Há sempre uma luta pelo espaço…

Pois. Eu considero que essa luta se torna menos evidente quanto mais libertos estivermos. 

O verdadeiro artista faz a arte pela arte. 

Quando isso acontece ela torna-se muito mais apetecível. Quando estamos demasiado zelosos de que aquilo tem de chegar a A, B ou C porque os compêndios dizem isto ou porque é moda, ou porque os museus procuram... Chamar a atenção do óbvio é das coisas mais difíceis que há. Na minha atitude torna-se muito mais óbvio este pensamento: não há explicações, só há opções. A explicação é dada pela própria consequência da coisa que eu faço. Portanto, falar sobre isso é óptimo mas como estímulo no outro, o que é óbvio para mim. A arte tem essa obrigação de falar do óbvio como se fosse uma coisa fantástica, maravilhosa e nova.

Quando percebeu que ia ser artista plástico. Lembra-se de algum momento específico?

Comecei muito cedo. Nasci em Angola, a minha mãe também sabia pintar, era autodidacta mas tinha jeito e uma facilidade muito grande. Então, desde pequeninos que ela nos punha a pintar para ficarmos quietos, para mim sempre foi muito natural. Lá para os 16/17 anos percebi que afinal é possível fazer muito mais, o passo seguinte, que é inventar, descobri quando vi um livro do Salvador Dali. Aquilo abriu-me completamente, fiquei muito entusiasmado, caramba pá! Porque o Dali tem uma técnica muito clássica e conseguiu transformar aquilo em imaginação. Para mim, a grande coisa disto, se pudermos englobar tudo, é a imaginação. A minha visão sempre foi um bocado sui generis. Reparei que estava a fazer uma iconosofia, uma mistura entre a imagem e a filosofia, tentar mostrar em imagem os pensamentos. A ciência dá-me uma base para ser eu próprio e tirar as minhas conclusões e as minhas filosofias, as minha ideias. Na filosofia há qualquer coisa de interessante se tivermos esta postura. Já estou cansado das ideias, de cada um dizer uma coisa diferente com as mesmas palavras e chegar à mesma conclusão praticamente mas com outras palavras, e ficamos num ciclo vicioso.

Como é o seu dia, o dia de um pintor?

Numa palavra é uma rotina. Começo o mais cedo possível e com o processo já determinado do que vou fazer… é uma ginástica mental e é importante. O bom de ser autodidata, o caminho mais longo é ser completamente autodidata, é aprender consigo próprio e fazer essa introspecção. Não sei se posso estar a dizer uma asneira, mas à partida, quatro anos, com horários, notas, com obrigação de currículo, já condiciona. Não quer dizer que os professores não tenham a mesma consciência que eu tenho, mas os alunos é que podem deixar de a ter porque é uma coisa linear e é muito mais fácil cumprir um curso com coisas fáceis de seguir do que ser completamente caótico e ter uma procura pessoal. Portanto, nada disto é muito absoluto. 

Há duas frases que me serviram para tudo. Uma que ouvi em Lisboa, pelo professor Carlos Amado, que dizia assim: “Digam o que quiserem mas digam bem dito” — dito isto, para mim a escola está acabada e não preciso de mais nada. A outra, mais negativa, ouvi no Porto: “Se pensam que vão sair daqui artistas estão muito enganados porque se sair daqui um já é muito”. 

Acha que vivemos num momento artístico estagnado?

Se estivessem certos e se a ruptura fosse para estarmos todos enganados consideraria a ruptura como negativa, mas eu considero que estamos medianamente certos com muita coisa para saber. A ruptura tem de acontecer porque estamos viciados numa determinada mundividência e externalidade, inclusivamente. O pior que pode acontecer a uma artista é estar sossegado, estável, sem desafios de maior.

Na primeira entrevista que dei, ainda na década de 90, perguntaram o que achava do movimento artístico de Braga e eu respondi: “Não, está bem!”. Se podemos achar que agora não está grande coisa, há 20 anos então o que seria… Às vezes a solicitação até é demais, eu não vejo nem metade do que acontece em Braga, portanto, eu tenho de considerar que está óptima. Embora tudo aquilo que se faça aqui, em termos culturais, se faça por iniciativa própria, privada, em que há uma pessoa que decide. Os Encontros da Imagem foram decididos assim, com o Rui Prata. O Mário Sequeira também foi assim com uma paixão por querer fazer uma galeria daquelas. No cinema era igual. Na música eram também as próprias bandas que tinham a sua proactividade porque não estavam à espera de subsídios do Estado. Tem de haver iniciativa própria e com um ambiente destes até é mais fácil encontrar a sua própria identidade. É a única forma de encontrar identidade. Cada vez vejo mais gente a ter essa iniciativa.

E as instituições vêm na cultura algum interesse especial?

Quando fui convidado pela Bienal de Vila Verde vi que estavam sem assessor. Inicialmente foi uma boa iniciativa, era  preciso dar continuidade e fazer perceber qual era implicação que aquilo tinha na cultura, que não era o fazer por fazer. Será que se cria identidade, será que as pessoas se revêem nisto? Depois, como é algo muito volátil e com pouco público não se investe logo.

Vivemos num mundo cada vez mais globalizado. Estava a dizer que com essa mudança temos referências de locais, espaços e tempos diferente. Isso faz com que percamos identidade?

A questão da referência é importante. As coisas que são grandes têm mais tendência para abarcar gente mais desprevenida e acabar por criar uma identidade de massas. Quando falamos de identidade é sentirmo-nos bem no lugar que encontrei na arte, como uma terra pequena. Temos outras coisas que são dali que têm de nascer, que vão ser atrativas nesta globalização para alguém que não tem isto, esta essência. A globalização não interfere com a identidade, antes pelo contrário. Se fizermos tudo igual ou parecido com o que está feito, só que mais pequeno, não é interessante nem para quem está nem para quem vem.

Porque é que a identidade é tão importante?

Começa-se a perder o pé em saber qual é a referência. Dentro da mudança há coisas que só são referência de base e se perdermos essas referências, morremos. Tão simples como isso. As coisas definham. Deixam de ter sentido.

 Podia falar mais sobre a Bienal de Vila Verde?

Integrei esta Bienal numa fase em que eu me desligava das palavras e concentrava-me mais na obra. Na altura foi o Doutor Manuel Barros que implementou isto. A crise instalou-se e os investimentos na cultura passaram para segundo plano mas manteve-se o esqueleto que é o concurso. Desde o princípio que tenho uma ideia muito proativa, que há dificuldades, há. Estas dificuldades são naturais em qualquer circunstância, dentro do interesse da maioria — estou a falar da Bienal e dentro de uma autarquia — eles não iam gostar de gastar um monte de dinheiro  e não entender nada do que ali está. Trazer para ali diálogos de uma sociedade urbana não é propriamente a mesma coisa que colocar ali diálogos de uma sociedade “rural” e urbana. 

Quando se fala de arte refere-se pouco o valor económico da arte. Como vê o negócio da arte?

Não há dúvidas que é um negócio. Falando da parte profissional do artista, implica mover um mercado qualquer, implica interações. Com o mínimo investimento consegue-se fazer pintura. Formam-se galerias, mesmo os museus não são estáticos, são entidades proativas na construção do gosto, tem financiadores, precisam de dinheiro. Há muita gente que é necessária, gera-se um mundo. O mundo da arte que vive disso. 

Depende da galeria onde expomos, depende do museus onde vamos, depende de quem fala de nós, depende do crítico que nos apoia, tudo isso conta para a afirmação de qualquer tipo de arte. Estão aqui duas forças em equilíbrio. Eu, para conseguir meios, provavelmente hipoteco grande parte do trabalho artístico. Colocar uma escultura polémica no centro de Braga seria complicadíssimo. Quem é que aceita? Quem não aceita? Tudo depende de quem investe. 

A parte perversa disto é a parte perversa daquilo que é perverso numa economia. Naquilo que é o essencial com toda a gente feliz, e uma economia que só quer saber da forma criativa como vai ganhar dinheiro. Neste ponto, são os dois opostos, dinheiro por dinheiro é a finança, arte pela arte é a criatividade pura. São dois mundo autistas à mesma. Basicamente, vivemos neste equilíbrio, não é mau ganhar dinheiro com a arte. Por outro lado, dependendo da arte que estamos a fazer, pode ser mais ou menos elitista e pode dar acesso a mais ou menos gente. No entanto, na pintura, as galerias estão abertas, pode-se ir lá e é gratuito ver. Quando a gente o tem em casa começa a fazer parte de nós e ver um quadro já implica aquela parte perversa que pode ser em meu prejuízo mas que pode ser um investimento. Em meu prejuízo porque a pessoa paga só para ver num museu. 


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