Revista Rua

Observar. Talento

Manuel Rodrigues Almeida

Texto: Helena Mendes Pereira |

“Um escritor, um pintor, que conseguiram fixar numa página ou num quadro um sentimento das coisas do mundo, uma visão que durará para sempre, comunicam-me uma emoção profunda.”, Federico Fellini (1920-1993)

[Doris, 2015. Pastel seco sobre tela (145x145cm]

 

Herdeiro da tradição neorrealista italiana, Federico Fellini dotou os seus filmes de estórias e da ficção dramática das emoções que reprimimos na necessária existência social que nos é exigida. As suas personagens são anti dogma, são o apogeu e o exagero do belo barroco e, ao mesmo tempo, a dimensão intelectual dos clássicos. Dono de uma capacidade invulgar, talvez até surreal, de leitura do mundo, era um esteta e o seu imaginário inspirou criadores de várias disciplinas. Os filmes de Fellini são respiração, reflexão e transpiração.

Manuel Rodrigues Almeida (n. 1989) quis ser arquiteto. Tem a mão exata do desenho mas na licenciatura em arquitetura, que frequentou entre 2007 e 2010 (FAUP), faltava-lhe o universo mágico e denso da pintura, nomeadamente nas possibilidades de, por via da representação do corpo, isolar o sujeito do contexto, evidenciando as suas emoções físicas e psíquicas. A arquitetura é sempre enquadramento. Pede paisagem. Manuel Rodrigues Almeida produz a inversão desta lógica. Os seus retratos são desprovidos de cenário, não se relacionam com o espaço. Estão imersos no fundo neutro do pensamento do quotidiano líquido. Interessa isolar o objeto, dando atenção máxima ao detalhe. Mãos perfeitas e corpos que revelam um profundo conhecimento da anatomia, que fazem deste jovem pintor um herdeiro da melhor tradição clássica do trabalho em belas artes.

O universo de Manuel Rodrigues Almeida não tem personagens, ainda que haja nomeação dos sujeitos, mas sentimentos e sentidos, em alguns casos, latos e restritos. Sem cenário ou contexto, cada sujeito, numa dimensão próxima da escala do espetador, convida à construção de uma estória individual.

A outra dimensão que nos impressiona, da proposta deste autor natural de Viana do Castelo, é a da técnica do material e do suporte. Pastel sobre madeira, pastel sobre tela. A dificuldade adensa-se no difícil exercício de um realismo de pendor hiper-realista e/ou fotográfico.

O percurso é, ainda, de poucas alíneas curriculares, mas já lá vão alguns prémios, exposições e, sobretudo, uma resposta de encantamento por parte dos seus pares, de colecionadores e outros amantes de arte que são unânimes em reconhecer uma alma de pintor no trabalho que ora se apresenta.

Há em alguns dos detalhes dos sujeitos de Manuel Rodrigues Almeida a presença iconográfica do seu lugar e da sua identidade (nas cores, na tipologia das indumentárias ou dos penteados femininos). Intencional? Disse também Fellini que “o artista é sempre um provinciano. Ele vive entre um mundo tangível e um intangível – essas são as fronteiras da sua província.” 

[Tecido, 2014. Pastel seco sobre madeira (120x120cm]


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