Revista Rua

Observar. Passeio Público

Mão Morta

“Nós estamos a viajar no som e é isso que nos mantém solidamente vivos”

Pedro Avelar

Texto: Pedro Avelar |

Instantes antes de um concerto arrebatador no Teatro Diogo Bernardes em Ponte de Lima, Adolfo Luxúria Canibal falou à RUA do constante processo de reinvenção dos Mão Morta que eterniza a vontade da banda em criar novos sons. Depois da recente experiência com a orquestra Remix Ensemble, que deu origem ao disco Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram, gravado no Theatro Circo, em Braga, e antes da digressão comemorativa do álbum Mutantes S.21, Adolfo desvenda, entre muitas outras coisas, a produção de um novo álbum de originais lá mais para o fim do ano.

Para quem não sabe, quais são os projetos dos Mão Morta atualmente?
Acabamos de lançar o disco de um espetáculo que fizemos no ano passado, com músicas de repertório, mas revistas, uma vez que foram arranjadas para serem tocadas juntamente com a orquestra Remix Ensemble.
A meio do ano, a partir de junho, sensivelmente, vamos começar com o alinhamento de concertos de comemoração dos 25 anos do álbum Mutantes S.21, portanto, de grosso modo, a segunda parte do ano será sobretudo à volta disso, em que vamos tocar o álbum e mais alguns temas que se relacionem de alguma forma com o álbum. É um espetáculo mais visual, com projeções de ilustrações relativas a cada um dos temas que vamos tocar. No fim do ano, vamos provavelmente - pelo menos é essa a nossa intenção -, fazer sair um novo disco de originais. Portanto, é possível que ainda no fim deste ano ou no início do próximo comecemos a tocar temas novos.

O Mutantes S.21 é um álbum marcante para vocês e também para a música portuguesa, correto?
Sim, acho que foi importante porque trouxe-nos outra visibilidade, fez-nos passar dum patamar, de um circuito mais underground, para um circuito mais visível. Sem renegarmos as nossas raízes, trouxe-nos uma visibilidade que não tínhamos. Trouxe-nos um êxito radiofónico, uma passagem exaustiva nas televisões... chegámos a um outro público. É um álbum especial no sentido em que nos salvou a vida (risos) Os Mão Morta estavam a arrastar-se demasiado, já tínhamos três discos custosos, difíceis de sair, com poucas vendas... Portanto, as coisas começavam a cair um bocado no precipício. Havia algum vazio sobre o que podíamos fazer ou não e, efetivamente, o Mutantes S.21 veio abrir-nos uma data de portas, veio dar-nos uma estabilidade a nível de concertos e como banda, que de outra maneira não teria sido possível. Os Mão Morta teriam acabado há muito se não fosse esse disco. É também um disco importante porque é um dos nossos melhores discos. É o nosso primeiro disco verdadeiramente temático. Já tínhamos tido ensaios antes, nomeadamente com o O.D., Rainha Do Rock & Crawl, mas o grande disco, verdadeiramente temático, conceptual de alguma forma, foi o Mutantes S.21, faceta que depois explorámos noutros discos até atingirmos o seu esplendor máximo no Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável. Deu-nos uma coisa que nós, ao fazermos o segundo disco, já tínhamos de alguma forma assegurada: uma liberdade – chamemos-lhe estética – de fazer o que nos apetecesse. Faltava-nos, para essa liberdade ser real, que houvesse condições financeiras para a podermos exercer. E o Mutante S.21, para além de vir acentuar essa liberdade estética de poder fazer coisas muito diferentes sem perdermos a nossa identidade, veio também cimentar essas bases para o podermos fazer na realidade. É um disco, para nós, verdadeiramente importante.

 

 

Este próximo álbum que estão a preparar vai fugir muito daquilo que já fizeram? Vocês têm de se reinventar, não é?
Estamos ainda na base da composição. Neste momento, em termos de trabalho, estamos a trabalhar coisas muito menos vocalizadas e com muito mais recurso à eletrónica. Menos guitarras... quer dizer, as guitarras têm que lá estar sempre porque nós temos guitarristas e eles não podem ir para o desemprego (risos), mas a base de composição está a ser muito a eletrónica. Nós já trabalhámos eletrónica no passado para iniciar a composição, mas aqui estamos a dar primazia em termos de ocupação do espaço sonoro, que é efetivamente uma novidade em nós porque, até agora, utilizámos a eletrónica como base de partida, com a composição a desenvolver-se para o piano ou para as guitarras. E já trabalhámos a eletrónica a encher o espaço, mas enchendo tipo manto, e aqui não. Estamos a dar primazia mesmo à eletrónica enquanto matéria de composição, matéria sonora omnipresente.

Nessa composição, a parceria com a Remix Ensemble inspirou-vos para novas sonoridades?
Não, a Remix Ensemble foi um trabalho – vamos fazer ainda um concerto ao vivo com eles em setembro – essencialmente de revisitação do nosso património, explorando-o de uma forma que nos desafiasse e que desafiasse as próprias canções, dando-lhe uma leitura mais próxima do que é a música contemporânea. Foi nesse sentido que trabalhámos. A Remix Ensemble é um agrupamento que funciona muito bem porque são músicos que estão habituados à interpretação de obras contemporâneas, que estão habituados a fazer leitura de pauta que não são leituras de pautas convencionais, como qualquer músico erudito, de conservatório. Têm também uma qualidade rara nos músicos de conservatório que é a capacidade de improvisar. Tentámos explorar estas diferentes facetas consoante as músicas. Há músicas que só funcionavam com improvisação, em que os músicos da Remix improvisaram efetivamente, comandados pelo maestro. Foi uma surpresa para nós, porque não estávamos habituados a que músicos eruditos tivessem essa capacidade de improvisar. Não quer dizer que não consigam, mas é uma exceção à regra. Para nós, foi uma satisfação trabalhar com a Remix Ensemble porque efetivamente eles tinham essa capacidade de criar sons a partir de pautas estranhas, que não tinham notas, só tinham anotações. Mas foi um trabalho muito específico, não foi algo que possamos dizer que nos influenciou na composição de trabalhos futuros. Nós já tínhamos trabalhado, nomeadamente no disco Nus, sonoridades mais – chamemos-lhe – sinfónicas, utilizando cordas e instrumentos normalmente associados a orquestras, porque os temas pediam. Quisemos entrar nesse tipo de densidade sonora, mas não quer dizer que isso nos influencie. Nós gostámos muito de trabalhar com a orquestra, felizmente eles gostaram muito de trabalhar connosco também, e isso não fecha as portas a que se repitam novas colaborações. Aliás, vamos ter o tal espetáculo já em setembro, que está no disco que agora saiu. Mas não ficaram fechadas as portas para que no futuro possamos fazer outras colaborações diferentes, incluindo colaborações que possamos criar, de raiz, coisas comuns para os dois agrupamentos.

São essas reinvenções que vos ajuda a manter o entusiasmo de trabalharem juntos, depois de tantos anos?
Sim, para trabalho monótono e repetitivo já basta aquele que é o nosso ganha pão (risos). Não nos estou a ver a fazermos sempre o mesmo com aquilo que nos dá prazer. O prazer está exatamente em estarmos a explorar, em estarmos a aprender e estarmos a descobrir coisas novas. Nós estamos a viajar no som e é isso que nos mantém solidamente vivos.

O objetivo de ir tocar a Berlim mantém-se?
Esse objetivo mantém-se desde o dia em que nos formámos. Temo bem que quando esse objetivo for atingido, todos os nossos objetivos desapareçam. Porque no fundo é esse o objetivo último que nos mantém em atividade. De resto, andamos a entreter-nos para atingir esse objetivo (risos).

Falta muito para lá chegarem?
Não faço ideia (risos). Estamos sempre a tentar, mas ninguém nos leva para Berlim!

 


4 vídeos 808 followers