Revista Rua

Apreciar. Cultura

Maria Beatitude: Entre luz e sombra

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografia: Nuno Sampaio

Um jeito meigo, numa pronúncia do Norte que não denuncia um sotaque característico. Um traço expressivo, numa pintura que traz histórias em cada rosto que preenche a tela. Um olhar feminino sobre a própria vida feminina, representada entre a luminosidade do poder da mulher e a sombra das dores que ampara ao longo do seu percurso. É desta forma que descrevemos o trabalho de Maria Beatitude, uma jovem pintora cuja aura artística se esconde atrás dos quadros que, à primeira vista, podíamos pensar tratarem-se de autorretratos. Recatada, preferindo não revelar o seu rosto à fotografia, Maria Beatitude expõe, até 22 de abril, Mulheres de Luz e Sombra, no Teatro Gil Vicente, em Barcelos.

“Tudo começou com as brincadeiras de criança, principalmente com as bonecas. Enquanto fazia as roupinhas, inventava sempre uma história que depois acabava por aparecer nos meus desenhos. Nunca tive influências ao nível artístico, mas felizmente sempre me foi dada toda a liberdade para seguir o que me fizesse sentir feliz. Hoje, acredito que foram aquelas brincadeiras de criança que me ajudaram a desenvolver a criatividade que acabou por influenciar a minha vida profissional e artística”, conta-nos Maria Beatitude.

Com formação em Design Têxtil, Design Gráfico e Pintura, dando-lhe uma noção compacta das cores, Maria Beatitude apresenta trabalhos em série, em acrílico e óleo sobre tela, e define-se a si própria como “uma jovem artista plástica com muita vontade de continuar a progredir, mas consciente de que tal só é possível se persistir em aprender e descobrir”. Nesta série apresentada em Barcelos, os gestos e as expressões femininas emergem dos quadros, numa espécie de afirmação de um olhar poético sobre a vida. “A inspiração está em todo o lado. Não sei se tenho uma análise poética… talvez me perca com facilidade a olhar e a pensar em determinadas coisas. Acho que é esse tempo que me deixa olhar tudo de outro modo. Os gestos e as expressões das pessoas revelam muito das suas e das minhas histórias”, afirma Maria Beatitude, acrescentando: “Os enredos fascinam-me! Os meus processos criativos passam sempre por uma ideia que depois se torna numa narrativa com detalhes e humor”.

Com elementos contrastantes a fortalecer a sua arte, quebrando a monotonia da obra e revelando detalhes mais obscuros, misteriosos até, da figura feminina, a artista coloca em evidência com a exposição Mulheres de Luz e Sombra as dicotomias humanas, entre o que mostramos e o que escondemos. “Acredito que todas as pessoas têm um lado de luz que é visível e conhecido, e um lado de sombra que será um lado mais protegido e privado. Foi assim que surgiu esta série onde mulheres misteriosas são protegidas pela sombra e reveladas pela luz”, explica-nos.

Mas nem só de rostos e gestos femininos se compõe o repertório de Maria Beatitude. Em Histórias Conjugadas, uma série icónica da pintora, Maria Beatitude apresenta obras em óleo e acrílico sobre tela, combinando cores e dando ênfase à palavra. Ou melhor, aos verbos. “Eu disse que as histórias e o humor estão sempre por detrás dos meus trabalhos. Certo dia, tive dúvidas em relação à conjugação de um verbo.  Ao consultar os respetivos tempos verbais, fiquei encantada com a disposição gráfica de todos os tempos nas várias pessoas, mas era apenas informativo, monótono. Não resisti a escrever mini narrativas onde os verbos indicam ações, situações ou estados, com pessoas, número, modo, tempo e voz. Adoro o resultado!”, esclarece a pintora.

Com a tal pronúncia do Norte que não denuncia nenhum sotaque em particular, Maria Beatitude é um nome forte, numa arte suave, delicada, poderosa na maneira de ser interpretada. A sua obra é para ser observada sem pressas, sem suposições e sem devaneios. É uma mensagem pura de uma mulher que abraça a sua luz e a sua sombra, com todas as voltas e revoltas.


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