Revista Rua

Observar. Passeio Público

Miguel Araújo

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

“Quando faço música sinto que é um momento muito solitário, muito meu”

 

Com sotaque portuense, Miguel Araújo é um dos mais reconhecidos nomes da música portuguesa do momento. Já com várias passagens por palcos minhotos nos últimos meses, o cantautor (como gosta de se apelidar) tem um novo álbum, intitulado Giesta. Um disco de memórias de infância, passadas na casa da sua avó.

Fotografia: Paulo Bico

Quem é o Miguel Araújo? Neste momento, como se descreve como músico?

Não sei muito bem... Às vezes sinto-me mais songwriter, outras vezes mais guitarrista, outras vezes mais cantor. Sou um bocadinho dessas três coisas. Sou um cantautor. Sou uma pessoa que escreve as próprias letras, as próprias músicas, canta e toca. Não sou exímio em nenhuma dessas coisas, mas tudo junto fazem o meu pacote completo (risos) É esse o meu ramalhete!

 

Neste percurso, onde ficou aquele menino que gostava de ouvir as covers cantadas pela banda dos tios? Guarda boas memórias desses tempos?

É a mesma pessoa que vai para o palco, não fugiu para lado nenhum. Esse menino ainda existe. Foi com essa banda dos meus familiares que surgiu o despertar do meu interesse para a música, sem dúvida nenhuma. Sem isso, nunca me teria interessado por música.

 

Hoje, como é ser reconhecido como um dos mais talentosos músicos e compositores da nova geração de artistas portugueses?

(risos) Eu faço a mesma coisa que fazia em 2007, quando ninguém me considerava nenhuma dessas coisas. Por isso, acho que não mudou muita coisa. Não tento corresponder a nenhuma expetativa. Eu quando faço música sinto que é um momento muito solitário, muito meu. E esse exercício de escrever as músicas não é influenciado minimamente por aquilo que consideram de mim. Os elogios são agradáveis de ouvir, fico muito contente... mas não são coisas para levar muito a sério! Tal como o oposto, quando dizem muito mal de mim (risos). Não me posso deixar influenciar por isso.

 

O Miguel, para além de uma voz envolvente, é dono de um incrível dom para a composição. Retira influências do mundo que o rodeia como fonte de inspiração? Como descreveria o seu processo criativo?

Muito concretamente, na maior parte das vezes em que eu faço músicas, tudo começa por uma melodia que eu dou por mim a cantar no banho e reparo que não existe. Pego na guitarra e tento que passe a existir! É esse o meu método. Ou seja, as letras vêm depois. Primeiro ando às voltas com as melodias. Depois, ando dias e dias a ver se as palavras aparecem. Eu acho que há qualquer coisa na música que diz se ela já está pronta ou não. Pode demorar um ano, um dia, uma tarde, uma hora, cinco minutos... Neste processo todo, há uma coisa que faço sempre: quando faço uma letra e uma música, gravo-a para o meu telemóvel para não me esquecer. Quando eu consigo cantá-la de ponta a ponta é porque está pronta. Quando não está pronta, as palavras nem me saem. É esse o meu método, mais ao menos. Agora, de onde vêm as ideias, isso já não sei dizer (risos).

 

Gosta de escrever canções de amor? Relembro por exemplo a melodia “Anda comigo ver os aviões”, escrita para Os Azeitonas. É indiscutível que o amor é um veículo para as grandes canções?

Eu acho que a história da música popular mostra-nos que as músicas devem servir os instintos mais básicos do ser humano: a procura de um parceiro para acasalar (risos). É uma das coisas que está na nossa vida e faz parte da nossa natureza. Todos esses temas me interessam. Eu não sei se a canção “Anda comigo ver os aviões” é totalmente uma música de amor. Fala de várias coisas. O amor é uma delas, mas é quase um pedido de desculpas a uma namorada: “prometo que um dia te levo à América, mas tens de ter paciência”. As músicas saem-me sobre o que elas quiserem. Nunca penso: vou escrever uma música sobre isto. Nenhum tema por si só me interessa. Qualquer coisa pode dar uma música.

 

Prefere dar voz à sua própria escrita? Ou também lhe dá prazer escrever para outros cantores?

Eu gosto muito de escrever para outras vozes. Aliás, cantar não é a primazia da minha carreira. É aquilo em que eu sou pior, diria (risos). Eu sou muito melhor guitarrista do que cantor. O que eu vejo é que eu nunca seria cantor se não fossem as minhas próprias músicas. Eu fiz parte de muitas bandas e em nenhuma era o vocalista. Comecei a cantar já muito tarde e porque eram as minhas músicas... e depois fui melhorando com o tempo. Não tenho dúvidas que se não fossem as minhas músicas eu não cantava. Os meus amigos ficaram admirados quando apareci eu a cantar as minhas próprias músicas.

 

É impossível não falarmos da sua saída d’Os Azeitonas. Foi notável que os seus projetos paralelos tornaram a sua agenda quase caótica. Deixar a banda significou uma mudança nas suas prospeções de carreira? Há um novo Miguel Araújo?

Não, há é uns novos Os Azeitonas, porque eu continuo igual. Há uns novos Os Azeitonas sem mim. Passou a ser impossível eu desdobrar-me. Numa perspetiva muito prática e muito pragmática, não podia haver um concerto d’Os Azeitonas sem eu estar e como eu já tinha muitos marcados, muitas vezes não podia haver concerto porque eu já tinha outro. Então, Os Azeitonas ficavam em casa, impedidos de corresponder às solicitações por culpa minha. No princípio do ano passado, conversámos sobre como seria a melhor maneira, pusemos várias hipóteses, só que esta foi a que achámos melhor: a banda continuar sem mim. O que não significa que um dia mais tarde eu não possa voltar. Nada é definitivo. Muito menos quando as coisas são assim amigáveis. Já fui ver um concerto d’Os Azeitonas sem eu estar lá, que foi espetacular! Nunca tinha visto! Vi da plateia. É uma sensação um bocado estranha. A perspetiva de estar de fora é totalmente diferente. Uma pessoa em palco ouve outra coisa, por exemplo. Coisas que eu embirrava, coisas que nós fazíamos que eu achava que deviam ser de outra maneira, mas só aí é que percebi que afinal funcionavam. Malta, continuem assim! (risos)

 

Falando um pouco da autêntica saga de concertos que fez com António Zambujo, como foi subir a palco em dupla, com concertos esgotados? Isso trouxe-lhe uma nova visão como músico? Como foi essa experiência?

Intensa. Tornei-me um músico diferente, sim. Para já, comecei a cantar um bocadinho melhor (risos). Acho que o Zamba saiu de lá a tocar melhor e eu a cantar melhor. Ele dava-me dicas, porque ele canta excecionalmente bem de uma forma natural. Em contrapartida, eu dei-lhe umas dicas de guitarra, pu-lo a tocar guitarra elétrica, que ele nunca tinha tocado... Eu mudei a minha maneira de cantar depois destes concertos. Não quer dizer que as pessoas notem, mas mudei a minha maneira de relaxar a garganta, consigo aguentar um concerto do princípio ao fim mais facilmente. E não foi só isso: ganhei um à vontade em palco que não tinha até então. Foram tantos concertos, todas as noites, que ganhei um traquejo de palco, uma maneira de falar com o público muito mais à vontade. Foi uma experiência incrível!

 

Vai embarcar agora numa aventura séria a solo. O que tem planeado em termos de carreira?

Não há grande alteração. Quando eu comecei com os concertos a solo, conversei com Os Azeitonas sobre os casos de empate. Ou seja, em pedidos para concertos na mesma data, eu ia dar prioridade aos meus. Isso sempre foi uma coisa que combinamos entre nós. Mas depois começaram a ser tantos concertos que aconteceu o que aconteceu: tive de sair. Eram nove concertos em dez dias, por exemplo. Eram viagens do Algarve para Mirandela, de Mirandela para os Açores. No verão era impossível! Eu ia morrer (risos). Se eu este ano tinha um ano igual, morria! Então, o que mudou foi que agora eu consigo ir para um palco de pé, com voz, depois de ter dormido decentemente! Essa é a única diferença na minha carreira. Eu não tenho muito essa coisa de planear. O futuro é que vai dizendo umas coisas. Há algumas coisas que eu gostava de fazer, como dar concertos sozinho em palco. Talvez uma digressãozinha para o ano. Mas são especulações. Se depois o contexto e a conjuntura não pedir isso, não vai ser isso que eu vou fazer. Não faço planos. Deixo-me levar também.

 

Podemos falar deste novo álbum Giesta? Que álbum é este?

É um álbum em que as músicas se passam todas dentro da casa da minha avó. É um álbum sobre a casa da minha avó, que já não existe… nem avó nem casa. É um disco de memórias sobre essa casa, sobre a minha infância, que foi uma infância felicíssima, normalíssima, mas passada numa casa num contexto meio bizarro, porque o meu avô já tinha morrido quando eu nasci e eu e os meus primos (somos treze) fomos todos educados pela minha avó, porque as nossas mães trabalhavam. Foi a primeira geração de mulheres a trabalharem em bancos. Então, nós crescemos naquela casa em que vivia a minha avó e duas irmãs dela. Foi um ambiente muito bom para alimentar a imaginação e a criatividade. É então um disco sobre aquilo que se passava nessa casa. É um álbum que tem o Porto e a Maia como fundo. Musicalmente, é gravado na minha casa. Eu montei um miniestúdio num quarto, toquei a maior parte dos instrumentos, exceto alguns arranjos de cordas que algumas músicas têm. Fui gravando este disco durante o ano passado, à medida que os concertos me deixavam. Não tive como ir para um estúdio porque tinha tantos concertos! Então eu entrava em casa e ia gravando aos pedacinhos. Mas essa coisa caseira – não no mau sentido, não é que tenha um som rasca caseiro, porque tem um som fixe – fez com que eu conseguisse pôr cadeiras a ranger, respirações, características de disco gravado em casa, mesmo.

 

Qual é o feedback que tem recebido do público minhoto, sempre que atua cá?

Os concertos no Theatro Circo são inacreditáveis, são sempre do melhor que há! A sala é incrível e o público é incrível. Eu adoro o público do Minho!

 

Uma das características que mais lhe apontam é a franqueza com que se dirige à plateia, em palco. Essa ligação próxima que estabelece com o público é algo que faz questão de ter em cada concerto, correto?

A partir do momento em que digo uma estupidez qualquer e o pessoal se ri, eu fico logo muito mais à vontade. É uma maneira de me sentir melhor. Tenho de poder falar à vontade, de uma maneira que não é muito teatral. Tudo o que seja puxar pelo público, como aquelas expressões do “então, ‘tá tudo? ‘Bora aí?!” eu não faço. Essas coisas não me saem (risos). Consigo é falar normalmente com o público.

 

Português a cantar música portuguesa. Deveriam existir mais ‘Miguéis Araújos’?

(risos) Acho que não. Cada um tem que ser o que quiser. Acho que há coisas maravilhosas neste momento. Sou grande fã do Zambujo, da Carminho, da Ana Moura, do Salvador Sobral (eu não conhecia a música dele até à Eurovisão. Fui ouvir o álbum e achei fora de série. Achei-o um cantor brutal, que vai dar muitas cartas. Fiquei muito fã dele). Mas não é fixe haver não sei quantos ‘Miguéis Araújos’. É fixe cada um ser o que é: Os Deolinda serem o que são, o Samuel Úria ser o que é, o João Só, a Luísa Sobral, a Márcia, o Nuno Figueiredo que faz altas músicas nos Virgem Suta, o Jorge Cruz faz também umas músicas inacreditáveis... Acho que temos um grande leque de autores de canções, que era coisa que nos anos 80 e 90 havia muito menos. Havia bandas, sim, mas pessoas que se dedicam a escrever canções há muitas mais agora. É a primeira vez que há tanta quantidade e tanta qualidade. 

 


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