Revista Rua

Observar. Talento

Miguel Neves Oliveira e a metamorfose da matéria

Texto: Helena Mendes Pereira |

Encontramos em Miguel Neves Oliveira (n.1978) a ancestralidade telúrica da criação artística que vem e volta da e para a natureza. Não só pelo material de predileção (a madeira) mas, sobretudo, pela delicadeza com que equilibra a aplicação de uma paleta de influência no universo da pop, que soma conteúdo, mas também realça as propriedades naturais da matéria. O processo do escultor tem evoluído, ao longo dos últimos anos, de um certo modus operandi barroco, em que o artista é um construtor de emoções visuais densas e exacerbadas, para o domínio do instalativo e/ou conceptual, em que os objetos, peças escultóricas, se combinam e criam quadros plásticos em relação com as arquiteturas.

Recentemente desenvolveu um conjunto de trabalhos, que se consubstanciaram na exposição Fendas do Vinho, no Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, em que reúne essa dimensão telúrica e despretensiosa do escultor e, também, as preocupações de cariz humanitário do artista, que utiliza, devotamente, materiais provenientes do desperdício, de utilidade nula, mas que, à intervenção criativa, são reveladores de uma multiplicidade de sentidos, de certo modo, iconográficos.

As iconografias do vinho são múltiplas e ganham força na antiguidade clássica com Dionísio (do elenco grego) e Baco (Roma), deus do vinho e sinónimo da ebriedade, dos excessos, especialmente sexuais. As festas em sua homenagem, as bacanais, são descritas como verdadeiras orgias à maneira contemporânea. Literalmente, recuperando a imagem das fendas dos vasilhames de transporte do néctar, na ausência do produto, por consumo ou derrame, fica a dimensão espiritual e misteriosa do vinho, ligação ancestral do homem à terra e à vinha que dela emerge. A bíblia, de invenção pós-clássica, é imensa em alegorias ao vinho e há, sem dúvida, em toda a obra de Miguel Neves Oliveira essa formação de raiz cristã e católica que o incentiva, talvez, à comunhão com a natureza. Contudo, a beleza e o despretenciosismo dos seus objetos atribuem-lhe a universalidade do que é laico, democrático e ao acesso de apropriação estética de todos.

Miguel Neves Oliveira cresceu entre o ruído da matéria natural da qual brota vida que se torna arte. A sua formação é, em parte, empírica e vocacional; a sua sensibilidade apurada é produto do trabalho, da resiliência da forma certa, da cor exata e da combinação compositiva de temperamento, mão e gosto; a sua simplicidade é o que faz dele um artista cujo talento apetece projetar, promover, divulgar. Não é fácil, nos dias de hoje, encontrar esta mescla de competências, humanas, técnicas e de talento natural, num artista. Miguel Neves Oliveira é essa mescla e, não tenho dúvidas, continuará um percurso evolutivo ascensional. 


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