Revista Rua

Saber. Reportagem

Mulheres de garra

São jovens, altamente instruídas e sem receios de exercer profissões muitas vezes rotuladas como masculinas. No mês da mulher, fomos conhecer exemplos de garra feminina num mundo de homens.

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Esta pode ser a frase mais cliché com que poderíamos começar esta reportagem, mas é exatamente sobre tempos e vontades que vamos falar. Tempos de hoje, em que a tradição já não é o que era. Vontades de sempre, em que a força feminina conduz um espírito inovador, acompanhado por uma garra que torna todos os sonhos em realidade. Ser mulher pode ser um trabalho difícil, mas no que toca a trabalho as mulheres minhotas não se rendem à dificuldade. Por entre olhares reprovadores e comentários maldosos, lá vão trilhando um caminho que desmistifica estereótipos e prova que os rótulos masculinos atribuídos a certas profissões já não têm lugar no mundo de hoje. Quem disse que uma mulher não pode ser tudo aquilo que quiser?!

Fotografia: Nuno Sampaio

Mulher ao volante é... agora uma constante?

São 11h35 e, junto à Avenida Central de Braga, o veículo responsável pela linha 95 já aguarda que lhe agarrem no volante. Com um sorriso no rosto e um ‘bom dia’ na ponta da língua, Cristina Costa senta-se no lugar do condutor. Ajusta o banco, o volante e o retrovisor de acordo com a sua necessidade, coloca o seu crachá identificativo e começa o seu serviço, ligando o “GPS mental” que a orienta pelas ruas da cidade. Cristina é motorista dos Transportes Urbanos de Braga (TUB) e, embora nos primeiros tempos este título desse azo a reações de estranheza, hoje, mais de três anos depois, os passageiros já conhecem o seu profissionalismo e admiram a sua vontade de seguir a profissão. “Gosto muito do que faço e já tenho passageiros habituais, que já me conhecem. Já há um ambiente mais familiar”, conta Cristina, de 45 anos. Instrutora de condução durante 12 anos, a aventura na estrada não trouxe grandes dificuldades de adaptação à motorista: “A nível de colegas de trabalho, fui muito bem aceite. Nunca me senti discriminada por eles. A nível de passageiros, também sinto que fui bem aceite, embora houvesse sempre um ou outro que torcesse o nariz. No meu caso, senti que as mulheres me discriminavam mais. Os homens achavam mais piada. Mas notei que, no início, havia passageiros que tinham receio de seguir viagem comigo. Notava algumas caras assustadas”, relembra, bem-disposta.

Num universo de cerca de 200 homens trabalhadores da TUB, Cristina e mais seis colegas são as únicas mulheres em atividade. “As mulheres trouxeram maior sensibilidade ao serviço dos autocarros. Acho que temos maior cuidado e atenção aos passageiros”, acredita a motorista. Mas nem tudo é um mar de rosas. “Conduzir um autocarro é super fácil e os meus passageiros tratam-me bem. O meu maior problema são os outros condutores na estrada. Os condutores de ligeiros não têm noção ou não têm bom senso para compreender o que é um veículo grande e a dificuldade que pode ser fazer determinadas manobras. E, quando veem que é uma mulher ao volante, pior! ‘Não passas porque és maçarica!’ é apenas uma das frases que já ouvi. Já me trataram mal, já me chamaram nomes, mas o que é que eu posso fazer? Não vou fazer asneiras e estragar o veículo, passando por cima de passeios, por exemplo. Quando é assim, sossego, puxo o travão de mão e espero que os ligeiros percebam que eu, com um veículo deste tamanho, não posso fazer milagres”, explica Cristina.

Seguindo o seu percurso habitual, cumprimentando os veículos dos colegas que por ela passam com sinais de luzes ou acenos, Cristina continua com profissionalismo e simpatia. “Quero que as pessoas verifiquem que faço o meu trabalho tão bem como qualquer homem. Não sou beneficiada em nada e tenho de fazer exatamente as mesmas coisas que os homens fazem. Quero mostrar o meu profissionalismo”, assegura a motorista.

[ Fotografia: Ricardo Oliveira ]

Aumentando a velocidade, quase sem tirar o pé do acelerador, partimos à descoberta de três mulheres que, movidas pela influência paterna, ingressaram num mundo tão adorado pelo sexo masculino: o desporto automóvel. Nesta história não há trânsito e o veículo perde tamanho, mas há uma semelhança: a estranheza de ver uma mulher ao volante. Joana Barbosa, Sofia Mouta e Daniela Marques são de Braga e encontraram na velocidade uma mescla de emoções que lhes preenchem a alma. Joana, filha de um piloto de automóveis dos anos 1980 e envolvida no negócio da Stock Car, nasceu entre automóveis, mas só em 2013 decidiu começar a competir. Conduzindo o seu Ford Fiesta R2 devidamente decorado, Joana tem competido em ralis, como foi o caso do recente Rally Serras de Fafe. Ao seu lado vai Sofia Mouta, filha de um cronometrista e outra apaixonada pelas quatro rodas. “Já fiz campeonato de montanha, já fiz várias edições da Rampa da Falperra e desde o ano passado que sou navegadora da Joana”, conta. Juntas, Joana e Sofia vão mostrando ao público deste desporto que ser mulher não é entrave para fazer seja o que for. “Nos primeiros tempos, os ares de admiração eram muitos e isso acaba por existir sempre, mas já não é como antigamente. Há pessoas que acham muito giro e outras que atiram os comentários do tipo “Nossa Senhora, vão espetar-se na primeira curva!”, afirma, entre gargalhadas, Joana, acrescentando: “Há sempre algum machismo. Dentro da competição, há homens que não gostam de ficar atrás de nós. Não se manifestam muito, mas nota-se bem que lhes ferimos o ego”, refere.

Já Daniela Marques, reconhecida pelas suas prestações no campeonato nacional de montanha e principalmente pela paixão com que participa em cada edição da Rampa da Falperra, é um dos rostos da loja PDAuto e, como não poderia deixar de ser, cresceu com as histórias do pai piloto. Sem medos de acidentes, Daniela conduz um Subaru Impreza STi e acredita que os adeptos do desporto automóvel gostam de ver uma mulher ao volante. “A ideia de que existem profissões de homem e profissões de mulher é completamente errada hoje em dia. Fiz uma rampa em Murça e a mecânica que lá estava era uma menina, por exemplo. Acho que ainda há quem pense que somos o sexo fraco, mas esse é um pensamento cada vez mais minoritário porque vemos mulheres a dominar em diversos sectores”, diz a piloto.

Saindo dos palcos de competição, trocamos as quatro rodas pelo volante de uma mota. Não vamos acelerar demasiado desta vez porque o dever chama. Isabel Barbosa é carteira dos CTT da zona de Vila Nova de Famalicão há 14 anos e, com um ar descontraído e bem-humorado, distribui o correio com a ajuda da sua Suzuki vermelha. Os apetrechos colocados na mota são muitos, desde o cesto para transportar as cartas à mala para guardar alguma encomenda especial. Tal como as restantes mulheres com quem falamos, a história de Isabel conta-se com alguns “Ohh!” de admiração à mistura. “Nunca senti, na empresa, nenhuma diferença de tratamento entre mim e os meus colegas homens, mas na rua noto que, principalmente as mulheres, não acham que eu devia exercer esta profissão. Um exemplo: tive de ir fazer um serviço a Viana do Castelo e a chefe não gostou muito da ideia de me dar uma mota para eu trabalhar”, relata Isabel. “Agora já não noto tanto espanto, mas nos primeiros tempos as pessoas achavam estranho ver uma menina carteira. A essas pessoas eu só perguntava: ‘em que século vive?’ porque hoje há mulheres em todas as profissões. Aliás, as mulheres são tão profissionais como os homens. A minha perspetiva é esta: não importa ser homem ou mulher, o que importa é a personalidade e a dedicação ao trabalho”, garante a carteira. Mãe de duas filhas, Isabel trabalhou até aos seis meses de gestação durante a sua última gravidez. “Fiz o meu serviço exatamente igual até que o meu chefe disse que eu tinha mesmo de parar. Eu acho que me senti mais grávida depois de ir de licença! Foi uma experiência muito engraçada e eu adorei! Toda a gente tinha imenso cuidado comigo e, apesar de fazer muitas horas de trabalho, sempre me senti muito bem”, recorda a menina carteira. Entregando cada correspondência com um sorriso rasgado, Isabel aponta os dias de chuva como o pior da profissão, mas garante que as relações que estabelece com quem se cruza pelo caminho fazem esquecer qualquer dia mau. Às mulheres, Isabel deixa uma mensagem direta: “Nós todas conseguimos fazer tudo. Temos é de ter força de vontade e gostar daquilo que fazemos!”.

 

Deixem a menina jogar!

Pisando o relvado com as cores do SC Braga, Melissa Antunes ocupa a posição de meio campo na equipa feminina desde o início deste ano. Dona de um talento que nos surpreende, Melissa vai dando uns toques na bola enquanto nos preparamos para a fotografar. Um toque de joelho aqui, um toque de cabeça ali e eis que um beijo na bola nos arrebata por completo. A paixão pelo futebol é algo que Melissa descreve como um prazer enorme, principalmente agora que veste as cores do clube que, desde pequena, via jogar no 1º de Maio. Jogou entre rapazes, em equipas mistas, até os regulamentos deixarem de permitir e então, com 15 anos, voltou-se para o futsal. Aperfeiçoando a sua técnica, treinando todos os dias, a jogadora continuou no futebol através da seleção nacional sub-19 e da seleção nacional A, até chegar ao momento em que as portas do SC Braga se abriram. “Durante todo o tempo, quer no futsal quer no futebol, nunca senti nenhum tipo de discriminação nem ouvi comentários menos próprios. Sempre recebi o carinho das pessoas por jogar. Sempre ouvi elogios, curiosamente, na sua maioria, vindos de homens. Posso dizer que, no meu caso, nunca vivi o paradigma de que nós, mulheres, não sabemos jogar futebol”, garante Melissa, adicionando que, a seu ver, quando se é assíduo, cumpridor e respeitador não há espaço para diferenças. “No meu entender, na hora das escolhas, o mais importante não é o género, mas sim duas coisas: a competência e o compromisso”. Tecendo elogios ao clube do seu coração, Melissa refere que a maior dificuldade que teve de ultrapassar no mundo do futebol foi o facto da nossa sociedade não ver a profissão de jogadora de futebol como suficientemente estável para o futuro. “No futebol masculino poderia jogar e, com um bom salário, garantia um futuro. No feminino, não”, conta Melissa, aproveitando para destacar a importância dos pais para quebrar estas barreiras. “O fator crucial baseia-se nos pais aceitarem que as filhas joguem futebol”, remata.

Ainda dentro das quatro linhas, damos a palavra a Andreia Sousa, munida de apito, cartões, bandeirinhas e, claro, uma bola debaixo do braço. Andreia é árbitra desde que um anúncio no jornal, encontrado há dez anos, lhe apresentou um mundo “que não é nada fácil”. “Quando comecei a arbitrar, não haviam muitas mulheres nesta área. Foi difícil, especialmente na parte prática, porque em termos de regras tudo foi fácil. Senti que tive de trabalhar o dobro nas provas físicas, porque fiz as provas de homens e é muito complicado. Mas fui treinando e mostrando que estava ali para trabalhar e isso foi importante. Agora, acho que já temos um quadro feminino mais alargado e as pessoas já acham mais piada. Por exemplo, se um homem árbitro errar duas ou três vezes já é tradicional começarem os insultos, mas se uma mulher árbitra errar três ou quatro vezes, já não se importam”, descreve Andreia, num jeito divertido. Arbitrando jogos masculinos e femininos, tanto a nível distrital, na primeira divisão, como a nível da Federação Portuguesa de Futebol, em jogos do campeonato feminino, Andreia já tem no seu portefólio jogos importantes, incluindo até jogos femininos do SC Braga e do Vilaverdense. “Depois, a nível internacional, subi no ano passado a árbitra assistente e faço torneios e jogos internacionais com árbitros internacionais”, acrescenta. Mantendo uma profissão paralela, consultoria informática, Andreia tenta treinar todos os dias para se manter em forma e para mostrar que ser mulher não é razão para não seguir um sonho. “O nosso país está, lentamente, a mudar. Seja a nível de futebol, de arbitragem e de outras profissões que eram tradicionalmente de homens. As mulheres estão cada vez mais a ser introduzidas e postas à prova. Por isso, nós somos tão capazes como os homens! Basta empenharmo-nos e conseguimos fazer exatamente o que eles fazem ou até melhor”, assegura a árbitra.

“As obras não são para mulheres!”

Equipada a rigor, Ana Margarida Santos passou grande parte da sua vida num ambiente típico de homens: a construção civil. Formada em Geologia, no ramo de Recursos e Planeamento, e detentora de várias formações na área da Segurança, Qualidade e Ambiente, Ana Margarida é hoje técnica superior de Segurança e Saúde no Trabalho e tem muitas peripécias para contar. “O meu primeiro grande projeto foi na área da Qualidade e Ambiente na obra da SCUT no norte litoral, em Vilar de Mouros. Foi um choque! Realmente era um mundo de homens e comecei a aperceber-me de muita coisa que ia além do trabalho. O primeiro momento de choque foi a entrevista de emprego. Tive logo a sensação de assédio. Recordo-me perfeitamente de comentarem o meu aspeto, de imediato. Durante esse ano, chegava todos os dias a casa a chorar”, relembra a técnica, contando-nos os casos em que teve, literalmente, de fugir da obra para não passar por situações mais perigosas do que apalpões e toques pelo cabelo. “Depois, fui para outro projeto, em Gibraltar, e a grande barreira que tive foi a geração mais velha. Os encarregados não me aceitavam porque, em primeiro lugar, era nova e, em segundo, era mulher. Tive que me empenhar a dobrar. A pergunta ‘O que é que estás aqui a fazer?’ e as insinuações como ‘As mulheres não trabalham nas obras!’ foi o que eu mais ouvi nessa fase da minha vida”, refere Ana Margarida. No entanto, Ana Margarida ficou grávida enquanto estava em Gibraltar e o carinho dos seus trabalhadores foi algo que a surpreendeu, colocando em evidência outra face do mundo das obras. “Foi espetacular! Todos eles me ajudavam imenso e tinham imenso cuidado comigo”, recorda. Atualmente, a técnica superior prepara-se para mudar o rumo da sua vida, apostando na gestão da oficina mecânica do pai. “Mais um mundo de homens!”, diz-nos. “Em termos de obra, 99% das vezes senti-me uma rainha, uma estrela. Claro que tive situações de maltrato e aí tive de me impor, mas acabei por perceber que a idade me trouxe outras preocupações, como as minhas filhas. E se me acontece algo? E se há algum acidente em obra durante a minha orientação? Na minha opinião, não existem profissões de homens ou de mulheres, mas, com o tempo, percebi que tinha de abdicar da minha profissão por ser mulher, por ser mãe”, afirma. Acreditando que as mulheres são mais perfeccionistas e organizadas e, por isso, uma mais valia no mundo do trabalho, Ana Margarida diz ter pena que a nossa sociedade não tenha maior sensibilidade para perceber que há profissões que colocam as mulheres em maiores dificuldades e que podiam haver saídas diferentes no momento em que a vontade dá lugar à saturação. “As mães chegam a uma altura em que sentem a necessidade de pôr a carreira em segundo plano. E se as empresas pensassem numa estratégia que permitisse ter maior flexibilidade em termos de horários de trabalho, por exemplo?”, questiona Ana Margarida. Sem resposta à vista, a técnica vê o seu futuro longe das obras. “Cheguei ao meu limite”, desabafa.

“Nunca baixei os braços”

Agarrada a uma corda, Mariana Vieira, jovem natural de Vieira do Minho, vai puxando, com todas as forças, o seu futuro. Em 2013, após uma passagem pela Universidade do Minho, Mariana optou por seguir caminho na Academia Militar candidatando-se ao curso de Polícia de Segurança Pública. “Chumbei numa das provas físicas e fiquei extremamente desmotivada. Tinha menos de dois meses para prestar provas na Academia Militar e só sabia que queria conseguir”, recorda a jovem. Nunca baixando os braços face às dificuldades, Mariana conta-nos que passou vários dias a treinar para ultrapassar um tenebroso muro nas provas físicas. “Eu nunca tinha praticado nenhum desporto de forma prolongada, mas descobri que com treino específico qualquer ser humano consegue desempenhar aquilo a que se propõe. Acredito na força de vontade e que, com foco, chegamos onde queremos”, diz. Longe de casa, mais propriamente a 400 km, Mariana tem apenas cinco companheiras de curso mulheres, mas garante que nunca se sentiu inferiorizada devido ao seu género. “Os meus camaradas homens tratam-me como um par”, declara.

Do Exército partimos para a Saúde, acompanhando Juliana Louro, assistente hospitalar do Hospital de Braga. Colaboradora da VMER desde 2012, a anestesista de profissão afirma que o ramo da Saúde em Portugal já é maioritariamente composto por mulheres, apesar dos horários frenéticos impedirem, por vezes, manter relações amorosas estáveis e exercer o papel de mãe, papel que Juliana tem adiado. No entanto, em questões de género, Juliana é bastante direta: “É muito mais necessário ser inteligente do que ter força. É preciso dedicação. Neste ramo marcado pela imprevisibilidade, ser mulher não é uma desvantagem. Nunca senti isso. Claro que mundo da Medicina há especialidades cirúrgicas onde ainda se veem mais homens, mas a tendência é que isso se altere e o mundo terá de se adaptar”, explica. Exercendo uma profissão onde a sensibilidade é fator crucial, Juliana tece elogios à equipa que compõe a VMER, colocando em evidência que a distinção entre homens e mulheres não faz qualquer sentido quando a missão é salvar vidas.

Munidas de garra e coragem, as mulheres do Minho provam, todos os dias, que não há profissão que as possa demover. São mulheres que seguem os sonhos e, mesmo com as pedras no caminho, atiradas por pessoas que nem sempre compreendem o porquê de as mulheres saírem da sua zona de conforto, não desistem quando ouvem a questão ‘Uma mulher aqui?’. 


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