Revista Rua

Saber. História e Religião

Na Rua de Santo António das travessas, dos judeus e das toleradas

Claúdia Sil

Texto: Claúdia Sil |

A Sinagoga ainda lá está. Deambulando pela vetustez das ruas do centro de Braga pressente-se o seu passado longínquo inteligentemente ecuménico. É como se esse passado estivesse ali aprisionado na amálgama de paredes, beirais, ombreiras, ameias, pedras seculares e milenares de tantas épocas e estilos quantos cinzéis e escopros as fizeram. Sem se deixar adivinhar, sem ser revelador, confunde-nos a mente com a sua estética ruidosa em desacordo com a necessária harmonia requerida por aqueles que procuram a via da espiritualidade apontando para que a cidade não se tenha desenvolvido e evoluído com este fim específico. De facto, a presença de comunidades de judeus em Braga, pelo menos desde o século XIV, acontece num momento em que há uma elevada exigência organizacional no contexto histórico da época. Se nos dias de hoje Braga é uma cidade de comércio e serviços é talvez porque sempre assim o foi. E os judeus, disto, têm a sua quota-parte de culpa.

 

Hoje, junto à Sé Primacial de Braga renova-se o ímpeto mercantil de outros tempos e foi exactamente aí que viveram os primeiros habitantes judeus de Braga. Na melhor rua de todas. Na mais ampla e bela, a hoje denominada Rua D. Gonçalo Pereira. O rei D. João I quando nomeou Dom Martinho Afonso de Miranda para Arcebispo de Braga, o seu homem de confiança que o acompanhou na batalha de Aljubarrota, de tal dedicação que era conhecido na época como “sombra d’el rei”, assegura-se que, em plena crise do Grande Cisma do Ocidente, detém o controlo de uma estrutura que seria tanto mais poderosa quanto mais organizada estivesse. Assim, são chamados os judeus para fomentar a notoriedade da Arquidiocese de Braga. Os judeus que ali habitaram eram boticários, físicos, ourives, alfaiates, sapateiros, copistas, iluminadores, tradutores, matemáticos, mercadores e a eles e a suas senhoras eram devidas honras, faziam-se vénias à sua passagem como que a qualquer outro clero ou fidalgo, como atestam os contratos de arrendamento que constam dos livros de emprazamento do Cabido da Sé de Braga dessa época. Como povo totalmente alfabetizado desde a antiguidade, estes ofícios eram intrínsecos à sua existência e assim contribuíam para impulsionar qualquer sociedade que assim estivesse disposta a fazê-lo.

Uma comunidade judaica, para funcionar como tal, necessita, entre outros, de uma Sinagoga, um Rabino, acesso a uma zona de banhos rituais de imersão com água corrente, um mínimo de 10 homens, um local para matar animais de acordo com os preceitos judaicos. Estes requisitos, só por si, mostram que estas comunidades quando se estabelecem necessitam de algumas dezenas de membros e de casas para funcionar. E essa dimensão, de mais de meia centena, confirma-se facilmente na documentação existente.

Após a morte de D. Martinho Afonso de Miranda é nomeado novo Arcebispo da total confiança do rei, D. Fernando da Guerra, sobrinho de D. João I. Mantêm-se a comunidade judaica e o interesse na sua dinâmica de apoio às actividades de governo do poder do estado clerical. Esta profícua cooperação entre judeus e cristãos, ao nível mais alto da governação, é uma tradição portuguesa de longa data que marca toda a primeira Dinastia e vai até à primeira metade da Dinastia de Avis. Após a morte de D. Fernando da Guerra a comunidade é transferida para a Rua de Santo António das Travessas, mais distante, mais sombria. Não há muitas dúvidas de que aí funcionou uma Sinagoga, que poderá ter sido a única e sempre ali, já que a infra-estrutura existente dos antigos balneários romanos era útil ao uso dos judeus. A distância ao edifício da Sé era também vantajosa pois os rituais da religião judaica poderiam ser executados sem que fossem percepcionados pelos olhares e ouvidos dos cristãos.

A Sinagoga ainda lá está. Num edifício quinhentista, património (pouco) classificado, exibe uma ténue marca na aduela esquerda de um arco gótico perdido no interior Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Três letras hebraicas que lidas da direita para a esquerda, como o determina essa língua que nunca mudou, sem acordo, que se lê hoje exactamente como há dois mil anos, significam “tu” e também “ir” ou “passar”. Transliterado ler-se-ia “atah”. Mas o hebraico vai muito além de sentidos literais. As duas primeiras letras da epígrafe, alef e tav, representam respectivamente a primeira e a última letra do alfabeto e quando assim aparecem entregam-nos a mensagem “todas as letras” ou seja, a Bíblia. Já a última, a letra Hei, que graficamente se representa desenhando três segmentos de recta que simbolizam cada um pensamento fala e acção, expressa o acto de dar, entrega, de um para muitos. O valor numérico do conjunto das três letras, 406, é o mesmo da palavra que se traduz “D’us fez”. Ali está, ainda, a entrada de uma Sinagoga, um portal de acesso ao conhecimento esquecido por um mundo que escolhe sistematicamente o caminho repressivo do obscurantismo. Uma deífica rua a que chamam “das toleradas”, a nefanda palavra que disfarça ser benevolente enquanto rotula uma diferença.

Arco Judaico preservado na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, BLCS em Braga

 

Fotografia: Nuno Sampaio

 

  • Isabel Lopes

    Gostei muito . Parabens

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