Revista Rua

Apreciar. Minhotos pelo Mundo

No paraíso carioca

Carolina Figueiras, Rio de Janeiro

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Em 2013, Carolina Figueiras trocou as belas paisagens de Viana do Castelo pelo cenário idílico do Rio de Janeiro. 

1. Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer um pouco da tua história. O que fazias antes de viajares para o Brasil? O que te levou para o Rio de Janeiro?

Vim para o Rio de Janeiro em 2013 fazer intercâmbio internacional através do mestrado em Ciências da Comunicação, da Universidade do Minho. O plano inicial era fazer intercâmbio em Londres, mas todas as opções eram muito voltadas para Jornalismo e a minha área de especialização é a Publicidade e as Relações Públicas. Assim que soube da possibilidade de vir estudar numa universidade prestigiada na área de comunicação como a PUC Rio de Janeiro, a decisão tornou-se fácil. Incentivos como a temperatura, os dias de sol e a promessa da água de coco ao pôr do sol e de pé na areia tiveram peso na escolha final.

Um semestre depois e com Portugal a atravessar uma crise profunda, ficou muito óbvio, principalmente quando voltei a Portugal, que não estava na hora de ir embora do Rio. Rapidamente se passaram os últimos quatro anos.

Atualmente trabalho no departamento de marketing de uma multinacional de educação, sou vocalista nas horas vagas, tenho um blog de gastronomia e lifestyle, faço parte de um grupo folclórico português e tento aproveitar o máximo possível o facto de morar num postal.

 

2. Como foi o período de adaptação ao Rio? Sabemos que os brasileiros têm um carinho especial pelos portugueses. Sentiste isso?

Honestamente? Não tive muito tempo de pensar nisso na altura. Cheguei num sábado à noite, no domingo andei a passear pelas praias com um jet lag incrível e no dia seguinte começaram as aulas. Conheci muita gente e de todas as partes do mundo. Começámos logo a combinar programas para os dias seguintes. Diverti-me imenso e fiz amigos para a vida. Acabei por nem sentir que tive um período de adaptação pois foi tudo muito à base do "bola p'ra frente", o que ajudou imenso.

Quando cheguei não tive aquele impacto que normalmente sentimos num país diferente. Havia rabanadas, pastéis de nata e bolinhos de bacalhau a cada esquina, o centro está cheio de arquitetura manuelina, cantei o "Saudades do Brasil em Portugal" no Bip Bip (boteco muito característico de Copacabana onde se toca chorinho) e toda a gente tem uma piada de português pronta para qualquer ocasião, um sorriso na cara e uma palavra simpática.

Às vezes digo, em tom de brincadeira, que os Brasileiros gostam mais de Portugal do que nós. Poucas vezes vi algum português falar de Portugal com o brilho nos olhos que vejo nos brasileiros tantas vezes. Perguntam-me muito frequentemente o que é que estou aqui a fazer com um "país tão organizadinho" como o nosso e quase toda a gente que conheço está a pensar ou conhece alguém que quer ir viver para Portugal.

3. À partida, a língua não foi entrave à chegada. Mas às vezes os brasileiros não percebem muito bem algumas expressões que nós portugueses usamos. Tiveste alguma situação dessas?

Tenho imensas. Logo no primeiro dia percebi que ia ter de forçar um sotaque carioca em todas as interações porque ninguém percebia o meu sotaque do Norte e eu não falo propriamente devagar. Então, aprendi a forçar um português do Brasil com um sotaque minhoto quase impercetível, exceto nos dias em que tenho mais preguiça.

Os brasileiros acham que somos muito literais e algumas histórias sobre as viagens a Portugal já viralizaram a tal ponto que toda a gente as conta.

Há algumas palavras que não querem dizer bem a mesma coisa nos dois países, então passei por algumas situações constrangedoras. Um dia eu conto (risos).

 

4. Quais foram as principais dificuldades que enfrentaste?

Além das saudades, o pior foi já ter perdido momentos importantes da vida dos meus amigos e família que estão do outro lado. O sentimento de não poder estar presente, para o bem ou para o mal, é terrível.

Do lado de cá, a "memória" da colonização ainda é muito presente e ser portuguesa no Brasil (assim como ser brasileiro em Portugal), nem sempre é fácil.

 

5. O que mais te surpreendeu no Rio? Como descreverias a cidade?

Eu vim para o Rio com as expectativas muito baixas. Só queria mesmo saber de estudar - podem rir à vontade - porque realmente, apesar de ter uma identificação brutal com a música brasileira, me interessar pela cultura do país em geral e as idas à praia, eu estava realmente triste por vir embora de Portugal. Os relatos dos familiares que viveram na cidade também não eram mesmo nada animadores. Vim numa fase em que eu estava a adorar a minha vida em Portugal e estava cheia de projetos, então, ainda que soubesse que ia gostar de estar aqui, foi custoso.

O Rio é uma cidade com uma energia envolvente. Há um texto da Lian Tai que se chama "Tomara que casar seja como se mudar para o Rio de Janeiro" que tem uma visão do rio que eu adotei. Há tantos problemas, tanta coisa para não gostar, mas a beleza e as coisas boas, que são muitas, sobrepõem-se. Aprendi a olhar para Portugal como um país extraordinário e a queixar-me menos quando as coisas não correm de feição. Acho que a maior lição é essa.

6. Desde que aí estás, o que nos podes destacar como indispensável de conhecer no Rio? Que locais já visitaste?

Ao fim de quatro anos, ainda tenho tanto para conhecer do Rio, porque é gigante! No entanto, esforcei-me para conhecer tudo e mais alguma coisa, de chinelo no pé ou de salto alto.

São indispensáveis o pequeno almoço no Parque Laje, ir ver o pôr do sol no arpoador ou na Mureta da Urca, ir ao Parque das Ruínas, fazer a Trilha dos Dois Irmãos e Pedra Bonita, ir à feirinha hippie de Ipanema num domingo e ir a uma festa até ao amanhecer no Vidigal.

É obrigatório visitar o Real Gabinete Português de Leitura, ver o desfile de Carnaval na Sapucaí, ir a um bloco de carnaval de rua e dizer que nunca mais, mas ir novamente (risos).

É obrigatório comer açaí, acarajé, feijoada numa roda de samba, torta de banana integral no balada mix ou no café bistrô, ir ao brunch da confeitaria Colombo e comer pastel de camarão n'O Caranguejo com uma "estupidamente gelada". Além dessas coisas mais características, a cidade está cheia de opções gastronómicas incríveis.

Fora do Rio tenho aproveitado o máximo que posso, mas há lugares que ainda quero conhecer como os Lençóis Maranhenses, Florianópolis, a Serra Gaúcha, Fernando de Noronha e Salvador.

 

7. Tens alguma história caricata que nos gostasses de contar? Algo engraçado que te tenha acontecido?

Sofri uma tentativa de roubo, mas não percebi muito bem o que me estava a acontecer, portanto perguntei ao rapaz aos berros qual era o problema dele. Isto poderia parecer uma história de coragem, não tivesse eu desatado a correr logo de seguida. 

8. Do que mais tens saudades do nosso país?

Tenho saudades dos serões em família onde os amigos se juntam também, dos almoços de domingo que duram horas e das boas conversas.

Tenho mesmo saudades do sentido de humor português, da nossa ironia e do nosso sarcasmo. No Brasil, o tipo de humor é bem diferente e às vezes mando algumas piadas que pouca gente entende, o que é chato. Os meus níveis de sarcasmo e ironia diminuíram drasticamente nos últimos anos (risos).

 

9. Compreendemos que a distância te impeça de visitar Portugal e a família as vezes que queiras. Como é viver num país irmão, onde a língua é fator de proximidade, mas ao mesmo tempo estar tão longe do país mãe?

Eu ligo à minha mãe praticamente todos os dias a caminho do metro quando vou para o trabalho, por exemplo. Falo com a minha família e amigos quase todos os dias, como se tivéssemos ido tomar um café ontem. A distância está ali, mas não está. O melhor de tudo é que quando volto, aquele tempo é vivido de outra maneira e tem-se o melhor das pessoas.

Aqui no Rio, fiz excelentes amigos, tanto brasileiros como de outras nacionalidades, e vai-se criando também uma "família" escolhida a dedo de pessoas que também estão longe da cidade natal delas e encaramos isso com leveza. 

É claro que há muitas diferenças culturais, mas é muito mais o que nos aproxima do que aquilo que nos separa.

 

10. Tens planos para voltar definitivamente?

Num futuro próximo, não. Tenho tido sorte nas minhas escolhas, portanto, nesta altura, não faria sentido voltar, de todo.

Tenho vontade de ir viver para outro lugar do mundo que não Portugal, mas talvez seja só uma vontade. Lisboa tem-me parecido excelente para próxima morada. Deixo as possibilidades em aberto.

11. Fazes um balanço positivo da experiência, até ao momento?

Muito positivo. Foi uma decisão arrojada, mas que me trouxe muitos frutos. No geral, tenho sido muito feliz e pretendo ficar por aqui enquanto assim for.

 

12. Aconselhavas os nossos minhotos a conhecerem a cidade? Porquê?

Claro que sim. O Saint-Exupéry tem aquela frase em que diz que "o essencial é viver para retornar", quase um "é necessário sair da ilha para ver a ilha" do Saramago: sendo o Rio uma cidade de contrastes e com uma ligação cultural tão grande connosco, é impossível não voltar se questionando, fazendo comparações entre os dois mundos e dando mais valor àquilo que tomamos como garantido.

Eu costumo dizer que a vida é muito curta para não viver (n)o Rio de Janeiro. É uma experiência necessária, nem que seja só de passagem.

 

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