Revista Rua

Saber. Reportagem

Nos bastidores do mundo do espetáculo

 

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

São horas de trabalho que quem se senta na plateia desconhece. São ajustes e afinações que passam ao lado a quem assiste, durante 1h30, mais coisa menos coisa, a um espetáculo. São gargalhas nos camarins e gritos de boa sorte atrás do palco que pouca gente tem oportunidade de ouvir. Do teatro à música, fomos conhecer como se vivem os momentos de preparação dos espetáculos em duas casas de cultura reconhecidas no nosso Minho: O Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima, e a Casa das Artes, em Vila Nova de Famalicão.

Fotografia: Nuno Sampaio

Faltam 15 minutos para as portas abrirem e o público ocupar o seu lugar. No palco, a porta lateral que o público não vê, está aberta, à espera de receber os artistas que espreitarão por entre os panos pretos a composição da sala. Atrás do pano de fundo, há um espaço onde descansam os adereços que irão ser rapidamente trocados nas passagens de cena; ou escondem-se alguns apetrechos técnicos que possam ser necessários. Faltam dez minutos. Os artistas pisam as laterais do palco, vindos dos camarins, ainda a arranjar vestidos, cabelos ou a controlar os nervos. Alguns técnicos da casa e técnicos que acompanham a comitiva dos artistas estão ali, para qualquer eventualidade. Os outros, posicionam-se na régie, já prontos a dar início ao festival de luzes e sons que se aproxima. Faltam cinco minutos e o burburinho do público já se ouve nos bastidores. “Estou bem assim?”, ouve-se uma voz questionar. “Falta alguém?”, pergunta outra voz. “Estamos prontos?”, alguém diz, quase como a incentivar que se salte para o palco. Faltam dois minutos. É hora do abraço de grupo e do grito de boa m…! A energia dos artistas parece criar uma magia única, que preenche os bastidores. E é agora. Mal pisam o palco, desta vez sem panos que os escondam, encaram a plateia que os recebe de mão cheia. Aplausos. E que comece o espetáculo!

Nos bastidores de um teatro centenário

Chegámos a Ponte de Lima em dia de Tempestade num Copo D’Água. Não, não nos referimos a nenhum problema que assombre a programação, falámos da peça que traz Marina Mota e a sua equipa ao Teatro Diogo Bernardes. Há burburinho na bilheteira, há técnicos nos corredores e um palco despido. São 10h30 e a equipa da casa aguarda a chegada dos técnicos da Marina Mota Produções, que irão dar vida à sala de espetáculos com 120 anos de História. O espetáculo apenas começa às 22h, mas o trabalho, esse, há muito que já está planeado.

Na companhia de Ovídio de Sousa Vieira, o diretor artístico do Teatro Diogo Bernardes desde 2013, encaminhámo-nos para o 31. Mais uma vez, não, não nos referimos a nenhum problema que assombre aquele gabinete. Pura e simplesmente, o número da chave daquela sala que acolhe Sérgio Caridade, o responsável técnico, é o 31. Foi naquele gabinete, apetrechado com todo o tipo de equipamentos técnicos, que Sérgio foi estudando todos os aspetos que permitiriam ao Teatro receber a peça daquela noite. “O Sérgio é a alma deste teatro”, afirma Ovídio. “Estou sempre a arranjar problemas com ele: eu escolho um espetáculo, vou ao pé dele e digo “isto vem cá” e, a partir daí, ele tem de se desenrascar”, diz, bem-humorado, o diretor artístico, acrescentando: “É o Sérgio que tecnicamente estuda as propostas que chegam para as fazer resultar dentro do nosso espaço. Analisa os riders técnicos enviados pelos artistas, avalia se estamos ou não preparados para responder ao rider e apresenta as possíveis alternativas necessárias. Estamos muito bem preparados tecnicamente, mas é normal não termos tudo”, explica. Naquela sala, Sérgio guarda os desenhos de sala, os desenhos de luz, a disposição dos elementos em palco… Tudo é minuciosamente planeado, em folhas de papel, antes de passar para a ação. O planeamento desta noite já está nas mãos de toda a equipa técnica que assiste Sérgio neste trabalho. São, no total, nove pessoas que, todos os dias, fazem a magia do Teatro Diogo Bernardes acontecer, incluindo Ovídio, que segue todos os passos da preparação à risca. “Não me meto no trabalho deles, obviamente, mas mantenho-me atento para que tudo resulte na perfeição”, refere Ovídio.

Pelos corredores e escadas que dão acesso aos vários pisos do Teatro Diogo Bernardes, vamos descendo até ao nível do palco. A equipa de Marina Mota ainda não chegou, mas os técnicos da casa já vão colocando mãos à obra. A rotunda (conjunto de panos pretos que estão no palco) está montada à italiana, com as suas pernas posicionadas impedindo que o público possa ver aquilo que se passa nas laterais do palco; a vara de iluminação está à vista; os projetores a postos, a guardar pela afinação que apenas será feita quando a equipa externa chegar; e o pano de fundo ainda está levantado, para permitir que o elevador de monta-cargas esteja operacional para carregar os cenários que chegarão em breve, provenientes do subpalco. Entre conversas bem-dispostas, a equipa aguarda serena.

Enquanto aguardamos com eles, Ovídio apresenta-nos o Teatro Diogo Bernardes de fio a pavio. Com um cuidado especial a toda a arrumação, para não existir dificuldades nas movimentações ou até na procura de certos componentes técnicos, este teatro que vive inteiramente do financiamento municipal é pequeno (tem apenas 281 lugares e um camarote de honra), mas histórico. Nas suas entranhas, ainda são visíveis os modos manuais do passado. E quando dizemos que são visíveis, é porque os vimos com os nossos próprios olhos: subindo por escadas íngremes de madeira, o palco ia ficando cada vez mais lá no fundo. Começamos a avistar a “teia”, o apelido de toda a panóplia de cabos, cordas, panos que compõe o cimo do palco, a parte que o público nunca vê. Estamos a 16 metros de altura, avistamos as oito varas monitorizadas que suportam a componente de luz do Teatro e as restantes varas que ainda funcionam à mão. Conhecemos as malaguetas, que são as peças de madeira que suportam as cordas com nós de marinheiro que sustentam as bambolinas, as pernas e panos. Ainda conseguimos vislumbrar o sistema de roldanas do século XX, o rolo de movimento do pano de boca original… Há tantos segredos para contar! “Um teatro tem de ser um animal vivo, para dentro e para fora. Aquele projetor que acendeu uma luzinha de cor vermelha ontem, já não será o mesmo que acenderá uma luzinha amarela hoje”, exemplifica Ovídio. 

A tão aguardada chegada

Enquanto descobrimos os segredos do Teatro Diogo Bernardes, do topo da sua “teia”, a equipa da Marina Mota Produções chega. É quase meio-dia e toda a equipa (as três pessoas da Marina Mota Produções juntamente com os técnicos do Teatro) se apressa a descarregar a carrinha: são cenários em acrílico, mesas e cadeiras, toalhas e talheres, o bolo da noiva… esquecemo-nos de dizer que esta peça era uma história num copo de água de um casamento?! Colocando todos os materiais no elevador de monta-cargas, rapidamente todos os adereços estão no palco. Já tinha sido com a ajuda deste monta-cargas que as flight cases onde o Teatro guarda todos os componentes técnicos, desde projetores a microfones, teriam viajado do subpalco para o palco. No entanto, a hora de almoço aproxima-se e, como diz o ditado, quem não é para comer, não é para trabalhar! O palco fica deserto, apenas com os tais adereços a repousarem após uma viagem de cerca de 400 km.

Com as forças restabelecidas, é hora de pôr mãos à obra. Os cenários erguem-se, as mesas e cadeiras ocupam os seus lugares e os testes de luz começam. O palco fica às escuras e, com a ajuda de uma escada de afinação, cada projetor é afinado, um a um. É um trabalho minucioso, mas necessário para que tudo fique de acordo com as diretrizes do espetáculo.

São quase 16h e eis que chega a mulher mais aguardada: Marina Mota. Acompanhada por toda a equipa de atores que fazem parte do elenco desta Tempestade num Copo D’Água, desde Érica Mota a Carlos Cunha, Marina sobe ao palco com toda a energia, verificando ao pormenor se tudo está no seu devido lugar. Do palco para o meio da sala, espreitando entre as cadeiras, Marina vai dando indicações sobre o posicionamento dos adereços em palco, enquanto que a restante equipa vai cumprindo as suas sugestões. “A toalha não está no sítio”, diz Marina, enquanto prontamente a endireita. “Faltam dois garfos nesta mesa”, aponta Érica, descalçando os seus saltos altos. “Há espaço para nos movimentarmos aqui?”, questiona Carlos Cunha, cantarolando e contagiando toda a equipa com a sua boa disposição. “Já estreámos este espetáculo em janeiro, portanto, os meus colegas técnicos já sabem perfeitamente o que têm de fazer, mesmo quando o palco é mais pequeno, como é o caso do Teatro Diogo Bernardes. Normalmente, quando eu chego, apenas tenho atenção a alguns pormenores de acerto, porque confio neles”, explica Marina Mota, a mulher dos sete ofícios nesta produção. “A produção é minha, a encenação é minha, a direção de atores é minha, mas como confio muito na equipa, pelo tempo que ensaiámos e pelo rigor e disciplina que temos, fico tranquila”, afirma.

No meio de toda a confusão, Érica e Rui de Sá, outro dos atores, começam a debitar as suas falas, como se de um ensaio rápido se tratasse. “Quem gosta realmente disto, fica sempre um bocado nervoso”, afirma Érica, justificando esta sua necessidade de ‘passar’ texto várias vezes antes do espetáculo. Nisto, a voz de Marina Mota vai invadindo a sala do Teatro Diogo Bernardes. É hora de fazer o sound check, certificando que cada microfone se comportará na hora de subir ao palco. Mais alto, mais baixo, inicia-se uma dança entre som e luz, com Marina Mota no centro da ação. 

No camarim com Marina Mota

Com tudo pronto em palco, Marina Mota desloca-se aos camarins, depois de uma viagem entre Lisboa e Ponte de Lima. O Teatro Diogo Bernardes está equipado com dois camarins amplos e coletivos e três camarins individuais, mais pequenos e antigos, raramente utilizados hoje em dia. Marina ocupará um dos camarins coletivos, com a sua filha Érica. Os restantes atores da peça, Carlos Cunha, Rui de Sá e Nuno Pires, ficam no camarim no piso inferior, um camarim exatamente igual. Há café, frutas e algumas bolachas à entrada.  Equipado com espelhos nas paredes, sofás e casas de banho, o camarim que recebe Marina Mota está desnudo, mas rapidamente a atriz começa a colocar os seus pertences no devido lugar. São cremes de rosto, pincéis de maquilhagem, roupas… “Podia estar a fazer isto mais logo, mas é um hábito meu. Quando chego, só saio do teatro para comer qualquer coisa (porque eu não janto antes do espetáculo) quando estiver tudo no sítio. Quando eu testar onde entro e onde saio, quando der três voltas ao palco para memorizar como vou do camarim ao palco... Não consigo relaxar completamente enquanto não sentir que está tudo pronto”, diz-nos Marina. São 17h30 e Marina sabe perfeitamente que se algo correr mal, ainda terá tempo para resolver. “Não é muito vulgar alguma coisa correr mal connosco. Estou a puxar a brasa à minha sardinha, mas já produzo espetáculos há muitos anos e deve haver pouca gente que chegue com tanta antecedência aos espaços. Nós temos a informação necessária antes do espetáculo acontecer, assim como a casa tem a informação daquilo que nós precisamos, em termos de luz e som. Por isso, não há margem para que algo corra mal. Acho que nunca tive um espetáculo que corresse mal”, conta. “Eu sou muito exigente. Vejo ao centímetro se uma mesa está à mesma distância da outra, se as flores estão bem colocadas, se há alguma descolada há que colar antes do espetáculo… Para mim, cada um dos espetáculos é como se fosse a estreia. Tudo tem de estar perfeito!”, acrescenta.

Com tudo organizado, Marina aproveita para sair do Teatro em busca de um local para um almoço tardio. Mas a agenda está bem estudada: “Depois de estar tudo no sítio, relaxamos um bocadinho, às 19h os atores vão jantar e por volta das 20h voltamos para o Teatro. Uma hora e meia antes do espetáculo começar, temos de estar todos no Teatro”, esclarece. “Eu sou paz e amor sempre, mas se estiver a falar de trabalho eu sou tão rigorosa como um patrão completamente desconhecido. Por exemplo, nesta peça, trabalho com uma filha, um ex-marido, uma filha não biológica, etc., mas eu não misturo as relações quando estou a trabalhar. Eles são família sim, mas porque são profissionais competentes”, assegura Marina. 

“Faltam 15 minutos!”

Depois de jantarem num local próximo, a companhia de atores reúne-se novamente no Teatro. Há que arranjar o cabelo, aprimorar a maquilhagem, vestir os fatos de gala, não fosse esta peça um casamento, e colocar os microfones. Depois, Marina repousa no sofá do seu camarim, conversando com Ovídio na companhia da filha Érica. Já está tudo a postos, só falta vestir a indumentária. Mas ainda há tempo. Sem nenhum ritual de preparação especial, Marina vai explicando um pouco da sua experiência neste mundo do espetáculo. “Quando me estreei no teatro, ganhei todas as superstições possíveis. Não se podia assobiar, não se podia dizer ‘cobra’, não se podia dizer ‘azar’. Credo, não se podia dizer nada! Ganhei essas superstições todas, mas fui perdendo-as com o tempo. É um disparate. Há colegas do teatro chamado sério – o teatro de revista, a comédia, também é sério, mas ainda não é valorizado, porém, tudo a seu tempo – que gostam de se concentrar, com momentos zen. Eu nesta peça faço três personagens diferentes e tenho cerca de um minuto para me despir, literalmente, de uma personagem e encarnar noutra. Portanto, não tenho tempo para ficar zen e pensar ‘agora vou ser esta ou aquela’. Tem de ser tudo mecanizado. Por isso é que o teatro de revista é uma brilhante escola. Dá-nos uma capacidade imensa de rapidez, de energia, de raciocínio”, explica Marina.

A hora de subir ao palco aproxima-se e alguém grita “Faltam 15 minutos!”. Marina vai subindo as escadas que a levam ao palco, seguindo-se toda a restante equipa de atores. Aguardam nas laterais do palco, escondidos pelo pano, enquanto a sala enche. Marina está calma, como se tudo estivesse sob controlo. “Não é uma questão de não sentir nervos absolutamente nenhuns, sinto é uma energia muito boa quando entro em palco… e quero entrar! Os nervos em excesso retira-nos o discernimento ou a capacidade de improviso e eu, nesta altura do campeonato, já não fico nervosa”, conta-nos a atriz. Já Érica… “Tenho a paranoia do texto. Fico muito nervosa enquanto estou à espera da minha vez de entrar. Mas tenho um ritual: rezo com a minha mãe antes de entrar, dou um beijinho à Nossa Senhora, outro beijinho à fotografia do meu avô que Deus tenha e depois… seja o que Deus quiser! Ah, e benzo-me 500 vezes de cada vez que tenho de pisar o palco”, descreve Érica Mota.

Preparados para conhecer a plateia, falta apenas dar as mãos, num cordão de energia, e gritarem todos juntos, pronunciando uma expressão de boa sorte só deles. Marina beija todos os atores e encosta-se a um canto, realizando o ritual de Érica. Feito. É hora de dizer: ‘Bora lá, Marina!

Quase duas horas depois, os aplausos despedem a plateia e o palco fica novamente vazio de atores. O espetáculo terminou há menos de dez minutos e, nos camarins, Marina já está com uma roupa confortável, cabelo desengonçado e de desmaquilhante em punho. Em palco, a equipa já desmonta os painéis de acrílico que compunham o cenário, recolhem os adereços e preparam-se para carregar novamente a carrinha. Ainda há muito que fazer para deixar o Teatro Diogo Bernardes como o encontraram. Mas aqui não há divas e toda a gente ajuda. Até Ovídio e Sérgio, que, como sempre, não abandonam o Teatro até que tudo esteja pronto para o dia seguinte. “É tudo tão efémero…”, declara Ovídio. 

Do Alto Minho a Vila Nova de Famalicão

Esta noite, há espetáculo no Grande Auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os Budda Power Blues sobem ao palco com Maria João, uma junção entre Blues e Jazz capaz de eletrizar a plateia. Mas antes que a plateia ocupe os seus lugares, vamos conhecer esta Casa por dentro e, para isso, nada melhor do que sermos escoltados pelo homem que sabe do que fala: Álvaro Santos, diretor e diretor artístico da Casa das Artes. “Somos uma casa variada. Costumo dizer, quase como slogan, que a Casa das Artes é um espaço de criação, fruição e apresentação, porque é mesmo isso que se passa aqui”, descreve Álvaro, referindo-se ao importante papel na criação de novas produções, como foi o caso dos Cânticos de Barbearia. Tentando fazer deste teatro municipal uma casa de referência, Álvaro assume que planeia a programação de forma a “sensibilizar e seduzir as pessoas para determinadas experiências, sensibilidades, emoções e interesses”. “Somos um teatro municipal, temos de estar atualizados em relação àquilo que se passa no território e a nível nacional. Temos de estar atentos às linguagens, aos novos artistas, aos artistas consagrados, a todas as pessoas que tenham projetos diferentes. Tem de existir aqui um casamento perfeito, entre o mainstream normal e a cultura erudita, sem nunca esquecermos que somos um espaço público”, explica o diretor, acrescentando: “O meu maior esforço desde que estou cá – e já lá vão 11 anos -, é não entrar em nenhuma bolha. Gosto de conversar com as pessoas e ouvir as suas sugestões. Avaliar o custo financeiro, o custo técnico, tudo o que envolve a ocupação da própria Casa e, ao mesmo tempo, encaixar tudo isto numa programação mensal que tem de ser renovadamente interessante faz parte das minhas tarefas. Penso sempre na Casa das Artes como um conceito trinitário – indivíduo, sociedade e cultura – e em como é que eu posso tornar este triângulo dinâmico, como numa espiral que eu quero que seja em crescendo”, afirma. Revelando-se um homem de pulso firme, Álvaro vai-nos mostrando os cantos à Casa, enquanto nos conta algumas das peripécias que já viu acontecer dentro daquelas paredes. “Lembro-me de um espetáculo com a Vortice Dance Company em que a entrada era fabulosa. A única função do nosso técnico que estava na direção de cena era fazer subir uma vara ao mesmo tempo que a cortina se abria, acompanhada por uma batida fortíssima que dava início à coreografia. Ora, o que aconteceu foi que a tal vara não subiu. Era preciso ser dado um sinal, mas houve uma descoordenação! Parou tudo, fechou-se outra vez a cortina, informámos que por motivos técnicos teríamos de retomar o espetáculo e assim foi. As pessoas nem perceberam bem o que se passou. Eu agora rio-me desta situação, mas na altura foi o fim do mundo. O meu coração ficou marcado nas costelas!”, conta Álvaro, divertido. Mas as histórias não ficam por aqui: “A primeira vez que o John Cale veio a Portugal foi para um espetáculo na Casa das Artes. Pessoas vieram do estrangeiro para ver o espetáculo, bilhetes caros já que o espetáculo não era barato… Tudo perfeito, uma grande festa, mas o John tinha acabado de se divorciar e estava com um humor terrível. Entrou em palco, não disse ‘goodnight’ sequer e começou a tocar. Estava tudo muito eufórico quando, após um minuto ou dois, no primeiro tema logo, se começa a ouvir um ruído no PA. Ele sempre a tocar. Mais uns minutos e o ruído aumenta. O meu coração deu um salto! O John calmamente foi tentar perceber o que se passava, eu dei a volta à sala e fui ver o que se passava também. O nosso técnico estava calmíssimo e eu só pensava “Vamos ter de cancelar o espetáculo!”. Há quem diga que os problemas técnicos acontecem, mas para nós o mundo desaba. Era a mesma coisa que a Casa ter desabado! Basicamente, o que tinha acontecido foi algo absolutamente inédito: acabou a pilha do pickup da guitarra acústica. Uma coisa raríssima de acontecer. O John, sempre muito calmo, testou e voltou tudo ao normal. Eu bebi três águas de seguida!”, recorda, sempre bem-disposto, Álvaro.

À medida que as histórias de bastidores da Casa das Artes se vão desenrolando, vamos espreitando as movimentações no Grande Auditório. Os Budda Power Blues estariam prestes a chegar e, com eles, trariam os instrumentos para começarem o sound check para o concerto da noite. Mas ainda tínhamos de aguardar um pouco. Sem nenhum problema, aproveitámos para perguntar ao Álvaro como era lidar com artistas e com egos, por vezes, bastante complicados. “Já tivemos de lidar com exigências estranhas. Já nos pediram cerveja da região não sei quê da Austrália, revistas de determinadas referências, o John Cale pediu-nos água Perrier, vinda da França... Mas recordo-me, por exemplo, quando o Rufus Wainwright esteve cá. Deve ter sido o caso pior. Gengibre natural, flores orquídeas, pastilhas elásticas não sei quê, um certo número de garrafas no frigorífico, um piano digital de uma marca que não existia em Portugal, tinha de ser tudo alcatifado, tinha de ter duas ou três peúgas numa determinada forma de estar, um maço de cigarros… Mas a experiência vai-nos ensinando que, muitas vezes, os artistas estão a testar-nos. Por exemplo, no caso da exigência da cerveja da Austrália, nós dissemos que não tínhamos possibilidade de arranjar e sugerimos uma marca portuguesa. E ficou tudo bem! Curiosamente, nos últimos anos, já não acontece tanto isso... Justifica-se sempre termos ao dispor frutas ou sandes porque, efetivamente, as pessoas acabam por estar aqui um dia inteiro, mas já não existem aquelas loucuras do passado”, explica o diretor da Casa das Artes.

Deslocamo-nos novamente ao Grande Auditório. Entre cigarros, os técnicos aguardam pela chegada da banda na porta traseira do palco, que dá acesso ao exterior. As luzes já estão colocadas, a disposição dos microfones em palco já está estruturada… e eis que chegam os irmãos Budda e Nico Guedes (acompanhados ainda por Carl Minnemann), com as guitarras e a bateria. É necessário montar a bateria, ligar os cabos das guitarras e começar a testar todos os equipamentos, da luz ao som. São 16h15 quando os primeiros “1, 2, 3, Check!” começam a ecoar no Auditório vazio. Budda, na sua guitarra, vai tocando os primeiros acordes, enquanto que Nico aguarda a sua vez de estrear a bateria na Casa. Tudo para “não haver stresses de afinações”, como dizem. Nisto, os técnicos continuam a carregar materiais, ajustando os microfones e envolvendo-se nas piadas dos artistas. À medida que os testes são feitos, a guitarra de Budda vai aumentando o seu poder, de acordo com as indicações do técnico de som da Casa das Artes, Chico, e do técnico que acompanha a própria banda, Miguel. Percorrendo a sala para ouvir todas as facetas dos acordes de Budda, Miguel vai controlando se tudo está a soar da maneira perfeita, sem delays ou outro tipo de interferência. Depois deste teste individual, os instrumentos conjugam-se, dando ritmo aos Blues da banda. Mas ainda falta uma voz. Maria João ainda não chegou.

“Eu sou a última a sair. Sou a vassoura!”

Enquanto o comportamento dos graves, dos médios e dos agudos das vozes de Budda, Nico e Carl nos microfones vão sendo minuciosamente testados, há uma pessoa que se mantém atenta e prestável, mas sem ouvirmos a sua voz. É a pessoa que responde a todas as perguntas, desde “onde é o camarim?” a “onde está a cerveja?”. Chama-se Marta Couto e é a produtora da Casa das Artes. “Somos três pessoas na área de produção porque vamos alternando, uma vez que a programação da Casa das Artes é muito intensiva. O que é que eu faço? Acompanho tudo, faço toda a preparação do espetáculo, desde responder a todas as exigências a tratar de todos os assuntos referentes a hotel, catering, etc. Tudo tem de estar preparado para quando os artistas chegarem, tentando ao máximo que não falhe nada. Quando chega o dia do espetáculo, estou cá para recebê-los e fazer com que se sintam em casa. Mas eu estou aqui e não estou. Tento ser um bocadinho invisível. Os artistas sabem onde nos encontrar, mas nós nunca os procuramos”, esclarece Marta, uma das 16 pessoas que trabalham permanentemente na Casa das Artes. Coordenando os timings para tudo, desde a hora em que os artistas têm de ir jantar até ao momento em que as portas do Grande Auditório abrem ao público, Marta é uma das primeiras pessoas a chegar e uma das últimas a sair: “Mantenho-me aqui até ao final do espetáculo. Eu sou a última a sair. Sou a vassoura! Costumo dizer que a produção é a vassoura. Primeira a chegar, última a sair e, quiçá, amanhã voltamos”, explica Marta, sempre sorridente.

É hora do espetáculo!

Maria João chegou por volta das 18h30. Rapidamente, todos os técnicos se focaram na sua voz, fazendo todos os testes e ajustando o som às necessidades da cantora. Mas a hora de jantar aproxima-se e é preciso cumprir os timings de Marta. No entanto, Maria João não acompanha os meninos ao restaurante. Dirige-se ao camarim com o objetivo de começar a arranjar-se. “Eu não janto porque depois sinto-me cheia e preciso de ter espaço no diafragma para cantar. Antes dos espetáculos fico caladinha, porque acho que uma pessoa precisa de criar silêncio dentro de si para dar lugar à música. Se tudo for conversa, comida, a música não tem espaço para entrar. Por isso, antes do espetáculo, arranjo-me calmamente, passo a roupa a ferro, preparo o meu instrumento para depois… paaa! O meu momento de explosão em palco”, descreve a cantora.

O ambiente nos camarins com os Budda Power Blues e Maria João é descontraído e sem rituais. “Há o ritual de não haver ritual”, diz-nos Budda, enquanto passeia de camarim para camarim, preparando-se para subir ao palco. “Cada concerto é um concerto e boa disposição há sempre. Dizemos umas asneiras e tal… Mas o concerto é encarado como um pretexto para estarmos juntos”, afirma Budda.

Juntos, encaminham-se para a lateral do palco, onde uma pequena sala de espera equipada com uma televisão mostra as movimentações do público no Auditório. Escusado será dizer que foram encaminhados por Marta Couto, que aguarda a entrada dos artistas em palco para poder respirar mais levemente. Reunidos, o abraço de grupo prepara-os para conhecer a plateia. “Seja o que Deus quiser…”, ouve-se balbuciar. E que os aplausos os recebam! Quanto a nós, ficamos à espreita através da escuridão que pinta os bastidores do palco. Haverá mais algum segredo para revelar?

 


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