Revista Rua

Apreciar. Música

O Mar de Lince

Lince é o nome que Sofia Ribeiro escolheu para identificar o seu primeiro trabalho a solo. Depois de fazer parte de bandas como We Trust e There Must Be A Place, Sofia Ribeiro lança o EP Drops, um universo que une uma tranquilidade eletrónica à voz dos sonhos.

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

Tocaste com o coletivo There Must Be a Place e com os We Trust. Como surgiu a ideia de um projeto a solo?

Surgiu antes de There Must Be a Place e We Trust. Já componho há muitos anos. Já tive oportunidade de trabalhar com outras bandas e em outros projetos com pessoas de Guimarães. Toquei com o Zé, o Igor e o Giliano (Paraguaii). Também com Marco Ferreira dos Let the Jam Roll. Somos todos da mesma geração e, naturalmente, acabámos por nos cruzar. Já tive um projeto com o Rui Souza, que toca agora comigo ao vivo. Em alguns destes projetos já compunha algumas coisas e sempre tive esta vontade de fazer algo sozinha. Às vezes, com uma banda, temos que partilhar ideias e de nos sujeitar um bocadinho àquilo que os outros também querem. Daí a vontade de compor sozinha e ter um projeto só meu. Entretanto apareceu We Trust e comecei a dedicar-me um pouco mais à banda. Comecei a tocar com eles, mudei-me para o Porto e a minha vida mudou um bocado. Continuei a trabalhar, mas não tão dedicada quanto queria. Hoje sinto que estou mais crescida musicalmente e que as músicas são mais sólidas. Agora, finalmente, acho que surgiu esse espaço.

 

Desde muito cedo que estás ligada à música, mesmo de uma maneira indireta. Aos cinco anos começaste com aulas de ballet, mais tarde estudaste canto lírico e também artes plásticas. De que forma esta convivência com um mundo artístico influencia a tua música?

Todas as experiências que vamos tendo no nosso percurso acabam por nos influenciar ou por se refletir naquilo que criámos. Acho que isso é inevitável. O facto de estar toda a minha vida ligada ao mundo artístico e a várias áreas artísticas também contribuiu muito positivamente no meu trabalho porque acabo também por ter atenção e cuidado em trabalhar o conjunto e não apenas a música em si.

 

Como é o teu processo de criação?

A forma que eu tenho de criar é extremamente espontânea e intuitiva. Não sou daqueles músicos metódicos que compõem de uma forma mais organizada. Eu não sou bem assim. Quando tenho vontade de me sentar ao piano, sento-me. Às vezes vão surgindo sequências e melodias que eu gosto particularmente, vou gravando partes e depois vou juntando. É um processo muito intuitivo e natural, nunca muito forçado.

 

Compor uma música é um refúgio?

Sim, de alguma forma. Refúgio e uma libertação também. Eu sou uma pessoa bastante reservada. Não gosto de me expor ou falar sobre mim, então utilizo as músicas para canalizar coisas que eu mantenho guardadas em mim, onde consigo exteriorizar essas coisas que vou acumulando.

 

Este EP Drops é um trabalho de uma calma escondida onde por vezes se eleva um lado mais mexido e dançável. São influências do teu background na dança?

Sim. Eu gosto muito de dançar, obviamente, não dançar, dançar. Gosto de me mexer, estar ativa fisicamente. Tenho tendência a compor coisas um bocadinho mais suaves e calmas, mas há sempre um lado em mim que me puxa para essa parte mais física, mais mexida. Por isso é que acho que existe este cruzamento de linguagens.

 

Achas que pode existir dança sem música e vice-versa?

Sim. Se calhar há uma música interna, física, um género de onda de som que percorre o teu corpo. Música sem dança? (risos) Não sei! Eu sou muito física, qualquer música me faz mexer.

Numa altura em que a música portuguesa está muito absorvida em projetos sem voz, tu lanças um EP onde a voz transcende sobre o que poderá ser a tua música. A tua voz é o teu instrumento preferido?

A minha voz é o meu instrumento. Já fiz músicas apenas instrumentais, sem voz, mas eu preciso de voz. Quando toco começo imediatamente a cantar, a criar uma melodia de voz. É inevitável. É o meu instrumento.

 

 

Costumavas estar mais acompanhada em palco. Hoje, ao vivo, tocas apenas com mais um músico, o Rui Souza. Sentes uma pressão maior ou, pelo contrário, é algo reconfortante.

É completamente diferente. Com We Trust e There Must Be a Place estava num segundo plano. Era música nos projetos, não era compositora. Tinha um papel diferente, muito mais seguro. Agora a responsabilidade é minha, muito maior também, mas tiro muito mais prazer disso. Eu gosto muito de estar a liderar aquilo, de ter tudo sobre o meu controlo. Dominar o palco e aquele espaço. Dá-me um prazer extra, porque estou a expor o meu trabalho e estou a sentir uma reação imediata das pessoas à música.

 

Toda a estrutura do teu trabalho é etérea, desde os vídeos, passando pela tua voz, até aos elementos que compõem as tuas músicas. “Lince” é uma forma de te revelares pessoalmente? A música “Call Me Home” fala um pouco sobre isso: “Take my skin off me/ I want to feel”. É quase que uma premissa para um processo revelador?

É um sítio onde me revelo, onde me exponho, não com o intuito de me expor, mas é um sítio para onde canalizo todas estas reservas que vou acumulando, que vou guardando em mim.

 

É uma necessidade?

Sim, porque acho que todos nós quando vamos guardando coisas em nós como sofrimentos, angústias, temos necessidade de as exteriorizar de alguma forma. Acabo por fazer isso com a minha música e as letras refletem um bocado isso. A “Call me Home” tem esse sentido de dor, quase como se estivesse a sentir isso fisicamente, essa exposição.

 

Guimarães é a tua cidade natal. Hoje vives no Porto. É mais fácil chegar a um público mais abrangente numa cidade maior?

Acho que sim. Hoje em dia conseguimos facilmente chegar a muita gente. Pomos as coisas online e vamos divulgando com toda a gente de qualquer lado. A única vantagem que acho que têm as cidades grandes é o facto de haver mais gente e se tu conheceres as pessoas, as coisas acabam por se espalhar mais rapidamente. A vantagem de eu estar no Porto foi conhecer muitos músicos de lá e estúdios que me ajudaram a produzir e a gravar. Há mais gente do meio e isso dá-te mais opções.

 

Onde pretendes chegar com Drops? Tens algum objetivo delineado?

Eu não gosto de criar muitas expetativas. Até agora não criei expetativas e as coisas tem corrido muito bem, ou seja, cada etapa que consigo atingir é uma vitória para mim. Lancei os dois primeiros temas sem nada, sem ter ninguém a apoiar-me ou a trabalhar comigo verdadeiramente e as coisas foram crescendo. Continuo sem criar expetativas. Quero e sei que tenho de trabalhar muito. Quero também continuar a compor e apresentar um álbum em breve. Quero crescer e chegar a palcos maiores, mas não existe nenhum ponto onde eu queira chegar.


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