Revista Rua

Observar. Talento

O Meu Corpo É o Teu Corpo, por Ana Monteiro

Texto: Helena Mendes Pereira |

O Teu Corpo É o Meu Corpo é uma designação criada por Ernesto de Sousa (1921-1988) para agrupar uma série de ações, performances e exposições, em que se inclui produção gráfica, fotográfica e fílmica, textos poéticos e obras mixed-media realizadas entre 1972 e 1988. Este ciclo de Ernesto de Sousa integra-se na tendência, sobretudo europeia, da década de 1960 em que a “crise da legitimidade das modalidades físicas da relação do homem com os outros e com o mundo amplia-se consideravelmente com o feminismo, a “revolução sexual”, a expressão corporal, a body-art, a crítica do desporto, a emergência de novas terapias, proclamando bem alto a ambição de se associar somente ao corpo, etc. Um novo imaginário do corpo, luxuriante, invade a sociedade, nenhuma região da prática social sai ilesa das reivindicações que se desenvolvem na crítica da condição corporal dos atores.” (BRETON, David Le – A Sociologia do Corpo. Petrópolis: Editora Vozes, 2006. Página 9).

A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra foi o nome da retrospetiva da obra de Helena Almeida (n.1934) que o Museu de Serralves organizou entre 2015 e 2016. Helena Almeida é também uma das artistas que integra a exposição Alternativa 0: Tendências Polémicas da Arte Contemporânea Portuguesa, organizada por Ernesto de Sousa em 1977.

Como Helena Almeida, Cristina Troufa (n.1974) ou Elizabeth Leite (n.1982), referindo apenas alguns exemplos nacionais, também Ana Monteiro (n.1990) procura consolidar-se como pintora através da autorrepresentação e do uso da sua própria imagem e corpo como objeto central da sua pesquisa plástica. Utilizando palavras da artista, no seu projeto artístico, “o universo da pintura traz para a ribalta uma reflexão intimista e contínua sobre a noção de identidade e relação dessa mesma identidade consigo própria e com o meio social”.

Natural de Braga, licenciada em Artes Plásticas – Pintura e Mestre em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Ana Monteiro descobriu muito cedo vocação para o desenho e para a pintura o que, aliás, é notório no rigor do seu traço, que evidencia competências técnicas básicas apuradas, a que junta sensibilidade e ousadia. Expõe, coletivamente, desde 2011 e, individualmente, desde 2012 com passagens por cidades como Braga, Porto, Lisboa e São Paulo.

Há em Ana Monteiro a pressão de ser mulher e de ser corpo, pressão que o espectador sente e partilha. A sua pintura, ainda que de paleta delicada e vida, é de uma intensidade angustiante e o rosto que se esconde, em concreto na série Vazio, torna anónima e democrática a assunção de identidade pelo outro. Este também é o nosso corpo. 


4 vídeos 808 followers