Revista Rua

Saber. Reportagem

O calçado português: a revolução de uma arte nobre

Nos últimos anos, a indústria do calçado em Portugal tem revelado um crescimento surpreendente, tornando evidente a força de um setor rejuvenescido. A RUA foi visitar algumas empresas de renome na nossa região, entre Felgueiras e Guimarães.

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

É olhando para os pés de milhões de pessoas que começamos a contar uma história de resistência. Há mais de 30 anos, quando Portugal se juntava à Comunidade Económica Portuguesa (CEE), o país era marcado pela ruralidade. As indústrias do calçado existentes eram apelidadas como antiquadas, arcaicas, demasiado artesanais para vingar num panorama mundial. Situavam-se nessas zonas rurais, ou semi-rurais, e eram geridas principalmente por empresários com poucas habilitações, atestando, à partida, um fim próximo. O certificado de falência de uma indústria que era vista como uma arte nobre em Portugal era assinado e rubricado pelas vozes que não acreditavam na capacidade de modernização deste sector. Mas a história foi outra. Ao longo dos tempos, as fileiras do calçado em Portugal reinventaram-se, ganharam ritmo, criatividade e prospeção. Falamos hoje de números surpreendentes, mercados em ascensão e técnicas de vanguarda que transformam as outrora indústrias em decadência em autênticos laboratórios de criação. O espírito rejuvenesceu, numa revolução que trouxe novos postos de trabalho, nova maquinaria e nova visão de um setor que hoje é denominado além-fronteiras como The Sexiest Industry in Europe [a indústria mais sexy da Europa, uma campanha de comunicação desenvolvida pela Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) para reposicionar o setor, dando-lhe uma ideia de sofisticação].

Em 2017, Portugal exportou, de acordo com os dados avançados pelo Instituto Nacional de Estatística e corroborados pela APICCAPS, 83 milhões de pares de sapatos, registando um valor de 1,9 mil milhões de euros (um crescimento de 2,8% face ao ano anterior). Falamos de um crescimento pelo oitavo ano consecutivo, já com algum abrandamento, mas mantendo o período feliz do setor do calçado no nosso país. Com destino a 150 países, sendo a Europa o principal mercado, com mais de 80% das exportações, o calçado made in Portugal mostra-se como sinónimo de qualidade e elegância, levando a aumentos significativos em alguns destinos: Alemanha (mais 11%), Holanda (mais 4,5%), Dinamarca (mais 12,9%), Rússia (mais 63%), Angola (mais 6%) e China (mais 3%). Existiram, no entanto, alguns desempenhos negativos no último ano, nomeadamente em França (com um recuo de 1,5%), Espanha (com uma quebra de 6,6%) e Reino Unido (com uma perda de 6,1%). Todavia, fora da União Europeia, e apesar da desvalorização do dólar, as exportações portuguesas cresceram 7,1% (mesmo com algum recuo registado no Canadá e EUA).

©Frederico Martins

Com os números a comprovarem um balanço positivo desta indústria em termos de mercados, o calçado português tem sido, sem dúvida, uma aposta ganha. Aos poucos, o entusiasmo e a paixão do talento português vai reinventando essa prognosticada indústria moribunda. Desde 2010, o número de empresas na indústria do calçado cresceu 22,4%, para 1534, tendo sido criadas cerca de 290 novas empresas e tendo o emprego na área aumentado 24,6%. Em 2016, os dados lançados pelo Ministério do Trabalho revelavam 38.661 pessoas empregadas nesta indústria, ou seja, mais 6529 empregos do que em 2010.  De acordo com o atual presidente da APICCAPS, Luís Onofre, este é um momento de captação “de uma nova geração de talentos”, devendo ser essa a “grande prioridade para a próxima década”, aliada ainda à aposta na indústria digital, na continuação da promoção das marcas portuguesas e no desenvolvimento de uma nova fronteira de mercado: os EUA.

Dentro desta indústria marcada pela resiliência e pela adaptação às mudanças, Portugal apresenta duas áreas geográficas onde o coração da economia é a indústria do calçado: de um lado, o polo de Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e São João da Madeira; de outro, o polo de Felgueiras e Guimarães, terras que visitamos em busca de algumas das histórias por detrás das principais marcas de calçado portuguesas.

 

Kyaia e o império da Fly London

Sediada em Penselo, Guimarães, a Kyaia é o maior grupo português de calçado. Com um volume de negócio na ordem dos 65 milhões de euros, 50% dos quais resultantes do sucesso da marca Fly London, que se destaca como a marca portuguesa de calçado mais vendida em todo o mundo, a Kyaia emprega cerca de 600 pessoas e mantém a mesma ousadia do seu início, pelas mãos de Amílcar Monteiro e Fortunato Frederico, este último, à frente das hostes da APICCAPS durante 18 anos (até à recente passagem de testemunho a Luís Onofre). Com uma estratégia bem delineada, a Kyaia é hoje conhecida em todo o mundo graças ao icónico símbolo que integra a sua principal marca, a mosca gigante do logótipo da Fly London. Desenvolvendo calçado para um público jovem, idealmente dos 15 aos 35 anos, a Fly London apresenta-se como uma marca urbana, com design criativo e uma combinação de cores e materiais que tem garantido o êxito perante os clientes.

Recentemente, Fortunato Frederico, o homem a que muitos atribuem a causa da transformação do setor do calçado, graças aos seus anos como presidente da APICCAPS e à sua visão astuciosa do mercado, anunciou o investimento de 1,5 milhões de euros na expansão da fábrica da Kyaia em Guimarães, através da construção de quatro novos pavilhões, que servirão para aumentar a capacidade produtiva da unidade fabril – o objetivo será faturar 110 milhões de euros até 2020.

 

Aco Shoes, o conforto em primeiro lugar

Fundada por Armindo Costa, reconhecido por ter ocupado o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Famalicão, a ACO Shoes está localizada na freguesia de Mogege e assume-se como uma empresa focada no calçado de conforto. Com mais de 40 anos de história, a ACO Shoes marca presença em mais de 35 países, sendo a Europa o mercado mais promissor, sobretudo os países da Europa de Leste. Produzindo mais de cinco mil pares de sapatos por dia, num total de 1,5 milhões de pares por ano, gerando um volume de negócio de 35 milhões de euros, a ACO Shoes desenvolve a sua atividade recorrendo à mão-de-obra de cerca de 800 pessoas, dispersas pelas suas três unidades fabris: Famalicão, Ponte de Lima e Cabo Verde. Fernando Costa, filho de Armindo Costa e responsável pelo departamento comercial da marca, descreve a ACO Shoes como “conservadora, seja em termos de fornecedores, de clientes ou de produto”, apesar de destacar já algumas mudanças em termos de design do próprio produto, seguindo as tendências cada vez mais jovens e elegantes que o seu público-alvo – senhoras a partir dos 45 anos - procura. “Estamos muito mais atuais em termos de cores, de materiais e mesmo de sapatos, não porque estamos a divergir para uma preocupação de moda, mas porque as mulheres de hoje, com cerca de 50 anos, são completamente diferentes do tradicional há 30 anos. Preocupam-se em manter-se elegantes e, para garantirmos o nosso sucesso, procuramos oferecer dois tipos de design exteriores do produto, um mais conservador e outro mais arrojado. Isso tem-nos criado uma vantagem muitíssimo importante em países diferentes”, descreve Fernando Costa, aproveitando ainda para esclarecer que, apesar da aposta crescente nos mercados de leste da Europa, a ACO Shoes mantém-se atenta às movimentações de mercado no Japão, Austrália, África do Sul, Canadá ou Israel. “Amanhã, não sabemos se estes mercados podem ser pontos importantes para nós, por isso, vamos tentando manter lá a nossa posição com um ou dois clientes importantes”.

No entanto, a grande aposta da ACO Shoes será revelada em breve: o calçado preventivo, para ser utilizado pelos profissionais de saúde. “É uma área em que existe procura e nós, devido à nossa capacidade técnica, entendemos que somos uma das poucas empresas do mundo a conseguir preços competitivos, uma vez que produzimos tudo cá dentro: as solas, as cunhas, as palmilhas, as plataformas...”, afirma Fernando Costa, assumindo que Portugal será o país protótipo no lançamento deste projeto, ainda em 2018.

[ Fernando Costa, ACO Shoes ]

Com uma fábrica com tecnologia de ponta associada ao espírito trabalhador de uma mão-de-obra que, na visão de Fernando Costa, terá de ser cada vez mais formada e, consequentemente, mais bem paga, de maneira a conquistar mais interessados para as fileiras do calçado, a ACO Shoes aponta como objetivos futuros a consolidação da própria marca, seja com o crescimento em Cabo Verde, seja na abrangência de novas áreas de mercado (neste caso, o calçado preventivo).

 

Nobrand e o seu ADN jovem e arrojado

Em Felgueiras, a Nobrand destaca-se pelo seu espírito jovem, moderno e irreverente, adjetivos que o próprio Tiago Cunha, filho de Sérgio Cunha, proprietário da empresa, nos assegura que correspondem ao ADN dos sapatos ali produzidos. Com cerca de 100 trabalhadores que asseguram a produção de uma média de 800 pares de calçado por dia, a fábrica que leva o estilo Nobrand ao mundo, mais concretamente a 20 mercados, desde a China ao Canadá ou Alemanha, existe desde 1988, aliando a técnica artesanal que tradicionalmente descreve o setor e a alta tecnologia, que contribui cada vez mais para a confeção de sapatos confortáveis, absorventes e resistentes. “Aqui, temos a junção de inúmeras ferramentas que fazem com que, quem nos procura para criar sapatos, nomeadamente marcas internacionais, encontre um serviço completo e satisfação. A nossa catapulta foi a Nobrand. A Nobrand é o motivo pelo qual temos cá uma panóplia de opções de calçado, com a máximo criatividade possível, porque as coleções e os modelos de sapatos alteram-se de continente para continente, de países frios para países mais quentes. Sem falar que, a nível de design, há países mais arrojados e outros mais clássicos ou desportivos”, descreve Tiago Cunha, aproveitando para mencionar a estratégia de mercado da marca Nobrand: “Ao longo dos anos, e o meu pai teve uma forte intervenção nisso, a Nobrand quis conquistar a Europa e só depois o mundo. Porque, logisticamente, é mais fácil: dentro da Europa não há taxas e a logística, seja de transportes, seja de comunicação é mais simples. Destaco os países da Europa Central como a nossa principal aposta”, revela o empresário.

[ Tiago Cunha, Nobrand ]

Com um posicionamento de mercado bastante alargado, apostando numa faixa etária dos 18 aos 60 anos, a Nobrand destaca-se pelos seus modelos atuais e versáteis, reclamando cerca de 14 milhões de euros em termos de faturação anual. Todavia, Tiago Cunha faz uma análise menos promissora do que faria há uns anos. “De momento, nota-se uma quebra económico-financeira e estamos expectantes por melhorias. Digo isto porque, nas feiras internacionais em que participamos, notámos um decréscimo de procura muito grande, o que nos desanima. O maior inimigo das vendas é a própria meteorologia. Sem sol não se vendem sapatos de verão e sem chuva não se vendem sapatos de inverno. As variações do tempo são tão grandes atualmente que quebram o ritmo do setor”, garante Tiago Cunha.

 

Alexandra Castro e Rute Marques, Friendly Fire ]

Friendly Fire, o poder da originalidade

A história da Friendly Fire prova, numa evidência clara, a capacidade empreendedora portuguesa. Alexandra Castro e Rute Marques são amigas de longa data e apaixonadas por moda, apesar das suas áreas de formação em nada coincidirem com a indústria do calçado (Educação Básica e Nutrição, respetivamente). Em 2015, fruto de uma ideia arrojada motivada pela falta de satisfação profissional, as duas jovens lançaram-se num mercado que, em teoria, nenhum conhecimento tinham – além dos seus próprios gostos. A ideia era simples: criar sapatilhas diferentes das que já existiam. Reuniram-se então com uma empresa de renome na indústria do calçado, a JAM Fernandes, localizada em São Torcato, Guimarães. De repente, aquele objetivo inicial de criar apenas alguns pares de sapatos cresceu exponencialmente, graças ao incentivo da empresa e da proposta lançada: dar novo fôlego à Friendly Fire, uma marca que se encontrava parada. Pelo impulso de Alexandra Castro e Rute Marques, a Friendly Fire começou a circular pelos corredores das feiras internacionais, ganhando notoriedade e recebendo feedback positivo por parte das clientes femininas, que facilmente se deixavam encantar pelos acessórios removíveis das sapatilhas desenhadas pelas jovens portuguesas.

Posicionando-se no ramo de luxo, a Friendly Fire é hoje uma marca autêntica, apaixonada, eclética, excêntrica e divertida, bem ao gosto feminino. Convidando as mulheres a expressar a sua personalidade, esta marca portuguesa tem já vários pontos de venda nacionais e internacionais, destacando-se países como Espanha, França, Itália, Irlanda, Alemanha e Rússia. Para além desses pontos de venda locais, as sapatilhas, sandálias ou plataformas da Friendly Fire podem ser encomendadas online, com uma média de preços entre os 100 e os 300 euros.


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