Revista Rua

Apreciar. Cultura

O delicado gesto da arte

Rita Almeida

Texto: Rita Almeida |

 

Fotografia: ©Nuno Sampaio

 

É por detrás de um portão verde que encontramos o atelier da escultora Iva Viana, natural de Viana do Castelo. Repleto de peças, de moldes e de trabalhos que lembram um percurso artístico usando matérias que nem todos valorizam, este atelier é um espaço amplo, apetrechado de utensílios que, nas mãos de Iva Viana, são mecanismos indispensáveis para a criação das mais belas obras de arte. E, essas, espalhadas pelos recantos numa organização que, por vezes, só mesmo Iva entende, viajam dali, da freguesia de Meadela, para todo o mundo, colocando em evidência um talento de uma jovem mulher minhota. Este é um espaço pessoal de criação, que surgiu em 2013, onde Iva tem a liberdade e a autonomia de explorar o que a sua veia artística lhe sugere.  É um “trabalho minucioso”, como a própria afirma, em que tem de haver paixão pelo “fazer à mão”.

Licenciada em Artes Plásticas, na variante de escultura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Iva Viana começou a sua vida profissional numa empresa estrangeira, especializada em estuques decorativos. Apesar de, no Porto, ter morado numa casa em que os tetos eram decorados em estuque, isso não foi suficiente para lhe chamar à atenção para trabalhar na área. Foi apenas através da empresa onde trabalhou que despertou a paixão pelo gesso e pelos estuques decorativos: “Foi quando eu comecei nesta área que realmente me apaixonei”. Perceber como funciona é “bonito”, conta Iva. Depois de seis anos na empresa, decidiu ter o seu próprio atelier.

A luz natural que invade este espaço é essencial para o desempenho do seu trabalho, luz essa que adora para trabalhar. É já um percurso de dez anos, ao qual Iva confessa não gostar de chamar “carreira”.  Os gestos delicados com que modula o gesso e, em contrapartida, a intensidade com que as suas mãos lixam as peças fazem com que o seu trabalho seja reconhecido tanto a nível nacional como internacional. É, neste espaço, que produz objetos modelados a barro ou gesso, moldes de silicone para fundir peças de gesso, de resina, de cera, de porcelana, de cimento, de pedra reconstruída. Também moldes de silicone culinário, para fundir chocolate. Cria-se um registo estético original, numa metáfora tátil e visual, em que se define a essência de cada projeto. A sua experiência ao nível das técnicas tradicionais de escultura decorativa em gesso faz com que tenha um trabalho assinado e peças de autor, sendo que, para Iva, o gesso é uma matéria nobre. O gesso pode não ser uma pedra, não ser um bronze, nem tão pouco uma madeira, mas Iva quer mostrar ao mundo o poder e o valor deste material, que teve maior relevância noutros tempos. Há uma ligação da autora com a própria matéria, mas, como o seu trabalho não é tão reconhecido como antigamente, são poucos a fazer disso vida. “A minha vontade é trabalhar essencialmente com a arquitetura, não é ir para galerias”, confessa. Cabe a Iva fazer renascer todos os dias uma tradição antiga, o que não é tarefa fácil.

Iva Viana tenta responder às necessidades criativas de designers, arquitetos, decoradores. Apresenta no seu portefólio centenas de objetos e obras em locais emblemáticos, destacando os trabalhos desenvolvidos para o Hotel Four Seasons, em Londres (2010), para o Hotel Shangri-La, em Paris (2012) e para o teto do Hotel Príncipe Real, em Lisboa (2015), uma das mais consagradas produções de Iva. A nível de objetos, podemos destacar os elementos da natureza, como as folhas com o “Módulo Folha” e as flores com “Flor” e “Roseta”.

Mas como é este processo de criação? Iva é, em primeiro lugar, convidada a conhecer o espaço onde realizará o projeto e, depois de uma conversa com o cliente, uma conversa que permita conhecer o projeto total de arquitetura, é que fica preparada para apresentar uma proposta criativa. O cliente é convidado a seguir todo o processo, discutindo e acompanhando através de visitas ao atelier ou através de fotografia. Em termos de trabalhos, o ano de 2018 será ocupado com um projeto para Lisboa e outro para Macau, ambos em fase de arranque.

Com as suas roupas pintadas como prova evidente de mais um dia de trabalho, Iva Viana continua a sua experimentação, cruzando procedimentos manuais de modelação de estuques com processos modernos de fundição de diferentes matérias, proporcionando um encontro entre passado e futuro, numa panóplia de objetos que contam a história de uma alma criativa em constante evolução. Iva Viana é luz, é história e modernismo, tudo numa frase que exige uma exclamação clara de reconhecimento de um talento tão nosso, minhoto e português.

 

 


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