Revista Rua

Viver. Decantar

O desafio das colheitas

“Não é a casta Alvarinho que faz Monção e Melgaço especial, é o terroir único desta sub-região que torna o Alvarinho excecional”, diz o enólogo e produtor Anselmo Mendes.

Anselmo Mendes

Texto: Anselmo Mendes |

Cada ano que passa é um novo desafio e este ano não foi excepção. Como costumo dizer, os produtores de vinho gerem empresas a “céu aberto”, isto é, estamos sempre dependentes do que a natureza nos dá, não havendo alternativa senão nos sujeitarmos a ela. Se, em 2014, o ano foi frio e chuvoso e o desafio foi sobretudo na vinha, em 2017 foi o aposto. Este ano foi seco, muito seco e apesar das vinhas terem tido um ciclo bastante são e com muita produção (a floração correu bem, sem grandes sobressaltos), o rendimento da uva foi bastante baixo. A falta de água no solo e as temperaturas altas que se foram sentindo ao longo do verão levaram a que os níveis de açúcar nas uvas atingissem o seu ponto ideal muito antes do previsto, obrigando os produtores a iniciarem as suas vindimas muito antes do período normal. Confesso que não tenho ideia de alguma vez ter visto algo semelhante. Tivemos produtores, sobretudo na zona sul do país, que iniciaram as vindimas no início de agosto, quase um mês antes do que é normal. Aqui nos Verdes não foi exceção. Se, no ano passado, começámos em meados do mês de setembro, este ano tivemos que começar no dia 4, para garantir que conseguíamos o equilíbrio entre grau e acidez que pretendemos para os nossos vinhos.

Nós trabalhamos maioritariamente com três castas, Alvarinho, Avesso e Loureiro, e há algo de que não abdico: cada casta tem o seu lugar de origem e é da origem que eu quero trazer cada uma destas castas. O Alvarinho vem da sub-região de Monção e Melgaço, onde temos a nossa Quinta da Torre com cerca de 70 hectares e que é a base da nossa produção desta casta. No Vale do Lima, temos várias vinhas onde produzimos o Loureiro, casta que nesta sub-região atinge todo o seu esplendor, e da zona de Baião trazemos o Avesso, uma casta em crescimento e de enorme potencial. O facto de produzirmos em zona distintas da região traz-nos um novo desafio: há que controlar bem as maturações e articular bem a vindima com o trabalho na adega. É trabalhoso, mas é essencial para garantir a autenticidade das castas que vão compor os nossos vinhos. Este ano, começámos pelo Avesso, que se encontra numa zona mais interior na região, na fronteira com a região do Douro, onde encontrámos um clima mais seco e quente e que, por esta razão, esta casta atingiu a sua maturação ideal mais cedo e foi a primeira casta a entrar na nossa adega.

Pouco depois, começámos a vindimar o Alvarinho, a principal casta com que trabalhamos e que, apesar de estar na ponta oposta da região relativamente ao Avesso, também encontra na sub-região de Monção e Melgaço um local um pouco mais seco e quente que atribui características particulares a esta casta e que a torna única no mundo. É como costumo dizer: não é a casta Alvarinho que faz Monção e Melgaço especial, é o terroir único desta sub-região que torna o Alvarinho excecional e capaz de produzir vinhos brancos de enorme qualidade.

Por fim, entrámos no Loureiro, casta mais fina e delicada e proveniente de uma zona mais fresca e com enorme influência Atlântica, que garante as mais elementares características daquela que é a casta mais plantada na nossa região.

Em conclusão, posso dizer que teremos um bom ano de produção onde uma vez mais o homem e a natureza terão que encontrar a simbiose perfeita para garantir bons vinhos. Acredito que eu e a minha equipa estaremos à altura do desafio!

[ Fotografia: D.R. ]


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