Revista Rua

Apreciar. Instagram

O espelho de uma mulher

Cláudia Faro Santos está na Rua

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

@claudiafarosantos

Existem lugares habitados quase sempre pela tua presença. Uma espécie de alter-ego que preenche os espaços vazios, ou um mapa emocional onde te podemos encontrar?                                             

As duas coisas. Fascina-me, na fotografia, essa faculdade (ou ilusão) de habitar as coisas. Quando vês e és capaz de registar o que vês, ou quando não vês, e mesmo assim o registas, há um processo de memória que te predispões a desencadear internamente e ao qual não podes fugir. Para mim, o ato de fotografar é um ato de performance vivencial: o que quero comunicar quando escolho fazer uma imagem é, antes de qualquer outra coisa: “eu estou aqui e sou agora”. Uma espécie de luta contra a cegueira do passar do tempo em que subverto o próprio tempo. E sim, estar ali implica habitar um espaço, implica uma disposição para o mundo real e uma aceitação do que quer que venha do outro. Implica uma procura e aceitação do vazio. Fotografar é um acto de caça contemplativa e eu defendo que observar, ou absorver a imagem fotográfica, também o deveria ser.

Acredito que criar através da imagem fotográfica é fazer o uso máximo da nossa liberdade condicionada, porque o ponto de partida da técnica pressupõe o registo de algo que verdadeiramente existe (e mesmo que tenha sido encenado ou manipulado, tem que existir, química ou fisicamente). Por mais que defenda a fotografia como meio de expressão criativa, assumo-a como inevitável ferramenta de documentação; e é talvez a ferramenta de documentação mais caleidoscópica que conheço.

                                                               

Os teus rostos são sobretudo femininos - o teu rosto. São uma alegoria imagética do sentido de ser mulher?                            

Diria antes que são uma alegoria imagética do sentido de se ser humano. O meu rosto e o meu corpo  estiveram sempre mais disponíveis. O retrato fascina-me, mas retratar os outros é muito complexo. O rosto está inteiramente ligado à nossa ideia de identidade e de auto-noção. Quando catalogas mentalmente as pessoas que te rodeiam, atribuis-lhes um rosto. Quer queiramos, quer não, estamos todos presos à memória da nossa fisionomia, e não há muito a fazer perante este facto, é cultural.

                                                                     

Percorrer as tuas páginas é quase como que uma aproximação à leveza e à sofisticação da luz dentro de um corpo. Somos levados por rostos fortes que se entregam, que se verbalizam. É a tua voz interior num disparo?

É. Gosto desta ideia de trazer à luz o que é invísivel ou indizível. O disparo é um meio de crescimento, de alastramento, porque quando fotografo, sinto que esse algo me incorporou e que eu incorporei esse algo. Uma espécie de troca quimico-fisica, metafísica.

Uma mulher que gostasses de fotografar em cima de um telhado numa manhã de verão?                                        

Todas as mulheres que queiram subir a um telhado numa manhã de verão. 


Relacionados

4 vídeos 692 followers 2 posts