Revista Rua

Apreciar. Instagram

O estado dos sítios invisíveis

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

Alexandre Coelho Lima está na RUA

Há uma linha de cor que nos ajuda a fazer parte do teu mundo: dos locais vazios de gente. A cor é o teu método de persuasão estético para quem vê as tuas fotos?

A cor é um dos métodos, mas não o único. O seu uso ou do preto e branco é definido caso a caso, mas talvez me incline mais para o preto e branco, por achar que “limpa” mais a fotografia. Procuro preto e branco para enfatizar a forma ou quando a cor reduz o impacto ou provoca “ruído”. A composição é, sem dúvida, a minha maior preocupação, quase uma obsessão e surge do facto de ser arquiteto, onde a composição não sendo tudo, é essencial.
O jogo de luz, o claro e escuro, as sombras produzidas são também temas que gosto muito de trabalhar.

 

As personagens das tuas histórias são distantes, isoladas, quase como se fossem colocadas em sítios estratégicos. O estado de fotografar todos os símbolos numa simbiose de entrosamentos é a tua procura mais natural na fotografia?

Essa simbiose de todos os elementos com a figura humana é a mais recorrente. A personagem surge única, porque uma é suficiente para humanizar e dar escala ao espaço. Dizem que as fotos refletem a personalidade de quem as capta e suponho que comigo não é exceção. Não sou um solitário, mas aprecio o isolamento, e tenho necessidade de momentos a sós. O ato de fotografar é quase sempre sem companhia. A figura humana aparece distante por respeito à mesma, pois procuro que não seja identificável, mas nem sempre isso acontece. Surge normalmente como o elemento principal da composição, “colocada” nos sítios que chamam mais a atenção, ou seja, a regra dos terços. Para que isso aconteça, “persigo” a pessoa e disparo várias vezes. Quando passo à edição opto pela foto que considero que fica melhor composta no conjunto. Acontece muito ver um cenário ideal e esperar que alguém passe para fotografar, ou correr atrás de alguém que se dirige para um sítio, que sinto que é especial, é tudo muito rápido e instintivo!

Todos os teus sítios parecem madrugadores - matinais na luz, no movimento –, compondo um estado introspetivo. Fotografar é uma licença para ser livre?

Isso acontece por dois motivos, primeiro porque gosto de me levantar cedo, depois porque a luz do amanhecer é especial. No entanto, isto não quer dizer que não goste de fotografar noutras alturas do dia. Sempre que posso também procuro fotografar ao fim da tarde, quando a luz também é estimulante e mágica.Um estado introspetivo? Sim, porque sou assim, muitas vezes fechado no meu mundo, sou aquário! É quando saio para fotografar que se apodera de mim um grande sentido de liberdade, vou para onde quero, quando quero e registo o que pretendo, o que capta o meu olhar.

 

Qual é a cidade que te faz levantar de madrugada para fotografar?

Todas as cidades ou lugares me fazem madrugar para fotografar, mas talvez o Porto, por ser das cidades mais próximas de Guimarães a mais vasta, com muitos temas e com o Rio Douro, que, com o seu típico nevoeiro consegue-se fotos deslumbrantes!

 

Instragammer do ano de 2017 em Portugal é um título que traz uma maior responsabilidade fotográfica?

Esse título é exagerado. Fui eleito num concurso promovido pela Gerador, prémios Instiesgerador, onde participaram ao longo de 2017 muitos fotógrafos com 40.000 fotos, mas conheço grandes instagramers que não concorreram. No início fiquei um pouco assustado, e custou-me decidir qual seria a foto a partilhar depois do prémio. Com o tempo entrei na rotina e decidi que tinha de fazer o que já fazia, mas continuar a evoluir e procurar apresentar algo de novo. Foi um prémio inesperado que me deu uma grande satisfação e estímulo para continuar a fotografar mais e mais.


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