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O meu país é o meu país

“Nunca quis emigrar”. Daniela, professora, partiu para o Qatar sem nunca ter desejado sair de casa. As palavras frias e afiadas proferidas servem para explicar que a distância entre Barcelos e o Qatar mede-se em quilómetros de despedidas e de projetos de vida inacabados. Só enviou um currículo, só teve uma entrevista, seis meses depois estava do outro lado do mundo.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

“Nunca quis emigrar”. Daniela, professora, partiu para o Qatar sem nunca ter desejado sair de casa. As palavras frias e afiadas proferidas servem para explicar que a distância entre Barcelos e o Qatar mede-se em quilómetros de despedidas e de projetos de vida inacabados. Só enviou um currículo, só teve uma entrevista, seis meses depois estava do outro lado do mundo.

Nunca quis emigrar.

 

O futuro constrói-se na península arábica. A morar em Doha desde agosto de 2014, Daniela Cardoso é professora de educação musical. Dá aulas a cerca de 600 alunos do ensino primário, numa escola internacional inglesa. Paulo, o namorado, partiu primeiro. Ela ficou. “No início nem sequer pensei ir. Não queria porque nunca quis emigrar. Tinha a minha família aqui. Tinha começado um mestrado há pouco tempo, tinha um contrato de trabalho”, conta-nos. Mas a distância entre os dois fez-se sentir e ela tomou a decisão de também ir.

 

Não tinha dúvidas. A minha mãe só acreditou quando me viu entrar no avião em agosto.

 

Só quando se chega ao aeroporto, no dia da partida é que se esvanece a esperança da mãe, Alice. Surge o último suspiro à procura de uma última oportunidade de tudo ser apenas um sonho. É a hora da despedida, a viagem segue rumo a uma qualidade de vida que “por cá nunca teria oportunidade de ter”. As palavras da Daniela entoam numa dissonância triste e esperançosa. A família é sempre o mais difícil de deixar para trás, “eu não tinha dúvidas. A minha mãe só acreditou quando me viu entrar no avião em agosto. Estava preocupada porque era muito longe, não era na Europa, estava muito calor e todas as desculpas eram boas para eu não ir, mas no fundo, sempre me apoiou.”

    

Primeiro impacto

Um calor insuportável que bate na cara. O inferno irrespirável é a primeira coisa que se sente quando se chega ao Qatar. Seguidamente, a estranheza toma conta da perceção de ver pessoas cobertas dos pés à cabeça, o que para um europeu não é familiar. Por outro lado, também se entranha a sensação de toda a gente estar a olhar para nós. A pele clara e o cabelo loiro ajudam a atrair as atenções.

 

Tenho de me vestir de forma modesta.

 

A primeira adaptação está na forma de se vestir. Calças de ganga não são permitidas na escola, mas não é necessário usar o Hijab (véu islâmico usado para cobrir a cabeça e ombros). Os ombros devem estar cobertos, não se pode usar decotes ou sais curtas. Quando chegou à escola, a primeira coisa que indicaram foi para ter especial atenção quando se escreve no quadro da sala de aula. Ao levantar o braço o ombro deve permanecer coberto. “Tenho de me vestir de forma modesta”, explica. No entanto, também nos conta que há sítios onde se pode estar mais à vontade, como no deserto e em praias privadas.

Adorei o deserto.

Quando se fala no deserto, os olhos brilham e um sorriso enorme desenha-se na sua face. Descreve-o como um dos locais mais fantásticos e surpreendentes que já viu, “a primeira vez que fui ao deserto fiquei maravilhada da minha vida”, refere. Segundo o que relatou, parecia uma cena saída de um filme: “dunas altíssimas, a adrenalina de as subir, as paisagens espetaculares, o pôr-do-sol, um homem com turbante a caminhar com o seu camelo: adorei, adorei o deserto”. No fundo percebe-se que encontrou ali num deserto de liberdade um oásis de esperança.

Eram cerca de 83 nacionalidades diferentes na escola, é uma miscelânea de pronúncias.

O início foi difícil. Utilizar o inglês como primeira língua era novidade e apesar da preparação em Portugal, “eram cerca de 83 nacionalidades diferentes na escola, uma miscelânea de pronúncias. Quando achas que percebes inglês, chegas ali e não compreendes nada!”, diz. Apesar das dificuldades iniciais, ela sentiu bastante apoio da grande comunidade portuguesa de professores e da diretora do seu departamento. Segundo o que nos contou, a escola proporciona condições excelentes e na área que leciona, fornece materiais necessários tais como instrumentos musicais. Uma realidade bastante diferente da que viveu em Portugal, onde “andava com os instrumentos às costas” quando dava aulas de atividades extra curriculares.

Se música é pecado, o que é que eu serei para eles?

Sendo professora de educação musical, por vezes existem algumas situações caricatas. Alguns alunos dizem que não podem ter música porque é pecado. “Se música é pecado, o que é que eu serei para eles?”, brinca.

Quanto às questões culturais, Daniela Cardoso, quando chegou não ia muito ciente do que ia encontrar. Explicou que não é muito fácil estar na cultura deles e que se sente uma pressão muito grande e muita ansiedade em fazer alguma coisa errada sem se aperceber. “Em algumas situações ficas a pensar, o que é que eu fiz, será que toquei, será que empurrei, falei mais alto, será que fiz alguma coisa de errado, o que posso fazer, o que não posso fazer, até onde posso ir? Que limites é que tens? Depois acabas por te adaptar. Descobri uma paciência que não tinha”, exemplifica.

 

  

 

Ganhar mais dinheiro

 

Partir para os Emirados do Médio Oriente é ir em busca de mais riqueza. A principal motivação é mesmo monetária. “Tenho uma qualidade de vida que em Portugal não tinha oportunidade de ter.” O Qatar tem um milhão de habitantes, dos quais três quartos são trabalhadores estrangeiros, de todas as religiões. Quando se fala de qualidade de vida, podemos diferenciar dois tipos diferentes, como nos explica: “Em Portugal tenho a minha liberdade, posso sair de casa à vontade, estou perto de tudo, a temperatura é agradável. No Qatar é mais difícil, o trânsito, muito calor. Sem dúvida que a nível monetário é um mundo completamente diferente que em Portugal não teríamos.”

 

 

O Qatar tem coisas muito bonitas, mas o meu país é o meu país.

 

De península a península, há um mundo que se abre mas que não fica maior.  “Em parte, o meu mundo ficou mais pequeno porque não tenho a mesma liberdade.  Além de não ter a minha família, os meus amigos, entre outras coisas. Ficou um mundo maior, no sentido de conhecer outras culturas.”

 

Quanto a conselhos para quem quiser partir em busca do tesouro das Arábias, recomenda uma visita à comunidade no Facebook que se chama “portugueses no Qatar”. É um espaço de partilha, onde se pode encontrar informações sobre os mais diversos assuntos. Desde o que é preciso fazer para ir para o Qatar como saber recomendações de um médico ou até cabeleireiros. “Ficas com a informação que precisas porque as pessoas ajudam muito. É um apoio muito importante que fornece mais conhecimento de assuntos que não fazias ideia”, aconselha.


A Daniela mudou-se de malas e bagagens para um rumo mais certo e com muitas esperanças. A professora Daniela acredita que o futuro passa por voltar a Portugal, mas sem ter grandes planos por enquanto, resigna-se a esperar com a tolerância que foi ganhando com esta experiência.


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