Revista Rua

Saber. Entrevista

O rosto do Presidente

“Quem não estiver preparado para ser confrontado com as queixas ou com as reclamações das pessoas não pode exercer este cargo”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

A luz que rompia pela janela do gabinete da presidência, naquele final de tarde, acompanhou uma longa conversa focada no passado e no futuro de uma cidade que hoje é reconhecida como cosmopolita, empreendedora e sobretudo rejuvenescida. À frente das hostes desta capital do Minho está Ricardo Rio, um homem com forte ligação à família – destaca por exemplo o avô como responsável pelo “bichinho” que tem pela política – e com uma atitude que visa a proximidade e abertura da Câmara Municipal à comunidade. Orgulhoso da cidade que viu crescer, Ricardo Rio analisa o seu legado enquanto político, numa entrevista aprofundada que nos pedia muitas mais páginas.  

Bracarense de alma e coração, sente-se orgulhoso da sua cidade?

É a cidade mais bonita do país! Tenho muito orgulho na cidade de Braga e, embora não tenha aquela lógica bairrista de achar que só nós é que somos bonitos, Braga é aquela cidade importante. Nasci cá, estudei cá, vivi sempre cá e, mesmo quando estive a estudar na faculdade e depois já a trabalhar, em que vivi durante um período no Porto, sempre mantive uma ligação muito forte à cidade de Braga, onde tenho a minha família e onde quis voltar para continuar a desenvolver a minha vida.

Sentia-se preparado para ocupar o lugar de Presidente?

Sim. Eu digo, sem qualquer tipo de imodéstia, que no momento em que fui candidato pela primeira vez à Câmara Municipal de Braga já era uma das pessoas que mais dominava os assuntos que contendiam com a gestão municipal. Quando fui eleito pela primeira vez vereador, em 2005, o trabalho que eu e a minha equipa fizemos na oposição foi verdadeiramente notável e, com muita satisfação nossa, fomos muitas vezes citados como um exemplo de trabalho de oposição a nível nacional, ao ponto de, em 2009, eu achar que, de facto, dominava tão bem ou melhor a esmagadora maioria dos assuntos da gestão municipal do que o próprio Presidente da Câmara e do que os vereadores da maioria. Daí que o projeto tenha continuado, em 2009. Não foi bem-sucedido ainda, morremos na praia numa eleição que achávamos que íamos claramente vencer... perdemos por dois mil votos como é sabido. Depois, em 2013, digamos que, para muitos, foi uma vitória natural, mas foi fruto de todo este percurso, de todo este trabalho e da expetativa que as pessoas tinham também sobre a transformação que poderíamos introduzir na cidade.

Acabou por crescer numa cidade em que o poder político esteve associado durante anos a um único nome. De certa forma essa fome de mudança foi crescendo consigo?

Eu não acho que tenhamos de centralizar numa lógica de apreciação negativa sobre uma única pessoa. É óbvio que o passado é indissociável daquele que, durante 37 anos, exerceu funções como Presidente da Câmara. É um nome incontornável, com os seus méritos, com os seus deméritos, com os muitos fatores de crítica que me levaram obviamente a me opor a ele politicamente, em diversas circunstâncias. Mas acho que o meu desejo de me envolver não teve tanto a ver com a necessidade de mudança, mas sobretudo com a convicção profunda que eu tinha de que era possível fazer bastante melhor, porque haviam muitas matérias que estavam a ser descuradas, porque a postura da Câmara Municipal devia mudar. Os valores que eu tenho cultivado, em termos de acessibilidade, de proximidade, de relacionamento, de colaboração, estavam há muito perdidos. Parece-me que isso naturalmente me induzia a pensar que, quando eu merecesse a confiança dos bracarenses, seria capaz de fazer essa transformação de que Braga necessitava.

Que tipo de político quis ser? Tentou cravar mudanças?

No outro dia, alguém me perguntava: “O que é que mudou em Braga com Ricardo Rio?” e eu respondi, um pouco a sério, um pouco a brincar, que a coisa que não mudou é que ainda há muito por fazer. Havia áreas que estavam completamente descuradas: dinamização económica, animação cultural, reforço de iniciativas de cariz social, valorização patrimonial, projeção da cidade, estabelecimento de laços de colaboração no plano institucional dentro da cidade e fora dela... Até em termos da acessibilidade e proximidade, acho que se quebraram completamente algumas barreiras que existiam. Portanto, o Ricardo Rio presidente procurou corporizar aquilo que eram os valores, os princípios e as propostas que o Ricardo Rio opositor foi fazendo ao longo dos tempos.

Há ‘esqueletos’ que mais vale não conhecer? Estava preparado para aquilo que encontrou quando assumiu as funções do cargo?

Estava preparado e devo dizer duas coisas a esse propósito: a primeira é que eu nunca quis usar a temática dos esqueletos como desculpa para qualquer não concretização das nossas iniciativas. Obviamente que se houvesse menos encargos financeiros, se houvesse menos dificuldades judiciais em relação a determinados processos, ou menos objeções técnicas em relação a algumas questões que foram surgindo e que não eram do conhecimento, o nosso trabalho teria sido facilitado. Mas temos que saber lidar com essas adversidades. Mas o facto de não estar a usar como desculpa também nunca justificaria que eu, pura e simplesmente, não tornasse público esses problemas e essas barreiras, para que as próprias pessoas possam fazer o seu juízo e ter conhecimento da forma como a Câmara foi gerida noutros mandatos. Depois, também é verdade que, infelizmente, boa parte dos problemas e dos mais gravosos - dos ditos esqueletos -  não foram novidades. Eram esqueletos que eu já vinha anunciando há muitos anos, na altura um pouco como um pregador no deserto:

O caso da SGEB (Sociedade Gestora de Equipamentos de Braga), que eu durante a sua constituição, antes mesmo de ser formalizada, avisei que seria um negócio ruinoso para a Câmara Municipal. E, depois, o processo ainda foi mais gravoso do que aquilo que se adivinhava e gerou aquele volume de despesas que todos hoje sabemos. Felizmente, como nós desejamos, dentro de um mês e meio, quando tivermos este processo totalmente encerrado, iremos gerar uma poupança de 90 milhões de euros para os cofres da Câmara Municipal.

O caso das expropriações que foram sendo feitas, como é o caso do Monte Picoto, em que eu recentemente tive de pagar mais um milhão de euros à Arquidiocese do que aquilo que a Câmara anterior se predispôs a pagar.

Outros casos, como o caso do processo do estacionamento, contra o qual eu sempre fui, no momento em que ele foi concursado, porque achava que era um erro grave a Câmara Municipal estar a abdicar do poder de controlar essa matéria. Hoje, de acordo com o que já foi deliberado, temos um fim determinado, ou seja, em 2018 iremos rescindir o contrato. Mas, independentemente disso, a verdade é que durante todo este período tivemos esta incerteza, todas estas problemáticas com que os cidadãos se confrontaram por causa da vigência do alargamento, não vigência, as aplicações...

Há também outras situações que, às vezes, têm a ver até com alguns dos alegados incumprimentos que me são apontados do ponto de vista dos meus compromissos. Quando ouço responsáveis dos partidos que tiveram responsabilidades no passado dizer que não conseguimos fazer ainda o Parque das Sete Fontes, eu pergunto-lhes quem é que conferiu àqueles terrenos a capacidade construtiva que eles hoje têm, valorizando-os de maneira a tornar menos viável num futuro próximo a concretização do parque, porque obviamente vai obrigar a um esforço negocial bastante mais rigoroso por parte da Câmara Municipal. Como essas, muitas outras situações que obviamente são condicionantes, mas que temos de lidar com elas. E não é por isso que achamos que estamos a fazer um pior trabalho.

Mas como se altera a imagem de uma Câmara Municipal que, durante tanto tempo, pareceu fechada à comunidade?

Eu acho que aquilo que os ingleses designam como accountability é um termo que tem estado sempre presente na nossa ação. Presente no sentido de que não há ninguém que não saiba o que a Câmara faz, aliás é no mínimo curioso que nos acusem de falta de transparência quando todos os nossos passos são totalmente escrutinados, seja por jornalistas, seja por cidadãos, seja por políticos. Não têm que andar com nenhuma investigação judicial para saber o que se passa.

Quis, de certa forma, desvincular-se totalmente do legado de Mesquita Machado? Esse foi o seu propósito?

Não me quis desvincular desse legado - até porque eu fiz questão de dizer na noite em que ganhei as eleições, e de o repetir no dia em que tomei posse, que aquilo que de bom vinha do passado nós queríamos preservar. Ainda estou à espera da primeira medida, da primeira ação, da primeira proposta que me digam que, nos anteriores mandatos, havia ou fazia-se isto e agora deixou de se fazer. Não há! De facto, o que nós temos conseguido - e isso é particularmente meritório - é construir sobre o que existia.

Mantém alguma relação com Mesquita Machado?

Eu tive muito poucos contactos, mesmo no passado. Enquanto colegas de vereação, ele Presidente e eu vereador na oposição, tivemos dois mandatos drasticamente diferentes. O primeiro, entre 2005 e 2009, em que havia uma crispação fortíssima, porque de facto também admito que o próprio Presidente anterior não estivesse habituado a uma oposição tão acirrada. Entre 2009 e 2013, tivemos a mesma confrontação do ponto de vista político, mas do ponto de vista pessoal já com um relacionamento bastante mais tranquilo. A partir daí, depois de eu vencer as eleições, tive um encontro de migração, de transição de pasta e poucos mais contactos tive com ele. Encontrei-me em circunstâncias ocasionais. Estive recentemente, como é sabido, num debate com ele sobre os 40 anos do poder local na nossa escola Carlos Amarante, mas tirando isso pouco me tenho encontrado com ele. De facto, não mantenho nenhuma relação sequer.

Podemos assumir que tentou envolver os atores locais como a Universidade do Minho e a própria Igreja. Como é hoje a relação da Câmara Municipal com essas instituições?

Com esses dois atores de forma particular, pela sua preponderância em diferentes contextos. Sabemos bem que a Igreja de Braga tem um protagonismo de um ponto de vista não apenas religioso, mas também social, patrimonial, cultural, a vários níveis até enquanto proprietário de muitos espaços e projetos no concelho. A Universidade do Minho é também um foco fundamental do ponto de vista da atratividade, do rejuvenescimento da cidade, da produção de conhecimento, do apoio à dinamização económica. Mas eu diria que essa postura não se cingiu a esses dois protagonistas. Eu acho que um dos grandes fatores de transformação nestes últimos anos foi a criação de um modelo de governança do concelho em que nós temos todos os agentes bastante alinhados, sem perderem autonomia. Não há aqui qualquer tipo de tutela de uns sobre outros e muito menos da Câmara Municipal sobre qualquer um deles.

Outro dos atores locais importantes para a cidade é o SC Braga. Durante muito tempo, o clube foi apontado como um instrumento político. Hoje em dia, qual é a relação entre a Câmara e o clube?

Eu julgo que é aquela que sempre deverá ser. Uma relação de grande proximidade, de grande colaboração. O SC Braga é uma das grandes instituições da cidade, é daquelas que a nível nacional e internacional mais a projetam e, portanto, tem até aqui um valor económico e de identidade de marca que temos de valorizar. Aquilo que temos procurado contribuir é para a independência, a autonomia do SC Braga e a sua sustentabilidade futura à margem de qualquer controlo da Câmara Municipal. Dou este exemplo: alguém me perguntava se eu ficava contente por ver duas listas a concorrerem ao SC Braga e não haver ingerência direta, como muitas vezes aconteceu, da própria Câmara nesse processo. Eu digo que isso é também sinal dos tempos, de que hoje a Câmara tem essa relação de colaboração, aliás, retribuída também – da mesma maneira que nós apoiamos os projetos do SC Braga, como aconteceu recentemente de forma mais evidente no caso da Academia, também o SC Braga tem retribuído à cidade, com muitas ações sociais que tem desenvolvido, mas sobretudo com aquela colocação do Visit Braga nas camisolas.

Muito se tem falado da questão da doação dos terrenos da Academia. Pode explicar-nos o ponto de situação?

O projeto da Academia do SC Braga ou do Centro de Formação Desportiva, como lhe queiramos chamar, é um projeto que eu próprio, enquanto vereador da oposição, sempre acarinhei, porque era um projeto que eu considero fundamental para a tal sustentabilidade futura. Todas as coletividades têm de ter esse tipo de equipamentos e, na esmagadora maioria dos casos, têm-nos desenvolvido em articulação com os poderes públicos locais. Portanto, eu sempre associei que a Câmara Municipal não devia fazer a Academia do SC Braga, mas devia contribuir para a sua concretização. Em relação ao projeto da Academia discutiu-se sempre a questão da melhor localização: se no Estádio 1º de Maio, na zona envolvente, se em terrenos a adquirir... o próprio Presidente da Câmara anterior chegou a fazer uma consulta pública para eventualmente adquirir terrenos. Surgiu, mais recentemente, a possibilidade de se reaproveitar os terrenos que inicialmente estavam previstos para a instalação de outras valências desportivas -  e convém clarificar esta ideia: os terrenos do Parque Urbano Norte não eram um parque da cidade, não eram uma zona verde de fruição popular, como alguns tentaram apregoar. Eram terrenos onde se iria ainda implantar o pavilhão municipal, equipamentos radicais, um circuito de manutenção e outras valências de natureza desportiva que iriam integrar o chamado Parque Urbano Norte e, portanto, o que nós fizemos foi dizer assim: os terrenos estiveram praticamente ao abandono até aqui e, perante a disponibilidade do SC Braga em recuperar esse mesmo investimento, fazendo ali um equipamento qualificado do ponto de vista desportivo, nós temos a disponibilidade para colaborar com a cedência de terrenos... que nós não poderíamos vender! Muita gente perguntava porque é que nós não vendemos. Nós não podíamos vender terrenos que tinham sido adquiridos para aquele fim específico, portanto, fosse ao SC Braga, fosse a qualquer outra instituição, a Câmara não poderia alienar aqueles terrenos, era aquilo que economicamente nós chamamos um custo afundado. Aquilo que fizemos foi abdicar de fazer um projeto estritamente municipal e entregar ao SC Braga, em modelos diferentes - no caso dos terrenos com modelo de doação, no caso da piscina olímpica com modelo de direito de superfície de longa duração -, um conjunto de ativos que estavam inativos. No caso da piscina é evidente. Aliás, são as ruínas do tempo moderno, onde se aplicaram nove milhões de euros sem qualquer tipo de retorno e estavam ao abandono há quase uma década. Era um equipamento que também não tinha uma conclusão prevista porque, como sabemos, o orçamento original daquelas piscinas eram 25 milhões de euros. Só as piscinas! Nós sabíamos que não poderíamos concluir aquele projeto e, mais uma vez, o SC Braga entendeu que podia ser uma mais-valia. Daí toda a colaboração que se registou em relação a esse processo.

Encaminhamo-nos então para uma das mais importantes questões do seu mandato: a reabilitação urbana. Quais são os projetos em carteira?

Quando se fala da regeneração urbana, eu tenho dito já bastantes vezes que a Câmara Municipal não tem que ser a protagonista desse processo. A Câmara tem, acima de tudo, que criar condições e estímulos para que os investidores privados, os proprietários ou outros investidores promovam essas ações de regeneração. Temos, no fundo, contribuído para que projetos de iniciativa privada ou de outras entidades, no caso por exemplo do Palácio do Raio, da Misericórdia, o Largo do Paço por parte da Universidade do Minho, e outras iniciativas que têm sido desenvolvidas, sejam concretizadas e ajudem neste esforço da reabilitação urbana do centro da cidade. Hoje temos muitos edifícios a serem reabilitados por investidores para habitação, para comércio, para turismo por parte até de investidores estrangeiros que estamos cada vez mais a atrair para a nossa cidade. Nas traseiras da Câmara, por exemplo, está prestes a ser aberto um hostel de um investidor israelita. Depois, a Câmara Municipal tem de cumprir as suas próprias responsabilidades em relação ao seu próprio património e aí há alguns projetos que são emblemáticos e que estão neste momento em curso ou em vias de entrar em execução – o caso do Parque de Exposições de Braga (PEB) é o maior deles todos, em termos de volume financeiro. O mercado municipal tem também aqui um carácter muito emblemático porque está localizado numa zona absolutamente central da cidade e vem complementar a intervenção inicial que foi feita no quartel da GNR. As intervenções que vamos fazer na Pousada da Juventude ou na Escola Francisco Sanches são, obviamente, também elas muito importantes. E, depois, outras dimensões quando se fala na reabilitação urbana, até do ponto de vista do edificado: a intervenção que vamos fazer em Santa Tecla, nas Enguardas, algumas intervenções que temos previstas também para o Bairro das Andorinhas. As intervenções na esfera da mobilidade, que vão marcar muitas das artérias centrais da cidade, com a criação de modos suaves, são também marcos que durante os próximos meses e anos se vão sentir de forma muito visível.

A falta de espaços verdes na cidade foi uma das grandes críticas ao seu mandato. Essa preocupação não é uma das suas prioridades?

É, absolutamente. Aliás, eu considero essa crítica muito injusta por um motivo: quando se fala da disponibilidade de espaços verdes, nós em bom rigor, até hoje, não suprimimos nenhum espaço verde anteriormente existente, do ponto de vista do espaço público. Não podemos controlar os espaços privados.

É aqui chamada a questão da construção de um hipermercado na Rua 25 de Abril. A Câmara Municipal não tem instrumentos para impedir essa construção?

Não. Vamos ser também rigorosos: a Câmara Municipal, tal como se calhar noutros tempos se fazia, poderia tentar criar entraves artificiais, engavetar processos, demorar na tramitação das iniciativas, de maneira a que este ou aquele processo andasse de forma mais ou menos célere. Nós socorremo-nos daquilo que são as normas aplicáveis e escrutinamos os processos de acordo com essas mesmas regras. E, nesse caso concreto, promovido pelas Oficinas de São José, por esta valência ligada à Igreja, é um projeto que cumpre todos os normativos e que, até hoje, eu não ouvi ninguém a questionar do ponto de vista da tramitação legal do processo. De acordo com os pareceres dos nossos técnicos, foi tudo devidamente acautelado e, portanto, contra isso, a Câmara nada poderia fazer, independentemente de poder fazer juízos positivos ou negativos sobre o mérito do projeto, que não lhe compete fazer diretamente.

Uma das grandes obras que já mencionámos e que tem sido fortemente destacada por englobar uma grande fatia do orçamento para reabilitação urbana é o PEB. Qual vai ser o papel deste novo PEB?

O PEB atual, nomeadamente nos anos mais recentes, é uma estrutura muito desajustada do ponto de vista da funcionalidade, muito desconfortável em relação àquilo que são condições básicas, sem condições de sonorização, sem condições de climatização adequadas, sem muita versatilidade do ponto de vista dos usos, pela inexistência de espaços complementares ao grande auditório e à grande nave, sem grande flexibilidade de uso do espaço. É uma estrutura que está deslocada no tempo, não corresponde às exigências que hoje são colocadas a este tipo de equipamentos. Nós julgamos que este novo PEB tem que cumprir, fundamentalmente, três desígnios: o primeiro é de ser um espaço de promoção de iniciativas de cariz económico, sejam elas congressos, sejam elas sessões várias nos respetivos auditórios e nas novas salas complementares. Portanto, teremos uma flexibilidade que o atual PEB não tem.

A segunda dimensão é a dimensão desportiva. O próprio PEB tem sido palco ocasional de algumas iniciativas, mas a verdade é que era também um espaço que não estava muito qualificado nesse sentido. Portanto, também queremos, e tendo nós Braga como Cidade Europeia do Desporto no próximo ano, que o PEB acolha iniciativas de grande monta, nacional e internacional.

E, finalmente, mais numa lógica de serviço à população de Braga, nós queremos que aquele seja um espaço cultural que permita uma programação que Braga também não tem. Nós, se quisermos organizar um concerto para cinco ou dez mil pessoas, não temos hoje nenhum espaço coberto em que o possamos fazer. Com a requalificação do PEB, nós podemos ter até 15 mil pessoas no interior ou até 30 mil pessoas no exterior a assistirem a um concerto, com uma programação que, obviamente, será muito mais ambiciosa do que aquela que podemos ter hoje ou que podemos realizar no Theatro Circo.

Mas Braga não poderia de certa forma utilizar os serviços do Quadrilátero?

Eu acho que há recursos que podem ser partilhados, mas obviamente que não faz sentido organizarmos um concerto em Guimarães quando temos massa crítica em Braga, e muito significativa, para aqui podermos realizar iniciativas dessa projeção. Nessa matéria, acho que Braga deve ter a sua programação própria.

Foi consensual a aplicação deste orçamento no PEB?

Do ponto de vista da maioria do Executivo, foi considerado prioritário. A verba que está reservada no PEDU (Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano) para a reabilitação urbana será esgotada entre o projeto do PEB e o projeto do Mercado Municipal. São oito milhões para o PEB e cinco milhões para o mercado municipal.

Para si, o centro da cidade de Braga é hoje mais vivo do que era anteriormente?

Acho que para qualquer pessoa que por cá passa (risos) É notório!

Eventos como a Noite Branca ou até o próprio Rally de Portugal, através do Braga Street Stage, que passará no centro, são eventos de dois ou três dias que canalizam um grande orçamento. Existe uma análise custo/benefício bem estruturada?

Tanto quanto possível, obviamente. Já agora, a propósito da transparência, o custo dos nossos eventos é publicitado, são apresentados relatórios públicos do respetivo custo. Do ponto de vista do benefício, nós temos dados que nos são transmitidos pela hotelaria, pelos comerciantes, mas não são rigorosas ao ponto de nós podermos dizer “a faturação foi x”. Mas todos os estudos que têm sido feitos, até por universidades, em termos de retorno de eventos desta natureza, têm demonstrado que o benefício é claramente superior ao custo. No caso do Rally, nós sabemos que numa casa já houve quem vendesse as varandas a um grupo de espanhóis por alguns milhares de euros. Portanto, estamos a falar obviamente de toda uma dinâmica que existe, que nem sequer tem a ver diretamente com os benefícios que a própria iniciativa gera para o município. No caso da Noite Branca, nós sabemos que temos a cidade completamente lotada durante aqueles três dias.

Mas este orçamento da Noite Branca, por exemplo, não daria para custear a programação do Theatro Circo?

Não, não é verdade. A programação do Theatro Circo custa um milhão de euros por ano. A Noite Branca custa-nos sensivelmente 350 mil euros de investimento, mas que não tem um custo direto para a Câmara porque também tem uma contrapartida direta de patrocínios na ordem dos 100/150 mil euros. Portanto, estamos a falar de um investimento de 200 mil euros, de grosso modo, que seguramente traz pessoas a Braga. E, depois, há outra dimensão importante: alguns destes eventos, o benefício que aportam para a cidade, vão muito para lá daquilo que é a permanência das pessoas naqueles dias. Vejamos este exemplo: o Rally vai ser um dia, mas o benefício para a cidade em termos de projeção de marca – e não foi por acaso que nós quisemos que ele passasse no coração da cidade, nos principais focos patrimoniais - vai ser uma mais-valia enormíssima, que vai ter um retorno duradouro durante anos.

Muitas vozes se levantavam contra a falta de dinamização e atividade no centro da cidade, mas grande parte dessas vozes dizem hoje que há dinamismo a mais, trazendo complicações a nível de trânsito e ruído. Como homem, como lida com estes contantes apontar de dedo?

Eu acho que quem não estiver preparado para ser confrontado com as queixas ou com as reclamações das pessoas não pode exercer este cargo. Eu acho que nós devemos envolver as pessoas, mas nunca pensar que vamos promover a unanimidade, porque no dia em que isso acontecer a democracia morreu. É natural que haja pessoas com opiniões diferentes. Há pessoas que têm opiniões mutáveis ao longo do tempo, que hoje dizem o contrário do que disseram no passado, mas isso faz parte do carácter do homem e da mulher e isso é algo para que um Presidente da Câmara tem que estar preparado. Aquilo que temos de saber fazer é o filtro, no sentido de perceber o que é legítimo, o que é pertinente e, naquelas questões em que obviamente assiste razão às pessoas, nós tentamos acorrer. Isso acontece-me diariamente. Muitas vezes, a Câmara Municipal é criticada, é invocada em relação a determinadas questões e, em algumas delas, nós temos consciência de que há coisas por fazer, há coisas que têm de ser melhoradas. Aliás, eu até dou este exemplo: tem sido muito criticada a componente urbanística na Câmara Municipal, mas tem sido criticada numa lógica, nomeadamente pelos discursos políticos de alguns cidadãos mais participativos, porque facilitou demais a concretização de determinados projetos. Ora, não deixa de ser curioso que eu, enquanto Presidente da Câmara, e os meus colegas, tenhamos consciência que o maior problema do urbanismo da cidade de Braga é a incapacidade de responder celeremente e eficazmente a muitos outros pedidos que existem em tramitação dentro dos serviços municipais. O nosso grande desafio não é criar objeções aos projetos que estão a ser concretizados, é facilitar ainda mais os projetos que estão a ter dificuldades para ser viabilizados por incapacidade de os serviços responderem ao volume de solicitações que têm. E isto é demonstrativo disso mesmo, ou seja, eu tenho perfeita consciência, pegando nesse caso, que tem de ser feita uma intervenção no Nó de Infias, mas é uma situação que também não é por descuido da Câmara que isso não aconteceu e, também, não é uma situação deste mandato.

Agora, às vezes, há situações em que não há legitimidade, em que a crítica é feita pela crítica, apenas pelo contraditório e, aí, temos de saber viver com isso em democracia.

A verdade é que quer uma Braga cosmopolita, uma Braga empreendedora, correto?

Sim, a Braga de hoje é uma Braga rejuvenescida, é uma Braga muito dinâmica, muito reconhecida dentro e fora de portas. É uma Braga que está nos principais palcos a intervir, de par em par, com cidades como Paris, como Milão, como Roma, como Barcelona. Uma Braga com projetos de investimento que fazem o desemprego descer quase 1/3 em três anos, que nos põe como um dos principais concelhos exportadores do Norte, com uma dinâmica cultural reconhecida, com políticas sociais do mais inovador que existe a nível nacional. Em todas as frentes, está, na minha ótica, muito melhor do que estava no passado.

Sente que Braga cresceu consigo?

Cresceu e tem, seguramente, margem para crescer bastante mais no futuro.

Acha que tem a confiança dos bracarenses?

Eu acho que sim.

Tanto dos habitantes da cidade como das freguesias?

Sim, não costumo distinguir, de todo. Aliás, havia no passado um pouco esse estigma, enquanto eu era candidato da oposição, que nós ganhávamos na cidade, mas perdíamos nas freguesias. Eu quando fui eleito, em termos de resultados, só houve uma freguesia onde não venci as eleições, mas independentemente disso, acho que acima de tudo temos procurado desenvolver um trabalho que não distingue zonas da cidade, não distingue franjas da população, que é dirigido a todos de uma forma absolutamente plural e que tenta sobretudo perceber – e acho que esse tem de ser sempre o cerne da nossa atuação – de que maneira a Câmara pode ajudar este cidadão, esta freguesia, esta instituição. Se assim conseguirmos fazer, estaremos a cumprir o nosso trabalho.

Existem alguns rumores que falam em descontentamento, por parte dos funcionários, dentro das paredes da Câmara. Quer contrariar esses rumores?

Eu tenho o pelouro dos Recursos Humanos e, genericamente, tenho procurado manter contacto regular, quer com os colaboradores de todas as áreas, quer com as diversas chefias, e não tenho sintomas de contestação dessa natureza. Tenho, obviamente, aquilo que é o reconhecimento de uma decisão que nós tomámos num determinado momento, que não foi do agrado de todos, em termos de imposição de um regime horário, que, entretanto, a lei inverteu e nós aplicamos a lei, pura e simplesmente.

Em termos de promessas eleitorais, é natural que haja situações mais difíceis de cumprir. O que é que lhe falta cumprir?

Há fundamentalmente duas questões que não foram cumpridas: o caso do Parque das Sete Fontes e a criação de um museu da cidade. Originalmente, nós tínhamos apontado o museu da cidade para a Fábrica Confiança, que também já foi assumido que não havia recursos para financiamento de uma intervenção nesse mesmo espaço e, portanto, estamos a repensar o projeto. O caso das Sete Fontes é um processo mais intrincado, que vai demorar mais tempo, mas que obviamente estamos a dar passos para o concretizar. Manter-se-ão seguramente dentro da linha central de prioridades do município.

Como é que o homem Ricardo Rio vê o legado do político Ricardo Rio neste mandato?

Eu julgo que hoje os legados dos presidentes de Câmara têm que ser vistos numa perspetiva mais física para o futuro. Eu acho que se morasse em muitas das urbanizações em que, por exemplo, nós instalámos as drenagens de águas pluviais, que não existiam há décadas e que deixaram de permitir inundações em garagens, agradeceria muito porque essa intervenção mudou a minha qualidade de vida. Mas acho que o principal legado que esta Câmara tem neste momento é este novo estilo de governação, esta proximidade que se tem com as pessoas, esta capacidade de responder aos seus anseios. Dentro deste legado, aquilo que Braga ganhou com a atual gestão municipal foi uma dinamização, uma projeção nacional e internacional e uma credibilização da cidade, que eu acho que é motivo de orgulho para todos. Porque isto não é uma medalha para o Presidente da Câmara ou para os vereadores, é uma mais-valia para todos os bracarenses enquanto comunidade. Quando temos investidores internacionais a querer cá investir, quando temos cada vez mais turistas, quando temos a cidade de Braga a ser usada como referência nesta e naquela área... isso é bom para todos. É sinal que estamos a fazer as coisas bem-feitas.

Porque é que os bracarenses devem votar Ricardo Rio?

Porque ainda há muito mais para fazer, há muito mais para ganhar do que aquilo que já se ganhou até hoje e aquele que foi capaz de fazer, com a sua equipa, aquilo que foi feito nestes quatro anos, seguramente que fará muito mais e muito melhor nos quatro que se seguem.

 


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