Revista Rua

Apreciar. Música

Os Quatro e Meia

“Temos feito música à nossa maneira, mais em força do que em jeito”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

João, Mário, Pedro, Ricardo, Rui e Tiago são Os Quatro e Meia, uma banda portuguesa nascida no contexto universitário de Coimbra. Com um gosto incontornável pela música portuguesa, estes jovens sobem ao palco do Theatro Circo no dia 20 de janeiro (sábado), às 21h30.

Fotografia: Paulo Bico

Em primeiro lugar, propomos uma viagem ao início deste projeto. Qual foi o vosso objetivo inicial?

Honestamente, quando criámos este projeto não tínhamos mais expectativas do que um único concerto. Juntámo-nos num Sarau que pretendia reunir fundos para ajudar a Academia de Dança Norton de Matos, da qual fazia parte a irmã do Tiago (um dos vocalistas). O Tiago lançou-nos o desafio, ensaiámos sete músicas com as quais nos identificávamos na véspera, jantámos todos juntos e fomos tocar. No final, as pessoas gostaram e apareceram dois convites. Decidimos continuar!

 

O contexto académico abriu os vossos horizontes musicais de alguma forma? O envolvimento com as tunas fez-vos, de alguma maneira, olhar para a música portuguesa de outra maneira?

O contexto académico próprio de Coimbra permitiu que nos conhecêssemos. Já todos tocávamos antes de entrar para a Faculdade: uns ligados ao rock, outros à música clássica. Alguns de nós fizeram parte de grupos académicos que são, cada vez mais, veículos importantes da música portuguesa que ajudam a preservar um património musical que já pouco se vai ouvindo.

 

Sabemos que há uma história por detrás do nome Os Quatro e Meia. Querem contar-nos o motivo para terem escolhido este nome?

Como falava na primeira pergunta, juntámo-nos para uma única atuação. Como tal, nem tínhamos sequer pensado num nome. Antes de entrarmos para palco, perguntaram-nos como é que queríamos ser apresentados. Fez-se um silêncio, olhámos uns para os outros, de alto a baixo. Estávamos cinco amigos, sendo que um deles, o Rui, a quem apelidamos carinhosamente de Meia, é substancialmente mais baixinho do que nós. Então alguém se lembrou que naquela noite podíamos ser Os Quatro e Meia. Passados dois concertos já tinha entrado o Pedro Figueiredo para o grupo, mas como ele também não é muito alto e, além disso, toca sentado, acabámos por manter o nome. Pode-se dizer que coerência não é o nosso forte.

 

Em 2013, o mote d’Os Quatro e Meia era dar à música portuguesa uma nova roupagem. Como tem sido este percurso?

Tem sido bastante estimulante. Temos feito música à nossa maneira, mais em força do que em jeito. Costumamos dizer que é uma música mais de biqueira de aço do que de sapato de vela. E temos sentido que há muita gente a identificar-se com a nossa sonoridade, as nossas letras, os nossos ritmos. É muito gratificante sentir essa presença constante de quem aprecia os nossos temas e nos estimula a produzir mais e melhor.

 

De momento, como podemos descrever a banda? Quem são Os Quatro e Meia?

Os Quatro e Meia são seis jovens que têm um gosto incontornável por música, numa perspetiva muito variada e com muitas influências diferentes. Continuamos a crescer enquanto projeto musical que é, logicamente, imperfeito e sujeito aos gostos dos seis elementos, que são muito diferentes e trazem visões distintas que se vão complementando. Temos procurado, sobretudo, produzir temas originais, mas continuamos a gostar de interpretar músicas de outros autores que admiramos muito.

 

Em termos musicais, como apresentam ao público que nos lê o vosso trabalho atual?

Estamos em constante mutação. Maioritariamente mantemos um registo acústico, embora, pontualmente, comecemos a explorar outras sonoridades. Os temas e letras também vão sendo sempre diferentes e continuamos a experimentar muitas formas de fazer as mesmas músicas, porque, no fundo, não nos queremos esgotar num género. Temos, obviamente, a nossa própria sonoridade que nos é característica. Há tempos alguém definia como pop acústico, se é que tal registo existe.

 

Conseguem destacar as vossas principais influências musicais? Quem é que vos inspira?

Torna-se complicado sermos objetivos nesta questão, porque cada um tem as suas próprias influências, que herdou das suas origens e do que ouvia em criança e na adolescência. Um adora música clássica, outro rock, há quem goste de country, bossa nova, samba, enfim, de tudo um pouco. Gostamos de música de uma forma global e a vida inspira-nos naturalmente.

 

Apresentem-nos o álbum Pontos nos Is. Qual foi o vosso ponto de partida neste álbum? E já conseguem analisar o feedback do público? Tem sido uma reação positiva a vosso ver?

O Pontos nos Is nasceu da ideia de fazer um primeiro álbum de apenas temas originais, que espelhasse o que os primeiros quatro anos de Quatro e Meia foram. E, bem vistas as coisas, foram um período de muitos testes e de busca da nossa identidade, pelo que o álbum é bastante heterogéneo. A reação foi ótima, muito além do que esperávamos. Entrámos diretamente para o primeiro lugar do top nacional de vendas, na semana de lançamento e, apesar de, obviamente, todos os nossos familiares e amigos já terem comprado o disco, parece que há mais pessoas que continuam a fazê-lo e que nos transmitem críticas muito positivas ao álbum!

 

Tendo em conta que todos têm profissões diferentes, como tem sido o vosso tempo de criação? Já contam com várias letras originais, mas como é o vosso processo criativo considerando as agendas tão diferentes?

O processo criativo é bastante natural. Surge de algo repentino que um de nós encontre e procuramos não deixar fugir as ideias que aparecem. Claro que, para depois explorar as ideias, é preciso conseguirmos algum tempo. O álbum foi todo gravado de noite, por exemplo. É inevitável termos de fazer esse tipo de esforço.

 

Cantar na língua materna é aquilo que, para vocês, faz sentido como banda? Como analisam o panorama da música portuguesa atualmente?

Para nós tem feito todo o sentido assim. Foi em português que começámos a cantar e é essa a forma como nos expressamos melhor. A música portuguesa tem sido, felizmente, mais valorizada, nos últimos anos. É um fenómeno que se tem notado cada vez mais e que, provavelmente, ganhou ainda mais força com a prestação do Salvador Sobral no Festival da Eurovisão. Mas a música portuguesa não se esgota nisso e muito menos no mainstream. Há muita música boa em cada canto de Portugal. É só procurar.

 

Vão apresentar-se ao vivo no Theatro Circo, em Braga. O que podemos esperar deste concerto?

O Theatro Circo é uma sala muito especial e de uma beleza incomparável. Desde há muito tempo que comentávamos entre nós a enorme vontade de nos apresentarmos lá. O espetáculo vai basear-se nas músicas do primeiro álbum, mas terá mais músicas novas, ainda desconhecidas do nosso público. Será certamente muito bom para nós, porque o público do Minho é sempre muito entusiástico e terá, ainda, um sentimento mais especial para o Ricardo, que nasceu e cresceu em Braga. 

 

Aguardam por um 2018 de crescimento para Os Quatro e Meia? Que perspetivas e objetivos têm para este novo ano?

Será mais um ano de crescimento, claro. Estamos a construir e a procurar mais música da nossa própria autoria. O único objetivo que temos é o de continuar a desfrutar de cada momento em que nos juntamos para tocarmos e cantarmos juntos. São momentos de partilha entre nós e o público e temos aproveitado cada ocasião. Estamos muito gratos pelo que já conseguimos. Esperamos ver-vos por aí, num teatro, num coliseu ou num concerto ao ar livre!


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