Revista Rua

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PZ: “No final de contas, somos humanos e temos sempre de vencer as máquinas”

O músico PZ esteve no Theatro Circo.

Sara Lopes

Texto: Sara Lopes |

Há quem pense que ele é do Porto, mas, na verdade, nasceu em Famalicão. Paulo Zé Pimenta, o PZ, voltou ao Theatro Circo, desta vez para apresentar o novo álbum Império Auto-Mano.

Um, dois, três, quatro. Começou PZ a fazer contagem, com a banda pijama, para dar início a mais um concerto. Houve “Fome de Lulas”, “Zona Zombie”, “Croquetes”, “Cara de Chewbacca”, “Olá” e muito mais. É verdade que não houve dólares a voar pelo salão principal do Theatro Circo, mas sim pzs e gelados grátis para todos no fim do espetáculo. Depois de dar autógrafos a portugueses e estrangeiros, a caminho do camarim, PZ falou com a RUA, de copo de whiskey na mão.

Olá. Tudo bem, tudo fixe? O que é que tens de atender, fazer e acabar?

Olá. Tudo bem, tudo fixe (risos). Muitas coisas, por acaso: acabar as músicas ou os beats que estou a fazer, tratar dos meus filhos, estar com a minha mulher... Nesta vida das novas tecnologias, estamos sempre a fazer alguma coisa e alguém quer sempre alguma coisa de nós. Obviamente que a “Olá” é uma sátira aos tempos em que vivemos, em que parece que temos pouco tempo para tudo. Nós próprios estamos a modificar e a arranjar tempo para tudo e mais alguma coisa. Daí o tema desta música. Arranjar um espaço para as relações pessoais e deixar que o mundo exterior também fique um bocado lá fora e não nos apoquente a toda a hora.

Como foi voltar ao Theatro Circo, agora em versão "mano"?

Em versão mano? (risos) Foi espetacular! Excedeu as minhas expectativas. Era um fim de semana de agosto, com Vodafone Paredes de Coura, e tenho de confessar que estava com algum medo que viesse pouca gente. Mas acho que veio muita gente. Foi muito bom ter uma boa receção do público. Nunca tinha tido uma standing ovation. Não é normal eu tocar para uma plateia sentada, mas mesmo assim acho que dá uma experiência diferente do concerto. Talvez por estarem mais atentas e relaxadas a ouvirem o que eu e a banda pijama temos para dizer e tocar. Gostei muito. A Noite Branca, há dois anos, foi no salão nobre. Aqui são outras condições. E esta sala, para mim, e não digo isto apenas por ter tocado aqui, é a sala mais bonita em que toquei até hoje em Portugal.

A viagem do Mensagens da Nave-Mãe já acabou ou continuou e evoluiu para um novo império?

É isso! Primeiro, estava a receber mensagens da nave-mãe e essas mensagens disseram-me para criar um Império Auto-Mano (risos). Este álbum é mais uma sátira aos tempos modernos em que vivemos. O automático. O mano. Estamos cada vez mais a voltar àquela ideia de mano, de irmão e começa-se a usar expressões mais urbanas e fora do normal. Contudo, também é um título que deixo em aberto para a interpretação de cada um.

Falando no título do álbum, tal como disseste, remete para o automático e para a impotência de vivermos ligados às máquinas, dependentes delas. Mas tu fazes a tua música, a tua intervenção, com máquinas. Não acaba por haver logo aí um enorme paradoxo?

É, exatamente. Vivemos em tempos paradoxais. Enquanto dizemos mal de uma coisa, também estamos a usufruir dela, ao mesmo tempo. Na tecnologia tem de ter algum cuidado. Não exagerar. É um lago onde muita gente critica só por criticar, onde muita gente se intromete connosco, só por intrometer. Tem um lado bom, para nós músicos, e para mim que sempre gostei de sintetizadores e máquinas, que é fazer música sozinho. Só através do desenvolvimento da tecnologia é que eu consigo fazer o que faço com PZ. Eu vivo, e acho que vivemos todos, neste paradoxo. Há momentos bons, e coisas boas da tecnologia, da evolução e da modernidade, e há coisas menos boas. Há que saber lidar com isso e, às vezes, também não estar sempre a pensar nisso. Nos meus temas, falo de coisas que não têm nada a ver com tecnologia, como a “Fome de Lulas”. Só temos uma vida e mais vale vivê-la tão intensamente quanto pudermos e não deixarmos que a tecnologia nos faça quase autómatos e escravos de uma certa sociedade tecnológica. Gosto de brincar com estas coisas todas e de me divertir com o que a tecnologia tem para oferecer, mas também não fico demasiado mergulhado e preso a essa tecnologia. No final de contas, somos humanos e temos sempre de vencer as máquinas.

E são as máquinas o que nós precisamos de contra-atacar nas hordas globalizadas pelo sistema vigente?

Essa é uma frase muito profunda, mas sim. Isso é a press release do Império Auto-mano. Sou eu que os escrevo. Saiu-me assim. Podia sair de outra maneira. O mais importante de um disco é que as pessoas os ouçam e que tirem a sua própria interpretação.

Consideras o que tu fazes dentro da esfera do humor, ou deixas essa escolha para o público?

Deixo isso totalmente em aberto. Mesmo eu acho que há músicas em que me rio mais ao fazê-las. Outras que são temas mais sérios. E lá está, ouvindo o disco e os temas, há músicas que são mais humorísticas, outras nem tanto. Outras, se calhar, até têm mais humor nas partes instrumentais. Tento criar essas sensações nos próprios sons eletrónicos, mas deixo a cada pessoa. É música.

As tuas inspirações têm vindo a mudar ao longo dos álbuns ou a base acaba por ser a mesma, mas a tua mente divaga para outros sons e problemáticas?

É um bocado essa última que disseste. Não diria melhor.

Porque é que é tão importante utilizar expressões de família e calão na tua música?

Não é uma questão de ser importante. Com o PZ quero ser o mais sincero possível e cantar como se estivesse a falar. É assim que me faz sentido escrever em português. Não me vou estar a censurar para não usar calão. Aliás, faz parte da nossa própria cultura e da nossa própria personalidade como cultura portuguesa e do Norte. Até porque eu venho do Norte e não sinto que tenho sotaque. Há pessoal de Lisboa que diz que tenho, mas eu não sinto. É a minha maneira de falar. Tento ser fiel a mim próprio. Crio uma personagem meio realista, meio sonhadora e a música é apenas a minha maneira de extravasar e de fugir aos compartimentos sociais e aos comportamentos que as pessoas esperam ter quando vivem em sociedade e em comunidade.

Ainda há pouco estavas a falar sobre o público sentado em comparação a um público em pé... A tua música é mais feita para um público em pé, para dançar ao som das batidas minimalistas, ou como aqui, para um público sentado, que se pode concentrar nas tuas letras?

Depende muito do contexto. Aqui, numa sala como o Theatro Circo, fazia todo o sentido ter o público sentado. Estamos mais focados na música, a tocar e a dar o melhor concerto possível. Sentimos na mesma a adrenalina, mas é diferente. De pé, a adrenalina leva para concertos diferentes. É bom não ser sempre o mesmo tipo de concertos. Para a minha música, pelas batidas, faz sentido um concerto em pé, mas é interessante momentos como este que tivemos aqui. Mesmo eu próprio não sei se prefiro ver concertos de pé ou sentado. Depende sempre da música.

Voltando a falar nas tuas letras, fui vendo em entrevistas que dizes que diferentes pessoas interpretam as letras de diferentes maneiras. Dependendo do background. Divertes-te a ver esse significado que as pessoas dão e que pode ser ou não diferente do teu?

Sim. Com o “Croquetes”, por exemplo, que é das minhas músicas mais conhecidas - eu tenho noção que é essa e a “Cara de Chewbacca” - houve muitas pessoas com ideias diferentes. Uns diziam que era sobre droga, fumar um grande “croquete”, outras disseram que eu estava a dizer que era homossexual porque duas batatas e um croquete... Bem, não sei. Já tive várias interpretações muito engraçadas. Gosto dessa ambiguidade nas letras, mas a música é mesmo só sobre croquetes. É tão absurdo que dá para cada pessoa ter a sua interpretação, dependendo do momento.

Então, pegando por exemplo nas músicas do Quim Barreiros, que sempre foram vistas com dois sentidos, as tuas músicas não são assim, com dois sentidos? É mesmo só "croquetes" e "fome de lulas"?

Sim, não tem duplo significado. Há pessoas que gostam de ver esse duplo significado, mas aqui não tem. Cheguei ao momento do refrão da “Fome de Lulas” e só me saía "fome de lulas/ eu tenho fome de lulas". Tentei fazer coisas diferentes, mas não saiu. De facto, tinha fome de lulas e depois para o resto da letra inspirei-me na receita de lulas da minha avó. "Servidas na travessa/molhadas pelo próprio molho delas/ por cima das torradas". A receita de lulas da minha avó e da minha mãe - é uma receita que passa de geração em geração - levava sempre as torradas molhadas. Então, não há duplo significado das letras. É um bocado aquilo que estou a pensar. Acho que com “Fome de Lulas” não há muita hipótese de haver um duplo significado. De “Croquetes” também achei um bocado estranho, mas há pessoas que se calhar pensam que é impossível ser só sobre croquetes. É toda aquela junção da simplicidade da letra e do absurdo. Ao mesmo tempo, sempre gostei da sonoridade da palavra croquete. E adoro croquetes. Foi um bocado como a “Fome de Lulas”. Escrevi o refrão e cantei os versos à volta das situações em que eu como croquetes.

E é importante rirmo-nos de nós próprios?

Sempre! Não vale a pena vivermos muito sérios. Há que rir de nós próprios. Não somos perfeitos, nunca vamos ser. A partir do momento que temos essa consciência vamos ser seres mais livres.

Tens músicas onde falas de consumismo, isolamento, vício nas redes sociais. Os temas que retratas nas tuas músicas são experiências que estão presentes no teu quotidiano? São uma crítica à sociedade e a ti próprio?

Sim. A “Olá”, por exemplo, surgiu porque, muitas vezes, eu estava a fazer alguma coisa no computador e o meu pai vinha ter comigo e dizia “anda aqui fazer isto” e a minha resposta era “espera aí! Tenho que acabar isto, tenho de fazer isto”. Era uma coisa que eu estava sempre a dizer. É uma crítica a mim próprio. Mas mais vale rir, porque é inevitável. Não temos sempre tempo para toda a gente. Há que tentar ser menos egoísta e viver mais para fora e não tanto para dentro.

Já resultou? Essa crítica pessoal já te fez mudar algum comportamento?

Acho que sim. É difícil de analisar. Uma pessoa vai evoluindo, mas não muda de um dia para o outro, não é? Estou uma pessoa mais madura. Depois de ter tido os meus filhos, vivo em paz comigo mesmo. E a música é outro mundo. É engraçado porque os meus filhos também cantam e sabem as minhas músicas, mesmo, às vezes, eu não querendo que isso aconteça. A minha filha tem três anos e no infantário ela pede para pôr a “Caga Nela” (risos). São situações um bocado complicadas, mas são cómicas. Não é para levar a sério. São paródias e críticas. É engraçado ver que, não só os meus filhos, mas também outras crianças, e ainda no concerto vi algumas crianças no público, gostam da música pela sua simplicidade ou pelos videoclips.

Porquê um pijama e não um fato de treino?

Porque eu, em casa, ando de pijama e não de fato de treino. Agora, a partir do momento em que tive filhos, tornou-se mais difícil porque tenho de dar o exemplo, mas sempre que posso estou de pijama. E o pijama não precisa ser necessariamente o “pijama”. Pode ser uns boxers e uma t-shirt e ‘tá tudo. Gosto dessa preguiça. A maneira como faço a música do PZ é dentro desta preguiça, das dúvidas, dos problemas e gosto de me deitar nesses problemas e estar a borrifar-me para o resto do mundo, estando de pijama. É mais um anti fashion statement, reflete a minha maneira de fazer música em PZ. Deixar-me ir na preguiça de fazer música. Muitas vezes, surge-me assim. Estou a ir ao frigorífico ou a ver televisão. Estou aterrado no sofá ou a acabar de acordar e lembro-me de letras. Às vezes, vou dormir e tenho uma ideia. Antes escrevia. Hoje em dia, dito para o telemóvel. Torna as coisas muito mais simples, mas ao mesmo tempo já tenho mais 200 músicas e ideias. O pijama simplesmente assentou bem. Também por causa do videoclip que fiz, para aí às 3h da manhã, “O que me vale és tu”, onde surgi de pijama e ficou. Depois o Alexandre Azinheiro, no vídeo da “Croquetes”, também me quis pôr de pijama e fez todo o sentido.

Ainda tens muitos projetos além do PZ? Como é que consegues ter tantos projetos, quer a solo ou em grupo, e ainda conciliar com a família?

Ainda tenho. O Paco Hunter é um projeto que eu fiz com o meu irmão em 2008. Acabou, apesar de ele ter ideias para um segundo álbum, mas nunca surgiu, mais por falta de disponibilidade dele. A Zany Dislexic Band, que também tinha como o meu irmão, e mais dois amigos, que acabamos por formar a Meifumado, com o João Roquete, era uma banda em que nós improvisávamos do princípio ao fim. Todos os fins-de-semana, íamos para o estúdio do meu irmão e improvisávamos. Também acabou e cada um foi para o seu lado. Entretanto, tenho outros projetos, como o que tenho com o João Salcedo, um grande amigo meu desde infância, que estou a fazer e, se calhar, vou lançar para o ano. Uma coisa ligeiramente diferente de PZ. Nem vou chamar PZ, aliás. Depois tenho os beats que não precisam de letra, mas que para já estão na gaveta. Gostava de lançar um disco apenas de instrumentais, de mim a brincar com uns sintetizadores. Também tenho PZ em inglês e digo sempre que o PZ português não gosta muito. Perde um bocadinho a essência, mas são músicas que eu gostava de pôr cá fora. Só que agora não é o momento. O momento é o Império Auto-mano. Para o ano vai haver novidades, de uma maneira ou de outra.

Tendo em conta que tens a visão da Meifumado, como caracterizas a música independente e o trabalho de uma produtora independente em Portugal?

Hoje em dia ouves uma rádio e a maior parte das músicas são feitas pelos próprios músicos ou por editoras pequenas, independentes, que não são suportadas por grandes majors. Claro que as grandes editoras ainda têm um papel importante e têm outra força, mas por outro lado, a editora independente tem uma liberdade maior. Tem a possibilidade de dar a conhecer ao público coisas mais alternativas e maneiras de estar diferentes na música. Sempre gostei de ouvir música assim. Um bocado para inovar e não para repetir a mesma fórmula. Hoje em dia, há muitas editoras portuguesas a fazer isso. As pessoas não têm noção, mas se calhar a maior parte da música que ouvem são projetos independentes, que talvez mais tarde, quando já estão reconhecidos, passem para uma estrutura maior. Atualmente, até há muitas bandas que nem têm editora. São eles próprios com a internet, com o Spotify. Nós gostamos, na Meifumado, de dar apoio a bandas que sentimos que precisam de uma certa estrutura, ou porque não têm tempo ou não vivem só da música. Gostamos de dar essa oportunidade aos artistas, não só do Porto, como de Lisboa. Temos o exemplo dos Corona, Keso, Mind the Gap e Peão. Vamos também lançar o disco de Orelha Negra, porque sempre nos demos bem com as pessoas envolvidas nesses projetos. Muito através do meu irmão que já trabalhou, misturou e masterizou os trabalhos de Mind the Gap e também de Capicua. Ela nunca editou por nós. Vamos ver, era fixe. Sempre houve este contacto com as bandas do Porto, quer através do meu irmão quer através do contacto das bandas entre si. Na verdade, com os Corona começou por causa da colaboração que eu fiz com o dB para a “Cara de Chewbacca” e para a “Tu és a minha gaja”. Entretanto, conheci o Edgar, que é outro elemento de Corona, e fizemos uma coisa conjunta para um projeto que ele tinha. É uma comunidade de amigos. No que eu puder, gosto de ajudar e apoiar as bandas novas que estão a aparecer. É bom para sair um bocado de mim próprio e pensar noutras coisas.

E no que toca ao PZ continuas a referir fazer tudo sozinho?

Sim. Em relação a isso, acho que vai continuar a ser sempre assim.

Já escolheste, por entre todos os projetos que tens em mente, qual vai ser o teu próximo trabalho?

Sim, mas vou deixar um bocado em aberto.

Para terminar, afinal que é o mal dos pastéis de bacalhau?

Nenhum. Aliás, tenho uma confissão a fazer: eu adoro bacalhau! (risos)


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