Revista Rua

Saber. Entrevista

Pedro Silva: “É necessário criar um mercado de golfe no Minho”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

É em Ponte de Lima que encontramos Pedro Silva, um homem que, desde sempre, esteve ligado ao desporto que recentemente, após um hiato de cem anos, regressou aos Jogos Olímpicos: o golfe. Preparado para nos mostrar um campo de golfe que conhece como ninguém, o Axis Golfe Ponte de Lima, Pedro falou-nos dos seus projetos no âmbito da divulgação da modalidade e na promoção de uma nova região turística de golfe no Norte de Portugal. Já pensou no nosso Minho como um destino para a prática de golfe? A possibilidade pode estar para breve. 

Consultor em vários projetos de golfe, cofundador e Presidente da Associação Portuguesa de SNAG GOLF, Pedro foi sócio fundador do Clube de Golfe de Braga, sócio fundador da PGA de Portugal (Profissionais de Golfe Associados de Portugal), fundador do Iberian Golf Tour, sócio fundador e gerente da Academia Butch Harmon Golf School (treinador de Tiger Woods) em Vilamoura e esteve ligado à criação de várias revistas da modalidade. Depois de tantos projetos desenvolvidos na zona sul do país, principalmente no Algarve, que projetos tem em mente levar a cabo no Norte?

Em primeiro lugar, penso que é necessário fazermos uma contextualização: o golfe é o produto turístico que traz mais pessoas ao nosso país, pessoas que vêm por mais tempo e que gastam mais dinheiro. Por norma, um turista de golfe fica no destino uma semana, procura um local com vários campos nas proximidades para poder jogar sem cair numa rotina. Na região Norte, há alguns campos de golfe, mas que não atraem este cliente, que acabará por ficar na cidade, em média, apenas um dia e meio. Então, é necessário criar um mercado de golfe, com no mínimo cinco campos a meia hora de distância uns dos outros. Tendo em conta que, só na Europa, existem cerca de cinco milhões de jogadores de golfe, imagine-se a potencialidade turística que um projeto no Minho e Norte poderia ter. Esta é a aposta para a criação de uma região golfe. Região que nós neste momento não temos.

 

O que é necessário para sermos então uma região golfe?

Tem de existir uma estratégia política, porque são as entidades públicas que emitem as licenças para a construção de campos de golfe em determinados sítios. No Minho, temos pessoas que gostariam de jogar golfe, temos localizações privilegiadas, temos investidores e só temos o campo de Ponte de Lima. Segundo estudos, um campo de golfe na Europa serve 150 mil pessoas por ano. Neste momento, temos o projeto idealizado e apenas nos faltam licenças para avançar.

Em termos práticos, o que está a ser feito neste momento?

O primeiro passo para conseguirmos criar aqui uma região golfe e construirmos campos é fazermos estudos de localização. Uma das componentes mais importantes nesse estudo é perceber o número de pessoas que está à volta desse campo a ser construído, porque não queremos construir um campo no meio do nada e não termos jogadores. Temos de tentar estruturar os campos junto aos centros urbanos e junto aos eixos diários que fazem ligações internacionais. O Minho tem nuances naturais para fazer excelentes e belíssimos campos de golfe – e, atenção, quando falo em campo de golfe refiro-me a um campo com 18 buracos.

Depois, temos de perceber a viabilidade híbrida do terreno. Sem água não há relva. É importante referir que hoje a maioria dos campos são geridos de uma forma sustentada. Existe na Europa um comité que dá as indicações sobre os produtos que podemos utilizar nos campos, de forma a que sejam bio sustentáveis. Essa é uma componente muito importante que entrou no mundo do golfe. Temos que pensar no golfe como amigo do ambiente e amigo das pessoas.

De momento, temos já elaborados estudos de localização para campos de golfe em cidades como Guimarães, Famalicão e Barcelos. Também idealizamos dois projetos muito interessantes, visando já uma componente internacional, numa ligação do Minho à Galiza, em Vila Nova de Cerveira, e na paisagem do parque da Peneda-Gerês, numa zona passível de construção, perto de uma barragem. Este último terá uma ligação muito especial com a bio sustentabilidade no Gerês.

 

Que características permitem que o Minho seja um local de atração para turistas de golfe?

A Europa tem um clima muito rigoroso no inverno. Nós, durante todo o ano, temos temperaturas amenas. Podemos captar a atenção dos turistas que, em sua grande parte, estão a envelhecer e procuram residências seniores através do golfe, por vezes durante vários meses. Podemos trazer esses povos, criar uma estratégia internacional, através das capacidades ótimas do aeroporto no Porto, que mantém ligações às principais capitais europeias durante todo o ano. Por outro lado, o golfe é, acima de tudo, um desporto e, por isso, é muito importante para a condição física e mental. Hoje, olho para os campos aqui do Norte e fico um bocado triste porque não vejo muitos jovens, o que significa pouco futuro. O golfe é atualmente um desporto olímpico e os jovens que começam a aprender têm hipóteses de chegar às olimpíadas, por exemplo. O golfe tem um objetivo, incentiva a criar estratégias para ultrapassar obstáculos, um raciocínio permanente que pode ser utilizado noutras áreas da vida.

É esse trabalho de incentivo à prática de golfe que tem desenvolvido com a SNAG GOLF?

Com a nossa associação temos feito muita coisa, especialmente no que toca a proporcionar uma experiência de golfe a jovens. Temos estudos que comprovam que um jovem, em idade precoce, que experimente a modalidade, nunca mais se esquece. Queremos que, um dia, quando esse jovem entrar num campo de golfe, a primeira coisa que queira fazer seja jogar. E se temos este projeto de criação de campos de golfe na região, interessa-nos cativar os potenciais jogadores. Temos feito vários campeonatos com escolas, da zona de Braga, com tacos adequados, permitindo que os jovens conheçam o espírito da modalidade.

 

Considera que existe uma cultura de golfe no Minho? E não há planos para a capital do Minho (Braga)?

Infelizmente não há uma cultura de golfe na região Norte e é por isso que eu percebo perfeitamente que os autarcas não saibam o que é o golfe e tenham receio de arriscar. Se perguntarmos quem ganhou o campeonato nacional de futebol do ano passado toda a gente sabe, mas se perguntarmos quem ganhou o campeonato nacional de golfe ninguém responde. A falta de cultura do golfe é o principal fator do pouco desenvolvimento aqui na região. De momento, já estamos em ligações com as autarquias, alguns dos projetos que queremos desenvolver já entraram nos PDM’s. Este passo está a ser feito. É algo que demora o seu tempo, mas é uma aposta de futuro para o nosso turismo. Braga vai ser um passo à frente. O Minho é nosso target e, por isso, Braga não está esquecida. Estamos na fase de determinar a localização do campo e, a partir daí, ir buscar todas as licenças que são necessárias à execução do campo. 


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