Revista Rua

Saber. História e Religião

Questão Peculiar, Império Espiritual

Claúdia Sil

Texto: Claúdia Sil |

Em Outubro comemora-se um “5 de Outubro” particularmente interessante, o do ano de 1143 em que foi assinado o tratado de Zamora, considerado o dia da independência de Portugal por ter finalizado o conflito entre os reinos da Hispânia permitindo a D. Afonso Henriques iniciar o processo de reconhecimento do novo país junto da Santa Sé e que viria a efetivar-se no ano de 1179. 

Ora dos feitos de D. Afonso Henriques já toda a gente sabe e ouviu falar. Mas, e de João Peculiar? Nomeado Arcebispo de Braga em 1139, ano da vitória da batalha de Ourique, foi ele, sem dúvida, que fabricou e bem urdiu este retângulo. Não sozinho, mas com um grupo de forte relação com França e de influência extraordinária na altura. Ele próprio estudou em Paris e no condado Portucalense funda o convento de Lafões, inicialmente beneditino. D. Afonso Henriques é um Borgonha, ducado francês. Peculiar é amigo pessoal de S. Bernardo de Claraval, francês descendente também ele de ilustres famílias da nobreza de Borgonha e que foi o reformista da Ordem de Cister, impulsionador (e familiar) do grupo sobejamente conhecido por Templários. 

O Condado tinha passado para as mãos de D. Teresa após a morte do Conde D. Henrique que começa a fazer tremer a sua independência quando entra em negociações com a Galiza. D. Afonso era um jovem que se autoproclamou cavaleiro. E aí está o enquadramento. Desta vulnerabilidade surge a oportunidade dos clérigos ancorarem no impetuoso Afonso o seu projecto de ligar o ocidente ao oriente num largo Império Espiritual. A Ordem de Cister na visão de Claraval, defendia uma prática que promovesse a comunhão com Deus como faziam os cristãos antigos, despojados de luxo e com uma vida intimamente ligada à meditação, contemplação e estudo das sagradas escrituras. Rapidamente os conventos em Portugal se tornaram Cistercienses com um poder como nunca tiveram em nenhum outro lugar. 

A gestão e arquitectura deste plano, que é um sonho de expansão de um amor a Deus humilde e simples, é de uma complexidade tão extraordinária, uma lição de diplomacia tão desenvolta, que encavaca qualquer um dos inoperantes agentes políticos dos dias de hoje. Há quase 900 anos atrás, este homem, Peculiar, além de liderar a cidade de Braga por 36 anos, deixou uma enorme profusão de documentos escritos, fez 14 viagens a Roma para convencer o Papa a reconhecer o Reinado de Portugal, liderou a transformação para a ordem de Cister de diversos conventos, edifícios tão magnânimos como Alcobaça ou Tarouca e suas quintas e importantes bibliotecas. Em simultâneo as batalhas em que Peculiar nunca deixou de estar presente ao lado de Afonso. Fizeram-se doações sem fim, incluindo a de um hospital localizado perto do Rio Este aos Templários. Negociaram a vinda de 160 navios com cruzados do norte da Europa que ajudaram à conquista de Lisboa. Foi enorme esta empresa de criar Portugal. 

Diz-se que D. João Peculiar estará sepultado na Sé, rezam os documentos, mas não se sabe bem onde. Está uma estátua dele no largo de S. Paulo, algo perdida. Não se sabe bem quando nasceu, embora digam que morreu aos 100 anos. Tantas pessoas terão ido ao seu funeral que demorou dois dias a dissipar as gentes da cidade. Não se sabe o porquê do seu nome, Peculiar. 

Diziam que Afonso nasceu em Guimarães ou Coimbra mas parece que foi em Viseu. 

Aqui está uma nação que não sabe como foi peculiar a razão pela qual nasceu. Peculiar.


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