Revista Rua

Saber. Reportagem

Quinta de Santiago, Um legado poético entre as vinhas de Monção

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

As vinhas estendem-se ao longo de 7,5 hectares, criando uma paisagem que nos afaga a vista. Em cada cacho de uva há uma memória e uma homenagem ao legado de uma família que, de geração em geração, vai aprimorando o seu saber na produção de vinhos. A Quinta de Santiago é minhota de coração e os seus vinhos, esses onde o Alvarinho é tesouro requintado, são convite a conhecer a alma de Monção.

Fotografia: Pedro Lopes e Julio Rodriguez

 

“Do alto da casa senhorial, em pedra, deslumbra-se toda a paisagem ao seu redor: o espigueiro, a emblemática Capela de S. João Batista e, mais adiante, o caminho das Gloriosas que nos conduz a uma grande poça, onde repousam nenúfares embalados pelo som melancólico da água cristalina da nascente que serve de regadio ao extenso vinhedo da famosa casta branca – o Alvarinho”. É com estas palavras que apresentamos a Quinta de Santiago, em Monção. Cada pormenor mencionado no texto, tantas vezes citado pela memória da família Santiago, ganha vida à medida que exploramos a Quinta, de uma ponta à outra. Os nenúfares a cumprimentarem a nossa entrada, repousando na poça que embeleza a paisagem, naquele dia quase vazia, não tivesse sido este um ano de mais seca. A Capela de S. João lá em cima, quase que nos mirando as pisadas pelo caminho das Gloriosas, que são as flores que colorem o passeio até à casa senhorial, abrigo da antiga adega. A Quinta de Santiago é refúgio de tradição, de um legado que orgulha as gerações que hoje, mesmo depois de rumarem a outras ambições, encontraram o seu caminho de volta à terra do coração, o Minho. Joana Santiago é o rosto desta geração que prometeu dar novo brilho às vinhas da quinta. Bem-disposta e radiante com o sucesso atual dos vinhos produzidos na Quinta, onde a casta Alvarinho é a rainha do vinhedo, Joana apresenta-nos a história da família com um brilhozinho nos olhos que nos demonstra que o passado é a maior bênção para acompanhar o futuro. “A Quinta de Santiago é propriedade da família desde 1899. Em 2009, graças à determinação e paixão por vinhos das três gerações da família, da avó Maria Santiago aos netos, nasceu o projeto Quinta de Santiago Boutique Winery. Foi a capacidade empreendedora da avó, uma mulher que toda a vida se dedicou à vinha e ao vinho, que esteve na génese do projeto. Na altura, a sua única exigência foi que a marca tivesse o nome da família e que todos trabalhássemos em equipa, passando mais tempo com ela na Quinta. Nós, que vivíamos na cidade com profissões frenéticas, assim o fizemos”, conta Joana, que ainda advoga para alguns clientes. “A avó participou ativamente no processo de criação dos vinhos até 2011, não vivendo, contudo, o lançamento da primeira colheita 2012, no ano de 2014. Mas o coração minhoto que consta em cada garrafa é uma homenagem a ela, uma mulher minhota e excelente bordadeira”, diz-nos Joana.

Juntando o entusiasmo da geração mais jovem à tradição de uma Quinta que sempre produziu e vendeu vinho, fosse para estabelecimentos comerciais, fosse para consumo próprio, o projeto da Quinta de Santiago foi dando frutos, literalmente. Hoje, são 7,5 hectares de vinha plantada, incluindo a nova vinha plantada em julho deste ano, numa localização privilegiada, mesmo perto da estrada nacional de Monção. Alvarinho, Loureiro e as castas tintas Touriga Nacional e Tinta Roriz, com as quais fazem o seu Rosé (que também inclui Alvarinho), alimentam as colheitas que, até ao momento, levam à produção de cerca de 30 mil garrafas. “Podemos dizer que 20 a 30% da nossa produção segue para os mercados internacionais, o que é ótimo. Vendemos para Rússia, Bélgica, Irlanda, Brasil, Dinamarca, Holanda, França, Canadá, Alemanha e alguns estados dos EUA”, acrescenta Joana. No entanto, há uma dificuldade que Joana não esquece de mencionar: o preço médio por garrafa. “Em Portugal, praticamos um preço médio muito baixo comparativamente a outros países e isso é sempre uma dificuldade para quem trabalha em pequena escala vinhos de boutique focados na qualidade, apenas com uva própria, com uma imagem preparada ao pormenor e sempre utilizando produtos de topo, como nós fazemos. Acresce que praticamos uma viticultura sustentável, empenhada em proteger o ambiente e o equilíbrio ecológico nas nossas vinhas, garantindo a qualidade futura das nossas videiras e uvas ao longo dos anos. Na Quinta, os trabalhos, sempre que possível, são manuais, começando pela vindima. Preserva-se a flora e a fauna, rega-se apenas com água natural, a plantação é orientada para a melhor exposição em áreas claramente definidas. Não são usados herbicidas no controlo da vegetação indesejada e ao longo das linhas das videiras é plantado tapete verde de espécies selecionadas (trevo, serradela, etc.), que florescem entre novembro e o final da primavera com intenção de evitar o crescimento de espécies invasoras. Já no verão, esse tapete ajuda a restaurar a matéria orgânica natural do solo, o seu arejamento e penetração da água. O nosso investimento em viticultura é grande, portanto, e não se esgota aqui. Investimos muito em adega, seja em barricas (preservando a tradição de fazer Alvarinhos em barrica), seja em novos ensaios e experiências, como os ensaios naturais, que é um nicho de mercado que nós também queremos investir, através da produção de vinhos sem qualquer intervenção”, enumera Joana, adicionando na sua lista de investimentos a tecnologia ou os novos produtos complementares ao vinho que envolvem outros sectores de atividade, como os chocolates, os chás e outros produtos que ainda virão. “Tudo isto traz custos acrescidos, mas os nossos clientes desfrutam de muito mais do que uma simples garrafa de vinho quando compram produtos Santiago… usufruem de uma experiência genuína e de um pouco de nós!”, descreve Joana.

Todavia, a certeza é uma: é toda esta entrega, esta alma que garante a essência dos vinhos Santiago, bem assentes no terroir único da sub-região de Monção e Melgaço. “Os nossos vinhos são elegantes e complexos, encorpados, persistentes, com frescura e mineralidade q.b. para acompanhar a gastronomia. O nosso Rosé, por exemplo, tem uma frescura incrível, uma boa acidez, complexidada e é muito interessante para harmonizar uma série de pratos, desde comida asiática a saladas, peixe fresco e tudo o que tenha pimento vermelho. Este ano, chegamos a meio de agosto e já não tínhamos Rosé. Foi um vinho que funcionou muito bem!”, afirma.

Com uma aposta crescente a nível de atividades de enoturismo de proximidade, aproveitando os seus vinhedos, o conforto da sala de convívio da casa senhorial e as valências incríveis da sala de provas, mesmo acima da adega moderna, que permite admirar a paisagem da vinha que se estende até ao horizonte, a Quinta de Santiago tem uma aura autenticamente minhota e muitas histórias para partilhar. Enquanto o pôr-do-sol vai pintando as vinhas já despidas, o aroma que emana dos mostos que repousam, pacientemente, acena-nos em jeito de despedida. Bons aromas, lotes diversificados, boa acidez, bom álcool, boa colheita que se avizinha. Voltamos para provar?


4 vídeos 808 followers