Revista Rua

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Rastos de rua

Luís Belo está na Rua

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

@zeluisbelo

 

 

Hoje, e enquanto a fotografia acompanha o nosso inconsciente positivo, saímos à rua sem perceber as diferenças dos dias, as inconsistências obrigatórias do tempo. A rua é o teu palco principal? É na rua que encontras a tua liberdade criativa?

A rua é uma pintura à espera de moldura. Quero com isto dizer que sinto que apenas me limito a transportar a criação para uma fotografia, não começando necessariamente comigo. Das várias expressões artísticas com que tenho a oportunidade de experimentar, a fotografia é aquela que me acompanha todos os dias, muito graças a essa “rua”. Não tenho mais liberdade criativa – para mim há mais margem para criar numa folha de papel por ilustrar –, mas a fotografia pode surgir espontaneamente, sem uma intenção final, apenas por uma atração estética súbita, um momento caricato, alguém que me intriga.

É na rua que muitas das minhas fotografias nascem porque posso vagueá-la sem rumo, e quando tanto do meu tempo é regido por objetivos concretos, a ação de fotografar, assim, é quase terapêutica.

 

Por vezes encontrámos um género de arte performativa nas tuas fotografias. Algo que pode apenas ter acontecido dentro de algum limite imposto por uma não casualidade. Esta nova força nas tuas fotografias origina sentimentos diferentes enquanto fotógrafo?

Quebrar a paisagem pedindo a alguém que olhe para a câmara, que não cruze os braços, ou “um pouco mais para a direita”, todas essas indicações pressupõem uma visão e enquanto fotógrafo, sobretudo aquele espontâneo de que falava há pouco e do qual necessito, torno a rua cenário. Nessas fotografias, o que nelas está representado já não é a realidade, antes uma visão pessoal. Felizmente já me conformei com os meus conflitos artísticos e a conviver com as várias facetas que existem em mim.

 

O elemento humano compõe a maior parte das tuas obras. Sejam mais ou menos assumidas, as pessoas são quase uma sombra de equilíbrio que define uma parte fulcral da imagem. É essencial para ti o equilíbrio imagético que este elemento sustenta?

Fotografo aquilo de que me sinto mais próximo. Nas minhas imagens é quase inevitável fugir ao elemento humano, seja efetivamente uma figura humana, a sua silhueta ou a sua sombra, ou seja, através de vestígios do nosso rasto, fascina-me a capacidade do Homem vergar os elementos à sua vontade e nas minhas imagens isso está presente.

 

Qual é a cidade onde te sentiste mais confortável a fotografar? Algum local que gostasses de ver representado nas tuas imagens, mas, por algum motivo, ainda se encontra longe?

Para mim não há lugar mais confortável que o próprio lar e no meu caso essa cidade é Viseu. Cresci aqui, sou de cá e as ruas são-me familiares, mas nem por isso deixam de me surpreender ou de revelar novos detalhes a cada passagem. Este será o local para onde quero sempre voltar. Sobre outras visitas, não tenho planos. Mais uma vez: prefiro cruzar-me com as ruas e deixar que elas mostrem as suas pinturas, do que ir ao encontro dos quadros, das cidades, e poder trair o sítio pelas minhas expetativas.


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