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Rui Horta: "Para um homem da minha idade, é um desafio falar do futuro"

Maria Inês Neto

Texto: Maria Inês Neto |

É um homem da dança, vivendo entre coreografias e bailados que lhe dão um sabor especial à vida que ele gosta de encarar de frente. Aos 60 anos, e depois de 30 afastado dos palcos na primeira pessoa, estreou Vespa, um solo interpretado por si e estreado em Guimarães, há meses. Agora, de volta à cidade berço para apresentar novamente Vespa e estrear a peça que coreografa, Humanário, Rui Horta fala-nos de futuro, de desafios e de limites do próprio corpo. 

Fotografia: Nuno Sampaio

Começou a sua carreira em cima do palco, esteve 30 anos nos bastidores como encenador e coreógrafo e regressa agora como bailarino aos 60 anos. A sensação é a mesma ou algo mudou?

Bom, não tem nada a ver. É uma experiência completamente diferente. Para já foi uma decisão muito intuitiva, o voltar a dançar. Houve alturas que eu nem percebi muito bem o porquê de o estar a fazer. Depois apercebi-me que era agora ou nunca. A minha idade já mete respeito. É um desafio porque eu trabalhei com alguns dos melhores intérpretes da minha geração e, hoje em dia, com os novos, sempre intérpretes de muita qualidade e de algum modo meço-me a mim próprio essa mesma qualidade, o que é por si só quase uma impossibilidade. O corpo é uma coisa especial, vai-se apagando ao longo da nossa vida, portanto esta luta contra o tempo faz com que tudo tenha outro peso, outro valor. No fundo é uma festa, é um estar vivo. Não me interessa contar uma história passada, não me interessa uma autobiografia, a mim nunca me interessa esse aspeto. Estou a lembrar-me de uma frase do escritor Mário de Carvalho que dizia que “não interessa andar a contar a vidinha”. A mim não me interessa andar a contar a minha vidinha, venho falar de futuro e, para um homem da minha idade, é um desafio falar do futuro. Tem que haver vontade de criar alguma coisa que faça rutura, e isso é bom.

 

O mais recente espetáculo, Vespa, estreou no ano passado, em abril. No entanto, tal como disse, não é de todo autobiografia, apesar de ser o seu corpo e imagem em palco.
É evidente que há um elemento autobiográfico em tudo que fazemos. Mas o Vespa é mesmo um exercício muito especulativo também sobre todos, sobre a humanidade. Eu acho que todos temos qualquer coisa dentro de nós, um inseto, um lado destrutivo, um lado que pica por dentro, e de algum modo a nossa vida é uma espécie de amansar essa fera interior e transformar essa pulsão, que muitas vezes é violenta, em algo construtivo. No meu caso, isso chama-se criação. Ou seja, é uma certa reciclagem de uma insatisfação que temos transformada num objeto poético, numa criação. Eu acho que todos temos isso por dentro e pode ser transformado em algo positivo. Acho que os artistas talvez tenham a mais, um grito mais forte, porque é quase criar ou morrer. E esse criar é uma espécie de luz que ilumina esse inseto, uma luta contra esse inseto até conseguirmos colocar cá fora algo de suficientemente interessante para que os outros nos venham ver. Isso já é em si muito bom.

 

Disse, tal como o escritor Mário de Carvalho, que “o caminho para a má arte é andar a contar a vidinha em palco”. Qual é então o melhor caminho para a boa arte?
(risos) Não sei qual é o caminho para a boa arte. Por acaso é engraçado isso. A arte pode ser má também. A arte é um substantivo, não é um adjetivo. Pode ser boa, má, contemporânea, clássica, pode ser o que quisermos. Eu acho que o melhor caminho para fazer uma boa peça artística, uma boa obra, é ser-se autêntico e ter um elemento que respeite a tua autenticidade. É com essa lente de autenticidade que tu depois descodificas o mundo, que é sobre aquilo que normalmente fala a criação. A criação fala de coisas muito complexas, fala da humanidade no fundo. Depois, talvez, a receita mais forte seja teres uma temática com alguma urgência, porque a urgência é mesmo importante, é falar de algo importante, seja interior, seja exterior a ti. Falar de uma forma sofisticada, não com um primeiro olhar, mas um segundo ou terceiro. Falar mesmo de uma forma sofisticada, eu acho que é esse o desafio. Falar de uma coisa forte com uma distância crítica, porque a arte não é uma repetição da realidade, isso não tem interesse nenhum, é uma coisa redundante. A arte é uma reflexão já com uma distância crítica sobre essa mesma realidade. Portanto, não é fácil!

O seu espetáculo já percorreu várias cidades. Sente que, de alguma forma, as pessoas que já assistiram saem de lá com uma forma diferente de ver o mundo, uma visão diferente do modo como lidam com os pensamentos ocultos e as coisas indizíveis?
(risos) Acho que toquei muitas pessoas com esta obra e isso até me espanta. Mas daí a dizer que ela é transformadora do mundo vai uma grande distância. Acho que a arte tem um elemento disruptivo da realidade. E, portanto, todos nós quando fazemos uma criação esperamos tocar alguém, de alguma forma, pelo menos uma pessoa naquelas 100 ou 200 pessoas que nos vêm ver, e que essa pessoa tenha uma experiência marcante. Acho que isso é ser bestial. Se conseguirmos tocar em alguém é importante. Claro que a arte tem um elemento transformador porque é uma ferramenta de descodificação do desconhecido. A arte contemporânea é um pouco como a ciência. Essas são as grandes ferramentas de descodificação do futuro e pode ser que iluminem qualquer coisa. No fundo, provavelmente a arte até é muito egoísta, a forma como ela se manifesta é que depois é extremamente útil. Mas ela na sua génese é a coisa menos democrática que existe.

 

Como professor considera que a disciplina é um alicerce fundamental na vida de qualquer pessoa?

Já não sou professor há muitos anos. Fui um professor muito dedicado, que fez uma carreira muito gira. Estive em Nova Iorque e ensinei no mais alto nível. Dei aulas no Steps, que é o estúdio mais importante da Broadway, e tinha a minha aula cheia. Mas, de algum modo, isso depois ficou para trás porque o meu percurso de criador apagou o meu percurso de professor. Mas provavelmente não deixamos de ser professores a vida toda, de alguma forma. Eu nem escrevo no meu curriculum porque ser professor tornou-se quase subliminar, mas é importante. É uma espécie de disciplina criativa. Nessa aula, no estúdio Steps, eu tinha de ser criativo e isso foi um enorme fator de aprendizagem para mim. Aquilo obrigava-me a estar à frente daqueles intérpretes e bailarinos incríveis e eu tinha de dar aquilo que eles estavam à espera. Estavam à espera de criatividade! Isso disciplinou imenso a minha forma de trabalhar. Em Nova Iorque aprendi que é possível disciplinar a nossa criatividade.

 

Sabemos que não gosta de falar do passado, mas descobriu a dança aos 17 anos, já viveu em Nova Iorque, viajou pela Europa e regressou a Portugal. Em qualquer sítio que estivesse havia sempre algo em comum: a dança. Hoje vê que a dança obrigatoriamente teria de ser o seu percurso? Nunca pensou desviar-se desse percurso uma vez que até chegou a estudar arquitetura?

Sim, entrei na faculdade de arquitetura, frequentei o primeiro ano e depois deixei. E sou provavelmente ainda hoje um arquiteto frustrado. A minha arquitetura sai completamente no desenho de luz, na cenografia e até no movimento. Eu sou, na realidade, um arquiteto em movimento. Fiz imensas master classes e li muito sobre arquitetura, é o que eu leio mais até. Eu até me desviei do percurso da dança porque sou um homem curioso e, portanto, sou um homem da live art, da arte ao vivo. Sou um homem de transdisciplinaridade e, provavelmente, o criador mais transdisciplinar no nosso país. Faço teatro, ópera, encenação e coreografia, que é aquilo que eu gosto mais de fazer e que provavelmente mais me define mesmo. E tudo isso para mim é dança. No fundo, se pensares naquilo que é a definição de dança, dança é um movimento organizado, organizar a mudança de posição de qualquer coisa. As próprias ideias dançam e são coreográficas. Acho que a dança me preencheu muito e justamente a minha recusa em olhar para o passado é importantíssima. Se eu olhasse para trás perdia imenso tempo, era uma chatice, e a arte contemporânea é uma coisa que está à frente. Há um momento da tua vida em que tens de fazer uma escolha e, na minha opinião, nas artes (e na vida em geral), só há uma escolha: adotar o discurso do ‘já feito’ ou o discurso do novo. O ‘já feito’ é importante, é o discurso conservador e é fundamental termos uma memória. Mas eu não sou uma pessoa de memória, sou uma pessoa de descoberta e não quero perder o meu tempo a olhar para trás, nem tenho preocupação em deixar escola, escrever memórias ou trabalho autobiográfico. Acho que vou ter tempo para isso quando for muito velhinho mesmo: olhar para trás e pensar em tudo que fiz. Agora quero é fazer!

Como é que vê o seu corpo hoje em dia? Naturalmente que a idade traz consigo uma maior exigência, mas traz também algumas lesões e dores. Mas não são elas que o param. Voltar aos palcos com 60 anos e com um espetáculo que exige muito de si, é uma mensagem de que a idade para si não é sinónimo de apatia ou perda de entusiasmo?
(risos) Eu nem sei porque é que danço. Acho que todos dançamos porque há coisas tão importantes e tão especiais que não conseguem ser ditas por palavras e são ditas com o corpo. Eu acho que danço sem pensar porque é que danço. Eu danço porque quero e porque preciso mesmo, portanto não tento passar nenhuma mensagem. Eu às vezes sinto-me como um Volvo ou um BMW dos anos 80, aquilo anda que se farta e eu estou sempre a andar a 200 e tal. Não é ter um carro moderno a andar a 220km/h, é ter um carro muito velho e andar a 200. Eu acho que é possível andar rápido num carro velho e é muito giro porque se sabe que pode a cada instante avariar. E essa é a beleza da live art no fundo, a verdadeira celebração da arte ao vivo é essa coisa de algo poder correr mal. Se formos ver um filme nada irá correr mal porque já foi feito, um filme é sempre passado. A arte ao vivo é uma coisa de futuro, está a ser feita. E eu acho que há uma grande beleza em estar a dançar numa altura em que eu tenho 60 anos e o corpo se está a apagar - porque o corpo vai naturalmente se apagando. Eu quando acabo de dançar vou pondo gelo nos sítios onde sinto dor, porque dói sempre em algum lado, mas o facto de doer é bestial porque estás lá, tem essa urgência. A urgência é bestial porque vamos ter toda a eternidade para não fazer nada e acho que só temos uma vida e tem de lá caber tudo. Sou um tipo um bocado obsessivo nisso. Tenho na vida cerca de 50 criações feitas em todo o mundo, fiz 2500 espetáculos em tournée, é uma perfeita loucura. Dei a volta ao planeta várias vezes. Isto é de um tipo que é sôfrego. Mas eu acho que quando se é um criador se escolhe uma espécie de terapia constante. Mas sim, a urgência é uma coisa bestial na vida.

 

Qual é para si o trabalho mais exigente: ser coreógrafo/encenador e estar atrás do palco ou ser bailarino e estar em cima do palco?

As duas coisas são diferentes. A peça Vespa era para se chamar Serial Killer porque eu de repente vou-me entregar, sou aquele tipo que me vou entregar à judiciária, que ando a matar pessoas há 20 anos e as pessoas vão adivinhando qual é o retrato robô do criminoso. Eu sou um tipo que se escondeu sempre atrás das peças. Eu nunca tive necessidade, do ponto de vista narcísico, de estar no palco. Nunca me interessou isso. Interessou-me criar peças, o jogo de composição - isso sim é bestial. Mas agora, de repente, apeteceu-me estar no palco e é uma espécie de entrega e celebração do género: “olha, estou aqui, sou eu que tenho andado a fazer estas coisas todas durantes estes anos”. E isso cria uma perceção diferente dos objetos. As pessoas não estão só a ver o solo. Isto feito por outra pessoa era outra coisa. Feito por mim é diferente, mas não sei exatamente em que é que é diferente. Claro que há também um elemento voyeurista, mas o voyeurismo é um dos sintomas e uma das condições mais importantes da experiência artística, que é ver uma coisa proibida. Eu sou um objeto proibido! (risos) Tenho sido sempre um objeto escondido e agora já não sou, já perdi essa característica.

 

Já viveu em várias cidades, mas foram os ares do Alentejo que o conquistaram e foi lá que criou o Espaço do Tempo, uma residência de criação artística. Que importância tem para si este projeto?

O Espaço do Tempo já existe há 18 anos e é uma grande dor de cabeça, uma dor boa, uma coisa enorme. Este ano temos 70 residências, passam 500 artistas por lá, é um fenómeno mesmo. É uma utopia pensar como é que conseguimos ainda ter a porta aberta. O Espaço do Tempo é uma vontade de dar aos outros aquilo que eu recebi. Acho que todos temos esse ciclo na vida, quando temos filhos ou quando somos avós mais tarde. Há uma altura em que recebemos e há uma altura em que pensamos “bestial agora vou dar”. É importante dar. Eu voltei para Portugal porque tinha tido uma sorte incrível de, nos anos 90, ser coreógrafo residente de um dos teatros mais importantes na Alemanha, que era o Mousonturm, em Frankfurt. Tinha à disposição estúdio aquecido, quartos para dormir, uma equipa de produção técnica, um teatro para poder ensaiar... Quando voltei quis mesmo que os meus colegas, companheiros e o meu meio usufruísse de uma coisa que eu tinha tido. Portanto, o Espaço de Tempo é dar de volta aquilo que recebi generosamente de muitas pessoas ao longo da vida e dar aos outros que agora são mais novos que eu, até porque o meu trabalho é muito dedicado aos que estão a emergir. No fundo, tornarmo-nos uma incubadora bestial onde todos os dias acontecem coisas improváveis e onde os artistas se encontram à mesa para almoçar e depois voltam para os seus sítios onde vão criar algo. Talvez seja a coisa mais bonita que fiz na vida para além dos meus filhos.

 

Porquê em Montemor-o-Novo?

A criação não é uma repetição da realidade, é uma distância crítica, uma reflexão sobre essa realidade. Portanto, a criação sempre foi um fenómeno das metrópoles, historicamente desde a Grécia Antiga. Aconteceu em Londres, Roma, Paris, Nova Iorque, mas depois o processo criativo precisa de um recolhimento para se fazer. Precisa de calma. Claro que as cidades são caldeirões incríveis, são os grandes sítios do fenómeno, onde estão todos os inputs criativos. Mas, depois, para a criação acontecer com qualidade, a pessoa precisa de tranquilidade e de um porto de abrigo. O Espaço do Tempo é esse sítio perfeito que fica a uma hora de Lisboa e onde as pessoas vão passar duas/três semanas, desligam os telemóveis e nem têm de se preocupar com o que comem porque terão todas as refeições na mesa. Só pedimos que vão para o estúdio e que façam coisas bonitas. Eu gostava de um dia olhar para trás e sentir que fui útil para muita gente há minha volta.

É o coreógrafo em destaque em mais uma edição do GUIdance. Há reposição do espetáculo Vespa e estreia absoluta de Humanário. O que podemos esperar desta nova peça?

É uma criação que me entusiasma porque estou a fazer uma criação com um grupo muito heterogéneo. São todos jovens, mas depois há uns com experiência, outros sem, uns cantam, outros dançam, uns tocam instrumentos, outros apenas existem com a sua beleza, presença e evidência. Eu tenho de juntar isso tudo e criar um todo coerente e humano, daí chamar-lhe Humanário. Estou a trabalhar com um cúmplice, uma pessoa muito interessante, o Tiago Simães, que é maestro. Decidi fazer uma peça vocal coreografada, uma coreografia vocal talvez. Tem sido muito interessante, vamos ver no que dá.

 

O espetáculo Vespa estreou em Guimarães e o mesmo acontece agora com Humanário. Foi propositado? Como classifica a dinâmica cultural vimaranense?

Eu tenho uma relação com Guimarães de há mais de 15 anos. Guimarães é um sítio único. É um fenómeno sólido para durar. É a maior estrutura de criação e apresentação de artes contemporâneas em Portugal sem ser em Lisboa ou Porto. É obra. Eu comecei a apresentar os meus trabalhos aqui e não parei. Já fui artista associado, residente, assessor para programação e adoro esta terra, portanto apeteceu-me fazer as minhas peças aqui. Já as fiz em Lisboa e agora apeteceu-me fazê-las cá onde me sinto protegido. Esta cidade é especial. Investiu na cultura, tem todas as condições para se fazerem coisas bonitas aqui e eu já nem penso porque é que venho a Guimarães, nem penso mesmo. Apeteceu-me criar com as pessoas de cá, gosto muito das pessoas do Norte e venho cá sempre, ainda que seja duro, visto que há dois meses que venho cá todos os fins de semana trabalhar, mas eles também vêm do Porto, Braga, Aveiro, de todo o lado. É uma celebração da vida, é dar de volta a esta comunidade que me deu tanto.

 

Vespa é uma despedida sua do palco? Ou podemos esperar novos projetos semelhantes no futuro?

Não, não é, porque eu agora ganhei o gosto! (risos) Primeiro, para já, não vou parar de fazer Vespas nos próximos tempos, já fiz uns 15 espetáculos e ainda tenho mais agendados. Tenho esta coisa improvável de sobreviver a este espetáculo e vou marcando. Não acho que vou dançar por mais de um ano, mas ainda vou dançar muito. Agora, estou a dançar fora de Portugal, o que também é incrível e assustador porque vou fazer a primeira versão do Vespa em inglês, em abril, e depois ainda a versão espanhola lá para setembro. Eu quero que a peça não tenha legendas, quero que seja toda uma peça interior e falada por mim na língua mais acessível ao meu público. Vou ainda fazer uma criação para 2019, sem pressas, com uma grande cumplicidade com o Pedro Gil e estamos agora a pensar no que é que vamos fazer, portanto vai nos dar um grande gozo seguramente.


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