Revista Rua

Apreciar. Cultura

Rui Torrinha

 “Um programador não é aquela pessoa que procura o consenso, é a pessoa que desassossega os espíritos”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

A 30ª edição dos Festivais Gil Vicente começa hoje, em Guimarães, e prolonga-se até ao dia 11 de junho, lançando um olhar profundo sobre a criação feita em território nacional. Teatro Praga, João Sousa Cardoso, Jacinto Lucas Pires e Teatro Oficina são alguns dos nomes em destaque nesta edição, que contará com diversas atividades paralelas com o intuito de envolver o público com o teatro contemporâneo. A RUA esteve à conversa com Rui Torrinha, o programador artístico do Centro Cultural Vila Flor que vive com os olhos postos no futuro. 

[Despertar da primavera, uma tragédia de juventude, pelo Teatro Praga. Sobe ao Grande Auditório do CCVF na sexta-feira (dia 2), às 21h30. Fotografia de Alipio Padilha]

 

Em primeiro lugar, o que podemos esperar desta edição dos Festivais Gil Vicente?

Antes de mais, é um número redondo. A 30ª edição celebra a longevidade de um dos mais antigos festivais de teatro contemporâneo no país e, mais do que celebrarmos a história (que reforça um percurso de resiliência do teatro no território), quisemos, nesta edição, construir um novo ciclo, olhando para o futuro. Nesta edição, metade do elenco são estreias. Das seis peças, três são estreias absolutas e, portanto, isto reforça também o papel dos Festivais no sentido do investimento que se faz na criação em Portugal e na valorização do teatro escrito e feito em Portugal. Para nós, é extremamente importante que os Festivais continuem a ser um palco que permita escrevermos a nossa história contemporânea do teatro. E aquilo que nós quisemos fazer foi, neste elenco 100% nacional, lançar um conjunto de ideias para um novo ciclo à volta dos Festivais, mas não só. Daí termos montado as atividades paralelas. Começando pelo elenco, quisemos criar um programa que tivesse textos, que levantasse algumas questões fundamentais no tempo em que vivemos. Há aqui peças que questionam a geografia, a relação de diferentes gerações, o futuro... e nós quisemos, no fundo, reunir um conjunto de textos que nos fizessem refletir sobre este momento atual: quem somos e o que estamos aqui a fazer. O teatro, sendo uma arte viva, onde o corpo está inscrito, é importante e é mais forte. Depois, para lá dessa visão global, mais abrangente, quisemos situar territorialmente este investimento. Aquilo que fizemos foi, nas atividades paralelas, criar um programa em cumplicidade com o Teatro Oficina, numa visão articulada que tem sido discutida com o João Pedro Vaz, que é o diretor artístico da companhia. Um programa que detetasse aqui um conjunto de coisas, que já sabíamos que existiam, e nos fizesse encontrar uma forma de as articular. Ou seja, o teatro tem uma presença muito forte no território, desde grupos de teatro amadores, que existem em grande número, ao curso superior de teatro da Universidade do Minho ou às oficinas que são ministradas há vários anos a partir do Teatro Oficina. Portanto, há um conjunto de ingredientes que nos diziam que é possível reforçar e valorizar as práticas teatrais no território. Então, o João Pedro Vaz lançou uma convocatória para mapear os profissionais e os estudantes das artes performativas de Guimarães, vivendo ou não no território, mas fundamentalmente tendo esta relação a Guimarães. A partir daí, a ideia era construir um corpo de trabalho que pudesse gerar oportunidades futuras. O que está a acontecer neste momento é uma oficina de dramaturgia ministrada José Maria Vieira Mendes, que foi o responsável pela tradução do texto de Frank Wedekind, da peça do Teatro Praga. Há aqui uma relação direta com o elenco, e uma residência em Candoso com alguns dos elementos do Gangue, para dar um primeiro passo de desenvolvimento de projetos que eventualmente eles tenham na gaveta. Portanto, vamos avaliar, em conjunto, que potencial é que existe a partir deste corpo de trabalho. É uma espécie de abertura de círculo para um conjunto de atividades mais regulares, não só dentro dos Festivais, mas que terá continuidade.

 

O Rui tem um olhar crítico face à criação nacional de teatro?

O teatro, tal como as outras artes, vive um momento crítico, que tem a ver com a falta de recursos, a falta de condições para os criadores. Na verdade, vivemos numa vertigem e numa falta de recursos e isso reflete-se obviamente na qualidade dos trabalhos. O que eu acho é que há uma grande resiliência da parte dos artistas a este estado muito precário e, com o pouco que temos, conseguimos ainda surpreender. Acho que o teatro começa a questionar-se um pouco. O que nós pretendemos também é demonstrar esta diversidade de propostas a nível do teatro. A primeira semana dos Festivais é um bocadinho mais plástica, meta-teatral. A segunda vai para os novos textos, as novas dramaturgias. O que nós achamos é que há condições para que o teatro no território tenha uma expressão mais forte. Em geral, no país, há uma grande dificuldade, por parte dos artistas e dos criadores, em reunirem condições mínimas para desenvolverem os seus projetos a um nível de exigência que acho que todos entendemos que devem ter. Acho que temos todos, em conjunto, de lutar por isso. Mas há uma grande capacidade de resiliência por parte dos artistas, que para mim é indiscutível.

[Henrique IV Parte 3, de Jacinto Lucas Pires. Sobe à Black Box da Plataforma das Artes na quinta-feira (dia 8), às 21h30. Fotografia de Susana Neves]

 

Uma das características principais desta edição é o apoderamento de palcos pouco convencionais para apresentação das peças. Que palcos são esses?

Isso foi pensado para trabalhar outra coisa que para nós é importante nos Festivais: a questão da proximidade com o público. E também, no fundo, demonstrar que o teatro pode ocupar vários espaços, não tem que ter uma configuração convencional: palco/plateia, muito hierarquizado. Quisemos distribuir o festival pela cidade, por alguns espaços geridos pel’A Oficina. E, por isso, transportamos para a segunda semana essa ideia mais de roteiro dos Festivais, onde teremos uma peça do Jacinto Lucas Pires [Henrique IV Parte 3] na Plataforma das Artes, depois teremos outra peça no Espaço Oficina [Ela Diz, pelo Teatro de Garagem], que é um espaço carregado de história, que tem servido mais para a formação do que para a apresentação. Finalmente, fecharemos os Festivais com a ocupação do Pátio da Casa da Memória porque a peça que vai estrear remete para esse reduto de objetos com significado [Álbum de Família, pelos alunos das Oficinas Teatro Oficina]. A peça é construída à volta da exposição de fotografia d’A Muralha e há toda uma relação com aquele espaço. Para nós também foi importante relacionar esta ideia de proximidade, de sair dos auditórios.

 

Quer então dizer que a ligação com a comunidade é fulcral?

É fundamental! Nós podemos ter um programa muito valioso, mas se isso não se traduz numa resposta do público, não é um processo de transformação do território. E, na verdade, este encontro dos artistas com o público é um processo de transformação. Nós somos responsáveis por criar esse contexto. Como? Muitas vezes, é questionar as fórmulas, é questionar aquilo que é convencional, é questionar como é que isto pode ser feito de uma outra forma, como é que tudo isto pode ganhar um novo significado, como é que pode ganhar um outro impacto aos olhos do público, como é que o público pode viver isto de uma outra forma, que não de uma maneira passiva da relação que está estabelecida. Nós tentámos muito fazer isso na programação. Criámos momentos em que às vezes o público é protagonista também. E, neste caso, a questão do teatro é uma aposta cada vez mais forte e pretendemos que o público cada vez mais se envolva, até porque o teatro é uma arte viva, uma arte que implica o corpo presente.

 

Diria que esse propósito de envolvimento do público com os próprios artistas é um dos fatores mais distintivos desta edição dos Festivais?

É. E também a questão de as atividades paralelas pensarem num investimento de formação e de capacitação do território, ou seja, há um olhar global sobre o teatro, mas depois há um investimento muito pensado para o território. Acho que esta edição lança bases de trabalho e possibilidades futuras de criações. É também um sinal que damos, para quem cá está no território, que não se limite a ser apenas público, que pode também envolver-se. Portanto, há vários níveis de desenvolvimento que estabelecemos, mas a questão da proximidade do público com os artistas é de facto uma das características desta edição, seguramente.

[Gangue de Guimarães. Fotografia Direitos Reservados]

Falava há pouco nessas etapas futuras de formação e criação. Já existem alguns projetos delineados?

Eu diria que este passo que estamos a dar agora nos Festivais é o primeiro de um arco de três anos que queremos trabalhar sobre o teatro. A Oficina gera talvez um dos programas mais completos do país porque cobre todas as artes e nós temos vindo a fazer um investimento progressivo e, às vezes, especializado em algumas áreas. A dança neste momento também está com muita força. Mas decidimos que o teatro, pelas razões que já referi, por todos os ingredientes que temos no território, mereceria uma atenção maior. Juntamente com o João Pedro Vaz, vamos desenvolver um pensamento muito mais articulado entre a programação e o Teatro Oficina, que dará sequência a este tipo de investimentos de possibilidade de formação. Sobretudo, uma das coisas que temos discutido, é a importância da dramaturgia, daí termos uma Oficina, termos convocado alguns dos elementos do Gangue e darmos um primeiro sinal de capacidade de trabalho. A intenção é que isto desencadeie, no fundo, toda uma urgência de criação no próprio território. Portanto, para nós, este primeiro passo é muito mais um olhar para o futuro do que propriamente a celebração dos 30 anos dos Festivais.

 

Podemos falar em concreto nas estreias nesta edição dos Festivais Gil Vicente?

Nesta edição é mais difícil para mim destacar uma peça, porque há três delas que são estreias. Conheço em teoria a construção das peças, mas na prática não sei como é que o dispositivo se vai desenrolar. Nós quisemos, na verdade, construir um programa diversificado, com textos fortes. Algumas peças são mais arriscadas no seu formato. Para nós é extremamente importante ir mostrando que há várias formas de fazer teatro, que não apenas a partir do texto, e demos diferentes escalas às peças. Temos uma peça com o Teatro Praga no Grande Auditório [Despertar da primavera, uma tragédia de juventude], que teve boas críticas na apresentação no CCB. É uma peça que fala sobre um grupo de pessoas que está fora do sistema e, portanto, é cada vez mais também uma questão social percebermos como é que as minorias se comportam. Apesar de ser um texto já clássico do Frank Wedekind, é uma peça extremamente importante para nós. Mas não destacaria nenhuma em particular. Nós tentamos sempre permitir ao público fazer o seu percurso e descobrir a conjugação daquilo que mais lhe interessa. Com esse bónus de termos três estreias, o próprio programador também será espetador atento e surpreendido por esses momentos (risos).

 

É impossível não falarmos deste papel de programador, que cada vez mais lhe traz responsabilidades acrescidas, correto?

Eu acho que o papel de programador às vezes tem um grande destaque, mas na verdade o protagonismo tem de ser dos artistas e do público. Um programador é um interface. É um criador de contextos, é um criador de percursos e de significados para o momento em que o encontro se dá entre o público e os artistas. Nós tentamos criar uma narrativa e um percurso para que depois esses encontros se deem com a maior energia possível, que sejam transformadores para quem neles também participa. Quando nós somos responsáveis por um projeto desta dimensão, e por esta responsabilidade de uma cidade que pensa à frente, nunca podemos descansar. Acho que temos de nos colocar em causa permanentemente. Temos de nos desafiar permanentemente sobre o que fazemos. Porque as expectativas são cada vez mais altas, o público é cada vez mais exigente! Mas, ao mesmo tempo, é muito estimulante pensar desta forma, criar uma autonomia intelectual, pensar o mundo a partir daqui, na relação com ele obviamente, e sermos capazes de acrescentar. Eu acho que é isso que se pede a um programador, a um diretor artístico: que seja capaz de acrescentar. Muitas vezes, aquilo a que se propõe não é imediatamente descodificado, mas provavelmente no arco do desenvolvimento das coisas se percebe que houve uma ideia muito consistente, muito pensada. E não ter medo de falhar! Ou seja, é importante arriscar ao ponto de, por vezes, as coisas falharem. Porque, às vezes, nesses falhanços existem formas de olhar as coisas que não seriam reveladas se isso não tivesse acontecido. Ainda por cima num tempo em que temos de questionar tudo, estamos à procura de uma outra configuração, de um outro entendimento, de um outro significado. Acho que a arte tem que ter esta força, esta capacidade de continuar a formular caminhos possíveis para o futuro e, sobretudo a nível intelectual, estimular as pessoas a não se acomodarem. Fundamentalmente, dizer que um programador não é aquela pessoa que procura o consenso, é a pessoa que desassossega os espíritos, provocando. No fundo, coloca realidades em confronto. Aliás, os Festivais colocam a realidade em confronto. Depois, é olhar para o território com muita força, entendê-lo e dialogar com ele. Eu acho que, na verdade, um projeto tem que dialogar com o território e perceber como é pode ajudar a transformá-lo.
    Em síntese, é uma batalha que nunca está ganha. Estamos sempre no ponto zero. Mesmo que consigamos atingir determinados objetivos, o dia seguinte volta sempre ao ponto zero e isso obriga-nos permanentemente a uma aprendizagem contínua. Temos de ir acompanhando as mudanças do mundo. Mas é muito gratificante encontrar tantas pessoas boas, com uma visão grandiosa e poder juntá-las e trazê-las a Guimarães. Mais do que crescer, porque acho que Guimarães está afirmado, acho que o grande passo é pensar o que temos a dizer ao mundo a partir daqui. É estimular, instigar a criação de forma permanente. O acolhimento é importante, o viver as coisas é importante, mas quando começamos a criar a partir daqui há uma autonomização, temos alguma coisa a dizer ao mundo, vamos à frente. Provocamos uma série de acontecimentos. Somos donos do nosso destino. Acho que é um bocadinho este caminho que nós queremos seguir, daí também este investimento todo a partir do Teatro Oficina. Este apoderamento do território, o que é que o território tem a dizer ao mundo, o que é que eu penso sobre o que está a acontecer, o que é que eu proponho. Há já uma série de projetos construídos aqui e que já circulam. Portanto, acho que essa será a força maior que esta cidade tem como afirmação: a questão da criação. 

[Rui Torrinha, programador do Centro Cultural Vila Flor. Fotografia de Nuno Sampaio]


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