Revista Rua

Observar. Passeio Público

Rui Torrinha: uma programação disruptiva e provocatória

A sua visão passa por pensar a programação num diálogo permanente com a cidade e o território.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

 Para Rui Torrinha, programador artístico do Centro Cultural Vila Flor, depois da fase de acolhimento chegou a altura da criação.

O que é ser programador?

A programação tende a antecipar um conjunto de coisas que se vão estabelecer enquanto tendências fortes dentro da cultura.

O que acontece antes de um espetáculo do ponto de vista da programação?

Há num primeiro momento uma base de pensamento sobre o projecto artístico e a missão propriamente dita. Este Centro Cultural (CCVF) inscreve-se num território que tem uma determinada característica e objetivos. No fundo desenvolve-se um plano que responda a esses desafios e a essas necessidades. Depois, coloca-se em marcha esse plano. Define-se quem são os artistas e os projectos que estão a ser desenvolvidos que podem corporizar esta estratégia, esta visão e dar forma a um programa em diferentes escala e diferentes momentos. A partir daí começamos a constituir e rascunhar um conjunto de possibilidades. Fazemos uma série de contactos com os artistas e daqui resultam algumas relações que são mais duradouras. Depois é montar esta programação em função de uma certa intensidade que responda também às oscilações do próprio público. Pensar que uma programação de inverno há de ser diferente de uma de verão. Numa cidade, a programação de verão terá de ser pensada mais para os espaços públicos...

No Centro Cultural Vila Flor há 5 momentos âncora fundamentais na programação que passa pelos festivais como o Manta...

O Manta é aqui no jardim. Quando me refiro a um espaço público falo de grandes eventos como a Feira Afonsina, o Sunset…  Há uma série de eventos que não são programados por nós mas temos de ter em conta no nosso planeamento para que não haja sobreposição. Esta questão do pensamento envolve todos estes parâmetros de análise para que a própria cidade crie um ecossistema forte e diversificado para não estarmos todos a fazer o mesmo. A grande missão do Centro Cultural Vila Flor é acrescentar algo que a cidade não está ainda a gerar. A partir do momento em que o que nós criámos é absorvido e assumido pela cidade, a nossa responsabilidade é deixar essa transferência ser feita para os promotores. O mundo vive em mudança e com essa mudança nós temos que permanentemente repensar algumas coisas. O Guimarães Jazz (que fez 25 anos), o Guidance, O Gil Vicente, o Manta e o Westway LAB são cinco festivais muito fortes que representam âncoras da programação mas depois também há subcamadas importantes que passam pelas residências artísticas, as co-produções… porque por trás desta agenda há um objectivo muito forte que é a cidade tornar-se uma cidade de criação.

Como?

Num primeiro momento foi feito um investimento num programa de acolhimento onde o objectivo era trazer à cidade um conjunto de propostas que pudesse também inspirar os artistas locais. Agora estamos num processo intermédio onde continuamos o acolhimento mas vamos já desafiando os artistas locais a desenvolver o seu papel. É fundamentalmente pensar esta programação em relação com o território, não só em tudo aquilo que são as áreas do Vila Flor mas também no diálogo com a cidade para criarmos um espírito de complementaridade.

A relação que têm com a cidade é fácil, é distante, como é?

É de conquista. Nunca está acabada. É uma relação de crescimento conjunto. É também uma relação de grande satisfação por sentir que parte daquilo que nós propomos é validado pela própria cidade. Esta relação é cada vez mais fundamental num tempo em que se fala muito das cidades criativas, a qualidade de vida e a questão das escalas. Num tempo de globalização é importante que uma cidade tenha esta capacidade de ser muito diversificada na sua forma de ser vivida. Nós temos muito este pensamento sobre a cidade, sobre quem somos, como fazemos e como pretendemos transformar este território. No fundo, a nossa programação é proponente e isso sugestiva-me um caminho que se deve desenvolver. Como é que se antecipa o futuro? Porque no fundo é isso que as artes fazem, preparam o mundo para a mudança, para a incerteza. A experiência que as artes possibilitam às pessoas é essa relação com o desconhecido e a forma como nos preparamos para esse desconhecido. É antecipar uma vibração, uma ideia de construção do que vem para ficar. É fundamental fazer esta leitura na mobilização da cidade mas também estar atento aos focos de criação que vão surgindo, por vezes mais marginais, e sem querer desvirtuá-los tentamos ajudar à sua estruturação. Esta relação com a cidade é cada vez mais desafiante porque a cidade é cada vez mais exigente com o que nós fazemos.

No ano passado, o Westway Lab Festival diferenciou-se pela aposta na criação. Isso está relacionado com essa preparação do futuro?

Tem. Na próxima edição vamos conseguir apresentar projectos ainda mais contundentes desse estado de espírito. Vamos lançar desafios a alguns núcleos, juntá-los e desafiá-los a um encontro inesperado e um resultado inesperado. O Westway Lab tem três vertentes e uma delas passa pelas residências artísticas. Das quatro residências artísticas feitas cá em Guimarães em 2016, duas delas passaram de bandas efémeras a projetos permanentes. Este ano vamos ter um ciclo no Café Concerto só com as bandas de Guimarães, um momento para documentarmos esta efervescência criativa que a cidade está a ter com várias bandas de diferentes estéticas. A ideia é que a partir de Guimarães se olhe para o que a cidade diz ao mundo. Um poder de emancipação que cria valor e, acima de tudo, acho que cria uma auto-estima e uma coesão na cidade muito forte. Guimarães tem uma escala muito interessante para manter essa criação de uma forma muito original.

Porquê?

As cidades atravessam um fenómeno da invasão dos “parques temáticos”. Criam uma confusão entre a linha do que é o entretenimento e aquilo que é um evento artístico. O papel das artes é remetido para o fundo do corredor quando tens esta invasão de entretenimento. Quando tens uma cidade que consegue equilibrar alguns desses momentos com projectos muito mais arrojados e artísticos necessariamente controlas essa uniformização do gosto. Historicamente, Guimarães tomou conta da sua parte monumental, do seu património material e o que está a construir é o património imaterial, ou seja, é o outro lado do investimento. Não queremos cair na tentação de ter uma programação que seja consensual. A intenção é que seja disruptiva e provocatória que traga artistas com uma dimensão quase cosmológica mas que também artistas emergente tenham o seu espaço.

O que podemos esperar de 2017?

Estamos a reforçar o lado de dianteira que a cidade tem de ter. Em 2016, tivemos a estreia do Ewan McGregor que é um super coreógrafo. E vamos continuar a investir na ideia de Guimarães promover momentos e espetáculo que são únicos, muitas vezes provocando a vinda de pessoas que são de Lisboa e do Porto.

Em 2016 tivemos a maior afluência de sempre em quase todos os festivais. A ideia agora é solidificar do ponto de vista da influência que estes eventos pode ter e o objetivo é desafiar a cidade, as escolas, as associações. Vamos reforçar o papel da música. Vamos lançar o ciclo das bandas de Guimarães, não por simpatia, mas porque sentimos de facto que há um bom conjunto de bandas com qualidade. Vamos continuar a ter alguns concertos internacionais de artistas fortes quase em datas únicas.

O Teatro Oficina há de ter um papel mais interventivo na cidade. Tem um novo programador artístico, que é o João Pedro Vaz, que vai trabalhar na relação da programação com o território. Uma das coisas que queremos para este ano é que o papel do teatro seja mais forte. Para nós é fundamental esta relação com o público potencial que existe na cidade, desde as oficinas, o teatro amador e a escola de teatro na Universidade do Minho.

Obviamente, reforçar o papel da dança contemporânea e o  Centro de Criação de Candoso vai ter um papel cada vez mais fundamental no acolhimento de residências artísticas e queremos fazer com essas residências tenham momentos de abertura na relação com a cidade.


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