Revista Rua

Apreciar. Instagram

Sair de casa com uma foto na mão

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

Nos últimos anos houve uma revolução na fotografia de rua associada à evolução tecnológica. Criaram-se novas máximas, novos estilos e as fotografias, outrora escondidas, revelam-se mais intimistas, mais simples. As tuas fotos são enquadramentos urbanos -  postais das ruas que contam histórias dos sítios.  As tuas fotografias encontram-se neste novo espaço onde se fotografa o mundo mais cru?

No Instagram publico apenas fotografias tiradas com telemóvel e essas acabam por ser diferentes das que tiro com as restantes máquinas – analógicas ou digitais – que reservo para o flickr ou para o tumblr. Pela sua portabilidade, a câmara do telemóvel é a única que anda sempre comigo e, por isso, é com ela que registo a maior parte das coisas que me chamam a atenção numa base diária. Mas o resultado daquilo que fotografo é, também, necessariamente diferente pelas características da lente e pela dimensão do ecrã. Não compreendo a opção de partilhar no Instagram fotografias que não foram tiradas com telemóvel – eu só quero ver num ecrã pequeno aquilo que foi pensado para ser visto num ecrã pequeno. Procurei adaptar-me às especificidades deste tipo de fotografia e montra, registando cenários mais simples, com menos informação. Creio que fui também influenciada pelas fotografias dos instagramers que comecei a seguir e a admirar, mostraram-me um potencial que inicialmente não previra. Antes do telemóvel, fotografava muito menos os espaços urbanos – por isso, nesse sentido, sim, posso dizer que as minhas fotografias são também um resultado dessa evolução tecnológica de que falas.

 

Sais à rua para fotografar ou as fotografias saem do bolso do teu dia a dia?

Faço as duas coisas. As fotografias do meu Instagram são, na sua maioria, fotografias casuais, mas também saio à rua com o propósito de fotografar, seja porque tenho um determinado projeto em mente, seja porque decidi explorar uma zona particular da cidade. E aí gosto de levar outras máquinas comigo.

 

As pessoas misturam-se nos objetos das tuas fotografias. Quando é que o fator humano entra no teu universo imagético e qual a importância que lhe atribuís no teu processo criativo?

Nas fotos do Instagram, o corpo humano surge geralmente quando (des)equilibra o cenário; surge em contraste ou em diálogo com o enquadramento e é muitas vezes um fator chave da composição. O jogo com as escalas funciona particularmente bem num ecrã de telemóvel – e esse foi talvez o ensinamento mais revelador do Instagram. Nas minhas fotografias prévias, o fator humano já tinha muita preponderância, mas muito mais numa estética intimista, de interiores, de retratos.

 

Uma cidade dentro de uma estação do ano que gostasses de fotografar?

Não sei responder, não penso nas fotografias assim. Muitas vezes os lugares que me parecem mais fotogénicos nem são urbanos, mas aqueles lugares-a-caminho-de-lugares que vejo pela janela, junto à linha de comboio. Tantas vezes tenho vontade de me apear numa estação qualquer e voltar atrás, em busca do que vi uns metros ou quilómetros antes. Ainda hei de cumprir este desejo adiado: escolher terras ao calhas e percorrer áreas entre elas, a pé e de comboio, só para fotografar. 


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