Revista Rua

Apreciar. Minhotos pelo Mundo

Saudades de casa na capital dos encantos medievais

Filipa Santos Sousa

Texto: Filipa Santos Sousa |

Praga é frequência assídua nos roteiros turísticos europeus devido ao seu charme ancestral. Durante muito tempo, a cidade integrou as rotas comercias que passavam pelo Velho Continente, contribuindo para a riqueza e crescimento da urbe. Os imensos cantos e recantos medievais da capital checa sobreviveram ao passar dos anos; sobreviveram às Grandes Guerras e até aos nazis. Natural de Barcelos, Pedro Cunha mudou-se para este polo histórico e arquitetónico há mais de três anos, trabalhando como analista de suporte para uma empresa estadunidense. “O que me levou a sair foi uma necessidade de aventura, de mudança e evolução”, conta.

Com um Mestrado em Ciências da Comunicação, pela Universidade do Minho, o jovem esteve a viver em Lisboa e contactou de perto com o ambiente boémio e cosmopolita da capital portuguesa. Ora, a experiência de Erasmus na Bélgica, aliada ao frenesim cultural a que se habituara, culminou na sua saída do país. Quando surgiu a oportunidade de se mudar para a República Checa não hesitou. Mas mesmo com uma vontade imensa de triunfar, a adaptação revelou-se um processo complicado. “Quando cheguei senti, definitivamente, uma diferença cultural. Deparei-me com um idioma desconhecido, uma abordagem, por parte das pessoas, bem mais controlada do que a nossa, uma forma de agir e pensar que me era alheia e estranha”, confessa.

Naturalmente, as adversidades iniciais foram-se dissipando graças à presença crescente de portugueses em Praga. Pedro começou a desfrutar mais da cidade e dos seus prazeres, a sentir o legado do seu passado tão rico em vários níveis, ou não estivesse ligada, por exemplo, a nomes incontornáveis da literatura como Franz Kafka. Das ruas e ruelas estreitas, das colinas sem fim – a fazer lembrar Lisboa –, é difícil experienciar indiferença ante este cenário: “É uma cidade lindíssima, saída de um conto medieval, cheia de estórias para contar. Uma cidade que tem muito valor histórico, onde existem imensas atividades. Também é bastante cultural. Sem dúvida, os três pontos de visita a não perder são a Ponte Carlos, o Castelo de Praga e o Relógio Astronómico”.

As diferenças culturais, as gentes menos afáveis e o frio e rigoroso inverno (que sem o ser tanto como o da saga Game of Thrones, também deixa as suas mossas) não minoram, contudo, as experiências e memórias únicas. Na verdade, as barreiras linguísticas contribuíram para a vivência de episódios caricatos. “Lembro-me de um dia ter marcado uma consulta no departamento de stomatologie, a pensar que se tratava de algo direcionado para o estômago. Porém, quando cheguei à consulta, reparei que era um dentista”, graceja.

Como um bom filho pródigo a sua casa torna, Pedro Cunha entendeu que estava na hora de regressar; chegou a altura de rever os amigos e a família. “Aprendi com o tempo a não fazer comparações: nunca o país que me acolheu será como Portugal, isso não significa que seja melhor ou pior. É simplesmente diferente”, salienta. Em setembro, este minhoto pelo mundo deixou de o ser, para assumir novamente o papel que lhe é mais querido: o de minhoto em casa!


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