Revista Rua

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Som um manto de luz

Nuno Calisto está na rua

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

@nuno.calisto

 

 

 

 

 

A rua pode ser uma casa, uma outra casa. As tuas fotos revelam ruas em forma de abrigo. São um sítio onde podes ensimesmar-te?

Sem dúvida. As ruas são nossas, fazem parte da nossa vida, do nosso dia a dia. Acho que nos esquecemos delas por serem algo que por vezes usamos como piloto automático diário. Gosto de parar, de olhar, de ver a luz delas e da maneira como nelas nos inserimos e comportamos. Tento ao máximo, todos os dias, depois de chegar a casa do trabalho, tirar umas horas para pegar na câmara e ir fotografar por aí. Não só porque gosto de fotografar, como é terapêutico para mim. Respirar, ver uma boa luz e disparar.

A luz  e as sombras contornam os teus objetos e as tuas personagens. É essencial este contraste imediato?
                    
O contraste sempre me chamou muito à atenção, entendo-o como uma forma de equilíbrio. Como vejo isso dessa maneira, inconscientemente passei-o para a fotografia. Obviamente tive as minhas influências e inspirações mas sempre tentei que tudo fluisse naturalmente e isso aconteceu pouco tempo depois de me dedicar realmente à fotografia.

É nos rasgos de luz que revelas a tua essência?                    

Sim. A luz é incrivelmente importante em muitas coisas e principalmente na fotografia. Como disse anteriormente, tento sempre sair ao máximo para fotografar, dentro do possível, mas não para não perder prática ou porque faz bem mas porque preciso disso, porque ando sempre em busca daquela luz incrível  que mexe comigo.
                    
Percorremos a tua página e em poucos segundos sentimos que entramos numa dimensão paralela. É esse o teu objetivo como fotógrafo?

            
Não é esse o meu objectivo principal, mas é óptimo saber que posso proporcionar isso. Saber que as minhas fotografias provocam sensações nas pessoas é bom, mas como fotógrafo só quero continuar a fotografar e alimentar este gosto de conseguir “uma ‘ganda’ chapa”. Obviamente, no campo profissional, as coisas não são assim, estamos restristos a regras que naturalmente teremos de cumprir. Se fizesse fotografia de recém nascidos duvido que as fizesse a preto e branco e com um contraste gigante. Gosto obviamente do mundo que crio com coisas que às vezes são mesmo simples. Gosto de pegar no banal e dar-lhe outro ar, outro peso ou outro sentido e gosto que, acima de tudo, as imagens sejam no final aquilo que eu vi na hora. Os meus olhos não viram a preto e branco, nem com aquele contraste, mas na minha cabeça, foi assim que a imagem foi criada.

Uma rua onde pudesses passar um dia a fotografar, a cores.

Nenhuma em específico. Não é isso que me puxa e motiva a fotografar. Valorizo-as todas, todas têm algo incrível para mostrar, basta estar receptivo. Eu não torço o nariz a becos ou ruas mal cheirosas, assim como não parto do princípio que uma rua em Paris com vista para a Torre Eiffel vai dar uma grande foto. A fotografia é muito mais que isso, daí considerar que vou ser sempre aprendiz, por mais experiência que venha a ter.

 


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