Revista Rua

Saber. Reportagem

Teremos sempre Coura

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Um festival de memórias. Há 25 anos, uma ideia arrojada dum grupo de amigos que queria dar vida à terra que os viu nascer transformou uma pacata vila do Alto Minho, sem tradição de sarrabulho, numa autêntica Meca da música independente. Paredes de Coura era paisagem. Hoje, é destino onde toda a gente quer ir. Um cenário de amor junto à praia fluvial do Taboão. 

[Fotografia: Hugo Lima ]

Ainda falta um mês para Paredes de Coura vestir-se a rigor para receber, de braços abertos, os peregrinos em busca da música como redenção. Mas há muito que os sinais de “arrenda-se quarto” escasseiam na tranquila vila do Alto Minho. Essa procura, principalmente aos fins de semana, dá ânimo à terra que parece viver na sombra de Viana do Castelo e Ponte de Lima. Os habitantes, aqueles que sobrevivem à tendência de emigração, recebem cada um dos visitantes com um sorriso no rosto e um brilhozinho nos olhos, como quem vê voltar o filho querido que tinha partido. De repente, as ruas enchem-se de conversas entre gerações, falando-se de música – claro –, de cinema, de arquitetura e da vida que passa calma, desde agosto passado. Há rostos conhecidos, reencontros inesperados e avisos de quem conhece Paredes de Coura como as próprias mãos: onde comer à vontade, a quem comprar a melhor fruta, como encontrar a melhor sombra. São vislumbres de juventude, num lugar mágico com banda sonora própria. Em 25 anos, não há sinais de abrandamento. Nem que a vida aconteça e a alma envelheça. “O meu sítio é Coura”, afirma-se. 

 

O despertar da vila

O anfiteatro natural que parece engolir o palco mostra-se, imponente, como um cenário pintado por Deus. Aquele refúgio mágico com o rio aos pés é hoje cartão postal de uma terra que, há 25 anos, dizia-se esquecida no mapa de Portugal. Em 1993, o amor a Coura inspirou uma lufada de ar fresco, mesmo à beirinha da praia fluvial que acabava de ver a sua beleza restituída. Nas margens, a assistir a um concerto de fado, estava um grupo de jovens cansados de não ter “nada para fazer” na vila que lhes estava no coração. “E se fizéssemos aqui qualquer coisa para a malta da nossa idade?” A pergunta foi de João Carvalho, que prontamente aproveitou a presença do Presidente da Câmara para acertar as ideias, as verbas e as datas. Uma semana depois. “Só hoje percebo que uma semana não dá para planear nada”, diz, sorridente, o diretor do festival, numa pequena viagem ao passado interrompida, vezes sem conta, pelo vibrar incessante do telemóvel. Ossos do ofício. “Quando nós começámos, o objetivo não era fazer um festival, era fazer apenas qualquer coisa para passar o tempo”, conta-nos. Com o “nós”, João refere-se a um grupo que, mesmo com os caminhos que os separam, continuam a ter Coura em comum. “Teremos sempre Coura”, afirma, orgulhoso, falando-nos dos sonhos de terminarem em Coura, todos juntos, na mesma casa. Fala de Vítor Paulo Pereira, o Presidente da Câmara de Paredes de Coura desde 2013, de Carlos Loureiro, engenheiro com um verdadeiro império de empresas de construção civil em Angola, de José Eduardo Martins, ex-secretário de Estado do Ambiente, de Tiago Brandão Rodrigues, investigador e atual ministro da Educação – que conheceu António Costa naquele recinto, há uns anos -, de José Barreiro e Filipe Lopes (ainda hoje ligados ao festival, juntamente com João). Era este o grupo de amigos que, ainda hoje, tentam guardar um tempinho na agenda para marcar presença em Coura nos dias de festival. “Quando olho para o retrovisor da vida, sinto contentamento e vaidade por aquilo que alcançámos. Não perdi o entusiasmo! Todos nós temos pensamentos antes de dormir, em que procurámos coisas agradáveis para adormecer melhor. Os meus pensamentos são quase sempre Paredes de Coura! A minha esposa até diz que penso mais em Paredes de Coura do que na família e, por muito que isso me chateie, acho que é verdade”, conclui João. 

[ D.R. ]

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“Tenham lá juízo!”

Foram 900 euros e uma motivação digna de prémio para trazer a Paredes de Coura muito mais do que os sons da natureza. “Hoje, a música alternativa lidera as preferências dos festivais, mas no nosso início não havia festivais deste género. Não estou a dizer que inventámos a música alternativa nos festivais, mas digo seguramente que nunca nos prostituímos em relação a esse conceito. Acho que as pessoas sentem um carinho especial por Paredes de Coura por verem que sempre fizemos tudo para superarmos todas as barreiras. Adoro quando me abordam e dizem que têm respeito pelo festival”, afirma João Carvalho. Para falarmos das dificuldades, temos obrigatoriamente de recordar o chuvoso ano de 2004. Dias e noites de temporal destruíram o palco, aluíram o terreno e levaram ao cancelamento de concertos. O prejuízo foi descomunal. “O palco desabou, a segurança dizia que era melhor acabar o festival, o dono do palco dizia que o aluimento de terras podia levar a que o palco principal caísse, o senhor do PA dizia que podia haver um curto circuito... e nós batíamos com a mão na mesa porque tínhamos milhares de pessoas no festival e não queríamos que fossem embora daquela forma. Arranjámos alternativas, tentámos resolver os problemas... Num ano que já seria de prejuízo, gastámos muito mais! Essa é a magia de Paredes de Coura. Os anos de chuva trouxeram corpo ao festival e as pessoas não ficaram indiferentes. Mas, por muitas edições com chuva que tivéssemos, nada se assemelharia ao ano de 2004”, garante João, acrescentando: “nós não tínhamos outro emprego, os nossos pais já estavam no limite das hipotecas e já nos diziam ‘tenham lá juízo!’. Nós só pensávamos: se tivermos de passar o resto da vida a trabalhar na construção civil na Suíça, passaremos. Mas vamos tentar continuar. E o que fizemos depois de 2004? A super edição de 2005, o ano de Arcade Fire, Nick Cave, Pixies, The National, Queens of Stone Age e Foo Fighters”, relembra João. “Pagámos 20 mil euros a Arcade Fire, uma banda que atualmente cobra mais de meio milhão. Tudo o que se diz sobre aquele concerto não é exagerado. Foi apoteótico! Foi a sensação de passar um tufão positivo e deixar-te de boca aberta a perguntar: o que foi isto?”. Naquele ano, a magia da música mostrou que tudo podia acontecer em Paredes de Coura. 

“Coura é amor!”

Há uns tempos, João Carvalho recebeu uma mensagem no Facebook. Podia ter sido um pedido de algum conhecido da terra, como tantas vezes João recebe. Um pedido de convite, um pedido de passe para o carro, um pedido de um ‘empregozinho’ para o filho. “Quando fazes um festival na tua terra, onde toda a gente se conhece e onde toda a gente precisa de qualquer coisa, é um bocado complicado”, diz João. Mas não era um pedido qualquer. Era um homem apaixonado, da baixa de Lisboa, com um apartamento de sonho, a aguardar a chegada da sua amada. A mobília estava no seu devido lugar, o amor também. Só faltava o pormenor que iria emocionar o coração da esposa: o poster da edição de 2011, ano em que se conheceram no festival. “Conheço dezenas de histórias dessas, histórias que me enchem a alma!”, revela João. “É por isso que eu adoro aquela mítica frase ‘Coura é amor!’. É a expressão que melhor define o espírito do festival”, comenta, referindo-se ao título de um artigo escrito por Pedro Trigueiro, agente de diversos artistas, há mais de dez anos.

Com o rio como convite a banhos – e a carinhos -, o festival Vodafone Paredes de Coura é elixir de memórias, de paixões e de amizades. Seja nos insufláveis que pousam nas águas do rio Coura, seja nas sombras que escondem o sol que agosto traz – que todos querem que seja radiante naqueles dias de música –, Paredes de Coura é encontro de gerações entre aqueles que descobrem os encantos da vila pela primeira vez e aqueles que, há 25 anos seguidos, marcam presença. “Às vezes, as pessoas vêm ter comigo e dizem-me que o festival já não é o que era. Eu só respondo ‘Pois não, é cem vezes melhor’. As pessoas têm tendência para envelhecer e depois já não têm paciência para as mesmas brincadeiras que faziam quando eram novas. Eu acho que o problema é o sentimento de perda. Com a vinda de pessoas mais novas – que são muito melhor comportadas do que nós éramos na nossa altura -, a geração inicial do festival vê que Coura já não é só deles. Mas a meu ver, o festival está melhor, está mais bonito! Ah, e já não há chatos com cornetas na zona do campismo e afters até às 10h da manhã que não deixam ninguém descansar”, relembra João.

Como comemorar 25 anos?

Para além do incontornável bolo, João Carvalho já tem algumas ideias que lhe surgiram naqueles momentos antes de dormir. “Lançar balões iluminados a desenhar qualquer coisa no céu? É possível isso?”, questiona João, entre gargalhadas. Não sabemos o que a criatividade de João lhe vai trazer, mas em relação ao festival em si, já está tudo delineado: “De acordo com os estudos de opinião, o sucesso das nossas infraestruturas é de 90%. Mesmo assim, vamos melhorar aquilo que os festivaleiros acham que já está bem. Nesta edição, criámos uma zona de alimentação nova e uma zona de campismo com mais comodidade e zonas de descanso. Criámos também uma zona maior de chuveiros e as casas de banho já estão todas ligadas ao esgoto, algo que nenhum festival consegue ter. Na entrada, retirámos a zona dos patrocinadores e da imprensa porque achámos que as pessoas têm de sentir a natureza mal entrem no recinto, mesmo isto sacrificando o investimento das marcas”, afirma João, acrescentando que não tem grandes dúvidas de que o festival vai esgotar este ano. “Esperamos ter mais gente do que em 2015, que foi quando esgotámos a primeira vez”. No cartaz, de 16 a 19 de agosto, os repetentes Mão Morta (banda que mais vezes atuou no festival) e Nuno Lopes (vestindo a pele de DJ em after-hours), Future Islands, Kate Tempest, King Krule, Nick Murphy (Chet Faker), Timber Timbre, Beach House, White Haus, Foals, Benjamin Clementine, Manel Cruz, Toulouse, You Can’t Win, Charlie Brown, entre muitos outros. É caso para dizer, como gritaria aquele grupo de amigos em 1993, o nosso sítio será sempre Coura. 

[ João Carvalho, diretor do festival, à direita ]

 


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