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The Legendary Tigerman: o homem que persegue o sonho de se tornar em nada

Redação

Texto: Redação |

Um homem que persegue o sonho de se tornar em nada. Um homem desprotegido e indefeso na imensidão de um deserto californiano que parece engoli-lo a cada passo. Um deserto perigoso num tempo em que parece ser impossível desaparecer. How To Become Nothing é um diário ficcional que junta Paulo Furtado, Pedro Maia e Rita Lino numa tentativa de desconstruir o modo de conceber um disco. Um projeto que antecipa o novo álbum de The Legendary Tigerman, mas que ocupará os palcos portugueses em cine-concertos antes de aparecer nas telas das salas de cinema. O primeiro palco escolhido é o da Black Box do gnration.

How to Become Nothing apresenta-nos o rumo dos seus projetos para 2017. Qual é o conceito lógico deste trabalho?

No fundo, para explicar este projeto, preciso de ir um pouco atrás no tempo. No momento em que começo a pensar no que vou fazer com o meu novo disco e qual o caminho que vou escolher para a composição, chego ao Pedro Maia e à Rita Lino, coautores deste projeto. Depois do álbum True, não queria voltar a escrever sobre mim e fazer um disco autobiográfico. Decidi então, de certa forma, inverter o processo de criação de um disco. Ou seja, por regra, começa-se pela música e depois passa-se para a parte da fotografia ou dos videoclipes. Eu decidi começar ao contrário. Ao início, a minha ideia era fazer uma curta metragem numa road trip pela Califórnia, junto ao sítio onde ia gravar o disco, no Rancho De La Luna, um estúdio de gravação em Joshua Tree. De certa forma, queria que a música fosse composta quase totalmente nessa viagem, que foi o que aconteceu. Mas, se não fosse possível, essa viagem ia, pelo menos, inspirar a parte de fotografia e a eventual curta metragem. No entanto, as coisas cresceram de tal maneira que ultrapassaram em grande escala aquilo que primeiro se tinha idealizado. Na preparação da curta metragem, chegamos imediatamente a conceitos muito sólidos em relação a esse road movie, em relação a este homem, que seria um homem que, por um lado, poderia partir daquilo que é este personagem musical a quem chamamos The Legendary Tigerman, mas que, por outro lado, para quem não conhecesse a minha música, poderia ser um personagem qualquer, que não tivesse nada a ver com a música e que não fosse minimamente conotado como músico ou artista.

 

Podemos assumir que este filme antecede todos os projetos que tem na manga para 2017? Quais são as suas expetativas para este ano?

A minha grande expetativa é que todas estas coisas aconteçam. Que se tornem reais. Neste momento, com o filme, começamos com este formato em que eu toco ao vivo a banda sonora e o Pedro manipula algumas partes da rodagem. Mais tarde, o filme irá estrear em sala de cinema, na sua versão finalizada. Irá existir ainda uma exposição/instalação em torno do trabalho da Rita, que não é tão mostrado no filme por ser fotográfico, obviamente. Em torno disso, irá surgir um livro e um catálogo. E, depois, em setembro, será o lançamento do disco. Esse será o momento em que todas estas coisas se cruzam. No fundo, tudo isto acabou por ser um modo de desconstruir um disco. Um disco como sendo parte de um objeto artístico, o que para mim é algo muito maior do que fazer um disco.

O que tem reservado para o concerto no gnration?

O que posso dizer é que isto só aconteceu ainda duas vezes. Uma estreia que funcionou como working progress, apresentado no Curtas de Vila do Conde, que desde o início acreditou neste projeto e foi um dos patronos, e depois aconteceu em Santiago de Compostela, num festival de cinema. Esta será a primeira vez que vamos fazer, em Portugal, o cine-concerto como ele será daqui em diante. Isto não quer dizer que todos os cine-concertos serão iguais, porque essa é a particularidade do cine-concerto. Aliás, acho muito importante as pessoas assistirem, neste momento, ao cine-concerto, porque depois, com o filme finalizado em sala de cinema, será uma coisa diferente: terá cenas que, por exemplo, o cine-concerto não tem, terá cenas de montagens que nunca são iguais de cine-concerto para cine-concerto...  As cenas montadas pelo Pedro serão sempre diferentes de cine-concerto para cine-concerto, daí ser uma mais valia ter essa montagem ao vivo – o Pedro a influenciar-me e a música a influenciá-lo.  É um espetáculo bastante diferente. Não é exatamente um concerto, não é exatamente um filme com uma montagem fechada. É algo intermédio. Isso é algo que eu tenho explorado... explorei, por exemplo, com a Rita Redshoes, no Estrada de Palha, do Rodrigo Areias, e foi incrível. De repente, levámos as pessoas a ver filmes portugueses e a ver uma data de coisas a acontecer de uma maneira também bastante diferente do que é habitual. Este conceito, para mim, é muito interessante! Interessa-me muito explorar esta ideia de não ser exatamente um concerto ao vivo, mas também não ser uma projeção estática de um filme. É algo intermédio. E estamos muito entusiasmados com isso. Estamos muito felizes e orgulhosos daquilo que fizemos.

 

[Leia a entrevista na íntegra na edição de fevereiro da RUA]
 

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