Revista Rua

Apreciar. Música

Três pinguins ao sol

Numa entrevista solta e divertida, o trio de Guimarães This Penguin Can Fly fala à RUA de tudo, desde o seu primeiro álbum, Caged Birds Think Flying Is A Disease, às influências de Van Damme.

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

O que querem que vos pergunte?
Zé -  Açaí ou gengibre? (risos)

Açaí ou gengibre?
Zé - Para mim açaí.
Márcio - Açaí.
Miguel - Eu vou mais para os bolos.
Zé - Ganha o açaí 2-0.

Como surgiu o nome da banda?
Zé - Eu , o Miguel e o Joca, nosso antigo baixista, já tínhamos tudo  definido, música, temas e timings para lançar o EP, mas não tínhamos nome ainda. No brainstorming mais estúpido de sempre, começámos a lançar cenas fofas ao ar: bandas, pinguins, coalas, entre outras coisas fofas. A uma certa altura eu disse flying penguins e o Miguel disse this penguin can fly e ficou.

Porquê o formato musical? Alguma vez pensaram em usar voz nas vossas músicas?
Miguel - No início ensaiava apenas com o Zé. Íamos fazendo uns riffs de guitarra e quando percebemos tínhamos dez músicas sem voz. Foi algo que surgiu naturalmente.
Zé - Já pensámos em usar voz, até já usámos voz num EP, mas somos preguiçosos demais para estarmos a fazer letras e chegámos à conclusão que este género de música mais instrumental - chamado Post Rock - assentava-nos bem! Talvez num próximo disco possamos ter voz.

Qual a história do vídeo “All Polar Bears Are Left Handed”?
Miguel - Um dia, o Élio Mateus, realizador e argumentista do vídeo, assistiu a um concerto nosso. No final gostou tanto dessa música que se ofereceu para gravar o vídeo.

Quantos singles têm até agora?
Zé - Temos três. Dois singles do nosso EP, “She Builds Origamis” e “El Paso” e outro single solto “All polar Bears Are Left Handed”. Este ano, já lançámos um single de avanço para este álbum, no dia 29 de janeiro, “Ailisi”, e quando o disco sair vamos lançar o segundo single, a música “Sangre”, tema de abertura do álbum.

Em 2015, lançaram o single “All Polar Bears Are Left Handed”. Agora, em 2017, voltaram aos originais. Por onde andaram este tempo? Faz parte do processo criativo?
Zé - Lançámos esse single em dezembro de 2015. Ainda demos concertos até abril e a partir de maio de 2016 fechámos os concertos para compor temas. O estúdio demora sempre meses, para gravação, mistura, etc. Para compor e gravar demora, em estúdio, cerca de oito meses.

Como é que vocês constroem uma música do início ao fim?
Zé - Antes de chegarmos aí, há um dado que eu acho que é importante, que é a entrada do Márcio. O Márcio entrou quando as músicas já estavam compostas e fez os arranjos de baixo das músicas todas em tempo recorde. Isto para dizer que daqui para a frente o nosso processo de criação vai ser diferente do que era antes.
Miguel - Basicamente, eu aparecia com uma ideia e o Zé metia a bateria. Depois, cada um dava uma opinião e estruturávamos melhor, mas a base era sempre a guitarra. Agora acho que vai mudar.

Podemos dizer que o Márcio veio trazer uma vantagem mais técnica à banda?
Miguel - Eu acho que sim.

Vocês têm formação musical?
Zé - Só o Márcio é que tem.

Ter um membro com formação musical traz mais equilíbrio à banda?
Zé - Existem muitas bandas em que todos os membros têm formação musical. Sinceramente, neste mundo Rock, teres formação por vezes é uma prisão.  Estás muito virado para aquele lado e não ouves outras coisas. Há uma coisa que perdemos com o Márcio, o swag. O Joca tinha muito swag. Ao vivo era extraordinário e as miúdas gostavam imenso dele. Ainda não sabemos como é que vai ser a aceitação do Márcio, mas uma coisa é certa, tem muito menos estilo! (risos). Em contrapartida, ganhamos groove e swing, algo que não é muito comum no Post Rock. Faz-nos partir para outros lados, descobrir novos elementos.
Miguel - A primeira vez que ouvi o álbum com os baixos gravados fiquei aterrorizado. É completamente diferente. Pensei: “isto não pode ser”. Só depois de ouvir muitas vezes comecei a entranhar.
Zé - Muda muita coisa, mas num bom sentido. O Márcio elevou a banda em 25 patamares. Estamos com outro feeling. Para este género de música é muito bom porque, por aí, conseguimos marcar a diferença.

Alguma música que seja especial para vocês?
Zé - Este é o disco que queríamos lançar.
Márcio - O que faz este álbum ser tão especial é o facto de se juntarem pontos completamente divergentes numa unidade. Por exemplo, eu vou buscar muita coisa ao Funk, como Jamiroquai, Earth Wind and Fire e consegui transpor esse estilo para uma banda de Post Rock.

O que é que vocês ouvem? Alguma banda que vos sirva de pano de fundo para as vossas epopeias musicais?
Zé - Somos muito diferentes os três. Eu ouço música mais alternativa, o Miguel mais Rock e o Márcio Funk. Mas encontramos um ponto comum, é uma história engraçada. Uma das bandas de Post Rock que eu gosto mais, os Russian Circles, foi o Márcio que me mostrou e eu dei a conhecer ao Miguel. De resto, temos muito pouco em comum, mas acho que isso só pode ser fixe. O Miguel traz a parte mais pesada da música, o Márcio traz o groove e swing e eu o barulho.

Qual o rótulo musical que se aproxima mais daquilo que vocês fazem?
Zé - Quando lançámos o nosso primeiro EP fomos imediatamente conectados ao Post Rock. Só por ser instrumental. Mas o Post Rock é algo muito melancólico, muito triste, no fim sobe e arrepia-te todo. Nós fugimos muito disso. O nosso disco é completamente energético, transversal e groove, e com ele querem fugir a essa etiqueta do Post Rock e passar a ser apenas Rock instrumental. Nós queremos ser Kizomba progressivo (risos).
João (manager) - Rock instrumental numa versão mais dançável, mais tropical. Um Rock instrumental para se ouvir na praia.
Zé - Nos nossos temas temos Samba, Bossa Nova, um monte de estilos que se misturam.


Todo o disco parece uma banda sonora. Existe uma certa sequência cinematográfica de referência no álbum?
Zé - Como é música instrumental leva-nos a imaginar algo mais do que se tivesse letra.  Começamos o disco com a “Sangre”, uma raiva imensa, uma vontade muito grande de deitar tudo cá para fora. Depois, o resto é uma viagem que acaba em festa, o último tema é um adeus em forma de som.  

Por falar em viagem. O vídeo da música “Ailisi” foi todo filmado na China. Querem contar essa história? Foram à China?
Zé - Não fomos à China. Subcontratámos a Sara Dias, que vive na China, para fazer as filmagens, o resto foi editado cá pela Mónica Dias.

Porquê a China?
Zé - A música “Ailisi” tem um riff de guitarra que sempre nos remeteu para um mundo mais oriental. Aproveitamos o facto da Sara viver na China e filmar muito bem para lhe pedir que filmasse para nós.

Este disco é a vossa primeira ‘longa metragem’. O que esperam alcançar e onde esperam chegar?
Zé - Acima de tudo queremos que as pessoas gostem, tocar muito e ter muita gente nos concertos. Gostávamos de tocar em Paredes de Coura (risos). Já tocámos em Lisboa e esperamos regressar, mas temos como grande objetivo para este disco, começar a tocar lá fora, nomeadamente em Espanha. Acho que o nosso som se pode inserir muito bem no mercado espanhol. Quando não tens voz, apesar de todas as desvantagens por não ser radio friendly, temos a vantagem de a linguagem ser mais universal.

Não pude deixar de reparar que há uma música no álbum que se chama “Van Damme”. Alguma analogia com o mestre de artes marciais?
Zé - Tudo a ver. O Van Damme foi o centro de tudo. Ele tem um filme em que deita um pinheiro abaixo com um pontapé.
Miguel - Os filmes do Van Damme da década de oitenta e outros do género tinham sempre um baixo muito característico. A música “Van Damme” começava com um baixo que fazia lembrar esses filmes.
Zé - E como nós somos estúpidos, pensamos nesse nome e ficou.

 

 


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