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Saber. Entrevista

UMinho, o poder da autonomia

António Cunha, Reitor da Universidade do Minho e Reitor dos Reitores é defensor convicto de mais autonomia para as Universidades Públicas. Repudia as praxes, “sobretudo práticas de humilhação” dizendo que sempre fez tudo para as “limitar, condicionar ou inibir”.  A Fundação e a sua nova realidade: nada se perde. Tudo se ganha.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Fundação. Universidade Pública. Praxes. Em todos os temas, António Cunha, Reitor da Universidade do Minho desde 2009, fala sem filtros e com grande convicção. As palavras fluem num pensamento articulado dando grandeza ao edifício da Reitoria, no Largo do Paço, em Braga. Defensor da Universidade Pública, refere que sempre teve a convicção que as universidades devem ter mais autonomia para cumprirem os seus diferentes desígnios e cumprirem a missão a que se propõe. A Universidade do Minho ficou pela primeira vez entre as 500 melhores instituições de Ensino Superior do mundo, segundo o “Academic Ranking of World Universities” e o seu reitor diz que Portugal não tem licenciados a mais e sempre teve a convicção que o regime fundacional só traria benefícios. Tem como objectivo atingir a meta dos 25.000 alunos e pensa que com mais autonomia e diferenciação, as universidades seriam uma aposta ganha para o país.

Ingressou na Universidade do Minho no final dos anos 70. Como vê as mudanças ao longo destes anos?

São mudanças brutais. O Ensino Superior era um ensino de elite e abrangia apenas uma pequena franja da população. Durante os anos 80 e os anos 90, o Ensino Superior cresceu atingindo percentagens que no escalão etário, neste momento, está na ordem dos 40%. Portanto, é um salto qualitativo enorme, em termos da sua abrangência mas também nas condições de trabalho, na qualidade das infra-estruturas. Os nossos estudantes, com toda a legitimidade, reclamam por melhores condições de trabalho, de melhores infra-estruturas mas as condições que hoje oferecemos, que todas as universidades oferecem, não têm nada a ver com as condições que as Universidades ofereciam no final da década de 70. 

Teve a oportunidade de conviver com o Professor Veiga Simão, um homem que estabeleceu o direito à educação num país que não era ainda uma democracia. Que legado lhe deixou?

Eu tive a oportunidade de conviver nos períodos finais das suas vidas com duas pessoas absolutamente notáveis para o Ensino Superior em Portugal. O Professor Veiga Simão e o Professor José Mariano Gago. 

Tive a felicidade de me cruzar com o Professor Veiga Simão várias vezes nos últimos cinco anos antes de ele falecer. Tive o grato prazer de lhe fazer uma entrevista longa, o que foi um exercício notável. Troquei várias impressões, visitei-o em casa várias vezes e falamos muito sobre a evolução e os desafios do Ensino Superior. Numa idade avançada que ele tinha, era uma pessoa que deslumbrava pela clareza e lucidez do seu raciocínio e pela memória que tinha de datas, acontecimentos, nomes de pessoas, de factos. Foi algo muito interessante e foi uma pessoa de quem guardo uma recordação muito grata.

Referiu, numa entrevista, que ao conversar com o Professor Veiga Simão percebeu que partilhava os mesmos desafios que já ele tinha naquela época.

A questão do espartilho burocrático da Universidade é algo que não é novo. Resulta de uma contradição que a Universidade Pública encerra dentro de si mesma. A Universidade Pública é pública e é bom que assim seja e não pode deixar de estar sujeita à transparência, equidade de prestação de contas e de algum modo ser enquadrada nas regras da Administração Pública. Mas por outro lado, uma Universidade é uma casa onde se ensina, onde sobretudo se faz investigação muito diversa e diversificada à qual é preciso reagir muito rapidamente. É feito em competição e concorrência com outras entidades nacionais e estrangeiras. As regras genéricas da Administração Pública não estão feitas para entidades com as características das universidades. Por isso, é preciso reconhecer e encontrar modos de materializar, de consubstanciar as especificidades que as universidades têm dentro da Administração Pública para encontrar o equilíbrio entre a flexibilidade que as universidades têm de ter e a flexibilidade da autonomia. É muito bom que as universidades possam ser conhecidas por serem diferentes, será muito mau para o país se todas as universidades forem iguais. O perfil de licenciado é diferente, isso é muito positivo e é uma riqueza que nós devíamos fomentar. Isso só pode acontecer se as universidades tiverem autonomia, se forem projectos que se afirmem sobretudo face aos resultados.

Daí a importância da UMinho passar ao regime de Fundação? Sempre teve a convicção que só iria trazer coisas boas.

Para mim, qualquer mecanismo que conceda maior autonomia às universidades e permita fazer uma maior afirmação da sua autonomia e da sua independência, é positivo. Normalmente, isto é conseguido entre equilíbrios complicados entre o que se ganha e o que se perde.

E o que se perde?

Eu de facto, na lei portuguesa, não percebo o que se perde. Não se perde nada e ganham-se várias questões. A instituição ganha autonomia à custa de competências que estavam no ministro e na tutela e que passam a estar num conselho de curadores. É um facto que são pessoas designadas pelo governo mas por proposta da Universidade. São pessoas que se decidiram em função da realidade e da especificidade da Universidade. Isto não quer dizer que os ministros decidam mal, mas o ministro decide a partir de uma realidade de um todo e olhando para um sistema… Volto a dizer, estou convicto que cada universidade deve ser entendida com uma entidade própria, com uma estratégia específica. As suas decisões devem ser tomadas à luz dessa missão própria, desse projecto em si que é diferente.

Acha que os ministros estão afastados da realidade das universidades?

Não tenho dúvidas que os ministros que temos tido são pessoas que tentam estar próximas da realidade. Temos pessoas que têm pelo menos essa vontade. Um ministro que tem de tomar decisões integradas para 15 universidades pensa certamente de um modo diferente de alguém que pensa sobre a sua Universidade. 

A passagem a Fundação vem aproximar a Universidade do tecido empresarial da região?

Também. Mais uma vez porque a universidade pode ser mais ágil nas suas respostas. Pode ter projectos com empresas, projectos que têm de ser desenvolvidos no quadro temporal das empresas que é muito próprio e exige por exemplo que a universidade possa contratar uma pessoa para aquela função, com aquela especificidade, durante aquele período. 

Um aluno que tenha entrado antes do regime fundacional e um que tenha entrado depois, que diferença irá sentir?

Nenhuma, nenhuma.

Será igual?

Espero eu que se sentirá diferenças seja por uma universidade que se afirma nacionalmente e internacionalmente. Genericamente, se a universidade for melhor, tiver uma maior afirmação, tiver uma maior projecção, em última análise isso revela-se como positivo para os estudantes. Mas, do meu lado rejeito liminarmente qualquer lógica que por vezes ouvimos em debates que haveria uma hipotética relação entre o regime fundacional e preços ou valores de propina. 

Que tipo de investimentos a Universidade do Minho espera atrair no ano que vem?

Quando a Universidade faz investimentos fá-lo a partir de fundamentalmente três esquemas: candidaturas a projectos específicos de investimento – neste momento são os programas do Norte 20/20 –, nesses projectos, a questão de ser ou não Fundação é a mesma coisa; a universidade pode ter projectos de investimento resultado de grandes projectos europeus que ganhe – sejam investimentos em equipamentos ou até em edifícios –, sob esse ponto de vista e de volta àquilo que lhe disse à pouco, a Fundação torna a universidade mais ágil e poderá ter mais facilidade em conseguir captar alguns desses projectos; a universidade terá alguns investimentos que são feitos a partir de verbas próprias, de verbas que consegue libertar ou verbas que consegue captar por diversas fontes de financiamento. Aí, a Fundação é algo positivo porque um dos mecanismos que é o chamado fundraising, a utilização de dádivas ou contribuições da sociedade para determinados projectos, feitas numa lógica de mecenato. Esses mecanismos são certamente potenciados pelo regime fundacional. 

A universidade tem um plano de investimentos no qual está a trabalhar, que está em preparação, que tem vindo a discutir quer com a autarquia de Braga e Guimarães, quer nos seus órgãos internos. É um projecto muito ambicioso que envolve investimentos na ordem dos 150 milhões de euros nos próximos 5 anos, são investimentos de vária ordem, quer em infra-estruturas científicas, em centros de investigação, reforçando a capacidade de investigação, investimentos na melhoria do seu parque edificado e do seu parque pedagógico. A universidade prevê o aumento do seu número de alunos, tentando nos próximos anos atingir a meta dos 25 mil alunos. Poderá faze-lo com as infra-estruturas que tem mas face às condições que gostaríamos de dar aos nossos estudantes, gostaríamos que fossem instalações mais modernizadas, mais confortáveis.

O ministro responsável pelo Ensino Superior, Manuel Heitor, tem sido um forte crítico das actividades da praxe, chegando a considerá-las uma “prática fascizante”. Partilha a mesma opinião?

Sempre tive uma opinião muito negativa sobre essas práticas. Sempre manifestei a minha dificuldade em as entender, sempre manifestei a minha repulsa por muito do que elas significam ou pelo que estão associadas; sobretudo práticas de humilhação. Sempre as tentei limitar, condicionar ou inibir e portanto, genericamente, só posso concordar com o que o Ministro diz. 

Longe de mim achar que o modo como se vive a Universidade tem de ser o modo como o Reitor acha que as coisas devem ser. Não tenho que perceber tudo aquilo que os estudantes fazem ou o modo como os estudantes entendem exprimir os seus modos de convivência e certamente que, embora não os perceba, respeito de modo muito sério formas de pensar, reagir e conviver diferentes daquilo que são as minhas.

Portanto, a Universidade é, sem dúvida, um espaço de grande liberdade e de grande liberdade de pensamento, isto é um quadro sobre o qual não pode haver dúvidas. Mas também não pode haver dúvidas que a Universidade tem uma carta de valores, uma carta de princípios. O valor da dignidade da pessoa humana é um dos princípios que está consagrado nos nossos estatutos. A Universidade tentará por todos os moldes e tem vindo a fazê-lo, impedir que nos seus espaços ocorram práticas que não são consentâneas com esses valores. Percebo a irreverência dos nossos estudantes e ficaria muito triste que a Universidade que este Reitor preside não fosse uma Universidade de estudantes irreverentes.

Já o disse uma vez, num discurso de recepção aos novos alunos. Sinto uma tristeza imensa quando vejo grupos de estudantes mais velhos a condicionar ou a obrigar grupos de estudantes mais novos a olharam para chão. O estudante da UMinho deve aprender a olhar para a frente, construir o seu futuro e qualquer lógica contrária a essa, mesmo que não seja fisicamente violenta, não é aceitável. É absolutamente intolerável haver alguém, nem que seja um aluno dos nossos 20.000 que esteja forçado a fazer o que não quer. É a minha posição sobre este assunto e é a mesma desde há sete anos desde que cá estou.

Disse que os novos alunos tinham de olhar para a frente. Também vamos olhar para a frente e falar do futuro. Tem falado bastante das mudanças do Ensino em geral e a forma como se produz novo conhecimento. A Universidade tem de ensinar a pensar? De que forma tem de mudar?

A Universidade sempre teve de ensinar a pensar. Apesar da minha juventude de 55 anos, sou de um tempo em que íamos a algumas universidades estrangeiras porque havia um livro ou uma revista naquela universidade e em mais lado nenhum. Isto foi há 25 anos, não foi há muito tempo. Algumas bibliotecas e algumas universidades eram repositórios únicos de saberes. Portanto, ter acesso à informação era uma das questões. Hoje isso não existe, a informação está disponível para todos nas bases de dados internacionais. Hoje, mais do que tudo, temos de saber o que fazer com a informação e o pensar sobre a informação. Por isso, embora a Universidade sempre tivesse de ensinar a pensar, o que é essencial é o que fazemos com ela, como a pensamos, como a integramos. 

Nesse ensinar a pensar hoje, há duas componentes muito fortes que se exige a um graduado de uma Universidade face a graduados de outras instituições do Ensino Superior que não sejam Universidade. Esse modo de pensar tem de incluir a procura do novo, o questionar o novo. Esta atitude da procura do novo é algo que tem de ser incutido a partir das experiências que a Universidade permite, da exposição que os alunos possam ter a diferentes áreas do conhecimento, do cruzamento de saberes, das experiências multidisciplinares, das experiências multiculturais. Certamente que o pensar diferente é induzido pela convivência de realidades diferentes, pela percepção que existem outros modos de ver, de pensares e estruturar diferentes dos nossos e esse é o desafio que a Universidade tem hoje. 

Afirmou recentemente que Portugal não tem um problema de licenciados a mais, ao contrário da crença geral, da opinião pública. Porque pensa que a opinião pública tem esta visão?

Portugal não tem um problema de ter licenciados a mais mas tem um problema de chamar Doutor ou Engenheiro a toda a gente que se licencia. Hoje, ainda temos um estigma de que a pessoa que se licencia porque ganha um estatuto na sociedade. Quando falamos dos anos 70 em que 8% do escalão etário estava na universidade, tirar o curso superior era uma carta de condução para a vida. Hoje, ter formação superior é essencial porque no mundo do conhecimento quem não tem conhecimento não tem ferramentas para sobreviver nele mas certamente que não está nada garantido. É uma ferramenta para as pessoas o potenciarem e o desenvolverem. 

Hoje não temos licenciados a mais. Se nos compararmos com países com os quais nos deveríamos comparar, sejam países europeus, sejam países como a Coreia, como os Estados Unidos, nós temos de aumentar o nosso nível de licenciados percebendo que é por esse mecanismo que poderemos ter uma economia mais competitiva. As estatísticas, a informação, os estudos, os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) evidenciam-no de uma forma muito clara. Temos de ser capazes de transferir o potencial deste capital humano para a economia e ter uma economia que seja capaz de remunerar de modo melhor o conhecimento que temos.

Por várias razões, razões estruturais, razões históricas, porque em última análise podem ir a um país que passou ao lado da revolução industrial e passou ao lado de grandes desenvolvimentos da economia, sempre tivemos um tecido empresarial, mesmo quando é tecnologicamente avançado, que não controla as cadeias de valor, as cadeias de produtos. Aquilo que fazemos vai ser incorporado num produto que é feito por alguém, um produto que vai ser vendido por esse alguém que tem um maior valor acrescentado. Isso significa que a nossa produtividade é baixa, não quer dizer que os portugueses trabalhem menos horas que os outros, significa que não somos nós que temos as grandes margens na venda dos produtos que fazemos. 

Só mudaremos esse problema estrutural com estratégia, mas com recursos humanos muito qualificados.

Com mais acesso ao Ensino Superior, também é uma preocupação a empregabilidade dos alunos da UMinho? De que forma é que se pode ou que ferramentas é que existem para que haja uma solução?

Apesar de tudo e dos tempos complicados que vamos vivendo, os níveis de desemprego dos licenciados são bastante inferiores aos não licenciados. Portanto, continua a ser um efectivo mecanismo de ascensão social e uma mais-valia na procura de emprego. 

Todos os países com estratégia têm certamente um debate interno sobre se a formação superior é feita de uma forma condicionada. Podia haver sistemas com medidas, sejam elas mais explícitas, de condicionamento das escolhas, com números clausus em determinados cursos. Temos tido isso na área da educação, políticas governamentais têm obrigado a reduzir as vagas para formação de professores. Portanto, pode haver vários mecanismos. 

Por outro lado, podemos ter um mecanismo de total liberdade de escolha em que escolhem o curso que quiserem e o Estado deverá ajudar a suportar os custos de formação de cada pessoa. Eu acho que nós devíamos ser capazes de ter uma sociedade que permitisse que os seus jovens escolhessem o que querem fazer. É evidente que esta escolha deveria ser uma escolha bem informada. As pessoas, os jovens, os candidatos, as suas famílias devem estar informadas, as universidades devem dar informação fidedigna, transparente, informação comparável uma com a outra sobre quais são as taxas de empregabilidade dos seus cursos. 

Considera que as pessoas estão informadas sobre essas questões?

Acho que neste momento as pessoas ainda não o estão, totalmente. Hoje, apesar de todas as dificuldades, a informação está disponível. Tipicamente, alguém que entra hoje na universidade e faz hoje a escolha de um curso, provavelmente quando fez a escolha do curso andou nos últimos dois anos a convergir por um determinado curso, tendo em conta as questões de vocação e emprego. Quando sai são sete anos, provavelmente as condições de emprego serão totalmente diferentes. 

Enquanto Presidente do Conselho de Reitores, qual é o seu maior desafio?

A afirmação da autonomia do Ensino Superior, que continua a ser um ponto absolutamente de referência.

A afirmação da Universidade Pública portuguesa como um espaço de grande qualidade e exigência, como um espaço que seja reconhecido e respeitado internacionalmente. Hoje, os cursos de Ensino Superior em Portugal são absolutamente reconhecidos em toda a Europa: Alemanha, Noruega, Holanda. Os licenciados são reconhecidos como pessoas de altíssimo valor. Portanto, estes são os principais desafios: Afirmação internacional, que só pode ser feita a partir da exigência e qualidade; e a criação de um contexto que permita o aprofundamento dos nossos projectos educativos diferenciados para cada universidade. 

Gostaria muito mesmo que, dentro de alguns anos, os estudantes não escolhessem a universidade porque é a que está mais perto de casa mas escolhessem aquela porque forma um licenciado mais empreendedor, porque aquela forma um licenciado com uma cultura humanista mais forte. Porque aquela universidade forma uma pessoa com perfis muito focados e orientados, ou porque a outra forma pessoas com áreas mais multidisciplinares, mais abertos e mais abrangentes. Seria muito bom que quer os empregadores quer os candidatos reconhecem isso e associassem uma universidade a este perfil ou àquele. Penso que isso seria muito positivo. 


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