Revista Rua

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Um acervo de tradição

Casa das Louças Maria da Fonte

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Há 63 anos que Alípio Oliveira e Álvaro Moreira entram, todas as manhãs, pela porta que desvenda uma das mais tradicionais lojas em Vila Nova de Famalicão.

Bem perto da Igreja Matriz Velha, o número 17 da Praça 9 de Abril esconde um autêntico acervo de louças que se assume como um símbolo da vontade de preservar uma história que tende a passar. Sim, porque longe vão os tempos em que as mães, já a pensar na época casadoira das suas filhas, entravam na Casa das Louças Maria da Fonte em busca dos mais belos serviços de mesa, compostos pelos pratos de porcelana pintados à mão, os faqueiros em prata ou os copos de cristal. Essas memórias, das filhas pelas mãos das mães, acalentam o coração de Alípio, hoje com 80 anos, e de Álvaro, com 77. “Acabamos por conhecer quase toda a gente que cá vem. Trabalhamos com muitos filhos e netos dos nossos primeiros clientes. Criamos aqui uma família”, asseguram. Peças em cerâmica e porcelana, como os famosos pratos da Vista Alegre ou as louças de Alcobaça, xícaras, canecas, terrinas, candeeiros de cristal, presépios ou outros artigos para uso de casa, como panelas de pressão, talheres, jarros decorativos ou até mesmo coadores de café foram compondo o interior da loja e mantendo o inventário bem ao jeito das necessidades das donas de casa.

 

 

No entanto, os anos foram desvanecendo um hábito de elegância e requinte. “Hoje, ninguém se interessa por este tipo de produtos, o que nos dá muita pena. As vendas baixaram muito e já não temos clientes que justifiquem este nosso esforço. Já são muitos anos aqui… e o corpo já não aguenta como antigamente”, esclarece Alípio, enquanto Álvaro nos explica que o momento em que a porta se fechará está para breve. “Já deu entrada um projeto na Câmara Municipal que irá demolir este prédio, mantendo-se apenas a fachada. Ficamos tristes por ter de abandonar, mas acho que há clientes que ficam mais tristes que nós”, confessa, sorridente. “A saúde já não é a mesma…”, acrescenta.

Até ao momento do adeus, Alípio e Álvaro vão distribuindo simpáticos ‘bons dias’ a quem passa e programando a melhor forma de se despedirem dos artigos que restam. Quiçá um leilão?!


  • Helena Oliveira

    O pequeno comércio mereceria um pouco mais de atenção por parte de quem gere a cidade. Não se trata apenas de um negócio de família, trata-se de um repositório de história, tradição, bom gosto e generosidade que se perderá nos impessoais corredores dos hipermercados de ocasião. Uma pena.

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