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Uma dança em palco comum

José Caldeira está na RUA
 
Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

@josecaldeira

 
De onde surgiu a oportunidade de seres um fotógrafo de artes performativas?
Acredito que surgiu da minha própria vontade de o ser. As artes a nível geral sempre foram a minha paixão, gosto de trabalhar com artistas, cada um com o seu próprio mundo criativo. É uma área onde “tudo” pode acontecer. Fotografo desde os 14 anos e muita coisa já aconteceu, muitas experiências, exposições, livros, fotografias publicadas pela imprensa nacional e internacional, artistas que usam as minhas imagens em publicações no estrangeiro e em vários meios para promoção dos espetáculos. 
O trabalho vai se propagando, vai ganhando vida própria e seguindo o seu próprio caminho. Felizmente tive a oportunidade de trabalhar para a Capital Europeia da Cultu-ra Guimarães 2012 a qual me permitiu fotografar projetos muito interessantes e enriquecer o meu portfólio. Nessa altura apostei mais na divulgação do meu trabalho pelo facebook, os contactos e trabalhos foram surgindo. Desde dezembro de 2014 estou a colaborar com o Teatro Municipal do Porto, Rivoli e Campo Alegre, o qual tem uma equipa muito dinâmica com que me identifico, dirigida pelo Tiago Guedes refletindo assim uma programação muito variada e rica que me estimula imenso com projetos sempre diferentes a acontecer todas as semanas.
 
 
Muitas vezes fotografas os ensaios. A passagem de um palco sem público para um palco com público revela intensidades diferentes na fotografia?
Essa é uma forma poética de ver e comparar ambas as situações, mas é certo que existem diferenças. Num ensaio geral sem público representa-se o espetáculo na íntegra e com rigor, não havendo público, tenho muita mais liberdade de movimentos, de procurar e captar. É raro fotografar espetáculos com público, mas quando acontece é certo que não consigo os mesmos resultados devido a várias limitações que me obrigam a procurar alternativas com resultados diferentes. Mas naturalmente há mais intensidade com a presença do público, muitas energias que se misturam e centenas de olhares que contemplam os mundos que acontecem no palco.
 
 
Vês para lá do que se passa em cima do palco?
Penso que é obrigatório para um fotógrafo de artes performativas deixar-se envolver pela narrativa do teatro, da dança e das artes performativas em geral, tem que existir sintonia. Quando fotografo não posso estar apenas focado na estética, tenho de acompanhar a narrativa pois a mesma ajuda-me a perceber com antecedência o que provavelmente irá acontecer e posiciono-me para captar o momento. Muitas vezes corre bem, outras não! Quando corre mal deve-se evitar pensar no que correu mal, o mesmo provoca bloqueios que prejudicam a continuação do trabalho, temos que esquecer e passar para a fotografia seguinte. Um fotógrafo que fotografa teatro e dança tem de perceber de teatro e dança da mesma forma que um fotógrafo de arquite-tura tem de perceber de arquitetura para sentir a mesma e ser capaz de captar a sua essência. Na minha opinião esta regra aplica-se a todas as áreas de trabalho, por isso há uns profissionais melhores que outros. A fotografia ou a imagem realizada é ape-nas a ponta do icebergue visível à superfície, o restante submerso é o conhecimento, experiência e trabalho que permitiu a realização da mesma. Ao contrário do que mui-tos pensam, não é só carregar no botão.
 
 
Um fotógrafo que gostasses de fotografar em palco.
Não tenho essa ilusão, gosto de ser surpreendido pelos vários artistas que se vão cruzando comigo no Teatro Municipal do Porto, tanto nacionais como internacionais. Ir ao “sabor do vento”.
Prefiro até trabalhar com artistas portugueses, que me surpreendem cada vez mais. A ideia de que “o que se faz lá fora é melhor” não faz qualquer sentido, não se podem comparar culturas diferentes que geram resultados e expressões diferentes. Sou português e quero com o meu trabalho fazer mais pelo meu país e ajudar quem me rodeia a evoluir. Criar valor nesta área tão difícil em Portugal.
 
 
@josecaldeira
 

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