Revista Rua

Apreciar. Instagram

Uma imperfeição geométrica

Simão Gomes Pereira está na Rua

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

@thesimonpac

Existe um espaço urbano que quase preenche a tua página. Qual é a tua ligação com a rua?

Gosto de andar na rua à procura das pequenas coisas inesperadas e surpreendentes do dia a dia. Não vou à procura de um assunto perfeito para fotografar, encontro-o espontaneamente e como a melhor oportunidade é inesperada não há altura mais certa que o presente. Podem ser formas geométricas que surgem na confusão da cidade. Uma parede, um cartaz. Pode ser uma pessoa que vai a passar. Gosto de cidades e do espaço urbano. E a arquitetura fascina-me porque é a única forma de arte à qual não conseguimos ficar indiferentes. Não me interessa assim tanto o retrato ou fazer fotografias que envolvam muita pré ou pós-produção até porque a perfeição é insípida. O que quero é captar um momento.

 

Há uma atitude kitsch nas tuas fotografias. É uma representação estética dos objetos industrializados e de uma cultura de massas ou uma tentativa de narrativa pessoal?

Os objetos industrializados e a cultura de massas estão tão presentes à nossa volta que não acredito sinceramente que haja uma maneira de os evitar. Mas, mais do que "atitude kitsch", diria que algumas das minhas fotografias têm sentido de humor. E sendo o humor uma observação muito pessoal, íntima, então sim, diria que essas imagens fazem parte da minha maneira de ver o mundo. Da minha, como descreves, narrativa pessoal.

 

O revivalismo não é mais uma salvação de uma cultura ou de um povo, é uma forma de estar e também de compreender certos valores insurgentes numa aldeia global. Na arte, é quase uma linha de união entre a história em toda a sua pluralidade. As tuas fotos integram-se neste estado retro-saudosista?

Às vezes as pessoas mostram uma fotografia e dizem: “isto sou eu quando era novo” e eu acho piada porque todas as fotografias são de nós quando éramos novos. Todas as fotografias representam apenas o passado. Ninguém tem fotografias de quando era mais velho – apesar de haver agora umas apps que fazem umas coisas parecidas. Isto para dizer que se calhar algumas das fotografias que faço são saudosistas, sim, mas não são todas as fotografias? Não somos todos saudosistas? Há revivalismo, mas também um ‘reviver(ismo)’, porque ao olhar para as imagens - para o passado - podes voltar a sentir o que sentiste no momento em que as tiraste. A história, o ontem e o anteontem, são coisas absolutamente impossíveis de evitar. Como a morte e os impostos. E algumas canções dos anos 80.

 

Qual a cidade que achas que se enquadra mais na tua visão pessoal das coisas quotidianas? Porquê?

Torres Vedras é a cidade onde nasci e aquela que conheço melhor. Mas Lisboa é como uma segunda casa e um cenário perfeito para qualquer tipo de fotógrafo. Há vários tipos de quotidiano e eu tenho o meu em cada uma dessas cidades. Se tivesse que escolher entre uma e outra escolhia Torres Vedras que em termos de dimensão é inferior, mas mais rica em personalidade e também porque é a única cidade no mundo onde há sandes de cozido à portuguesa.


4 vídeos 817 followers