Revista Rua

Apreciar. Cultura

Victor Hugo Pontes

 “Eu continuo a fazer aquilo que fazia, o que acontece é que tenho mais gente a olhar para mim”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Guimarães está marcado no seu corpo, esse corpo que desenha no espaço as histórias que quer contar. Victor Hugo Pontes é coreógrafo, mas na sua alma tem teatro, tem pintura, tem arte. Reconhecido pela icónica peça A Ballet Story, que o levou para as luzes da ribalta em 2012, e pela sua incrível Se Precisares da Minha Vida, Vem e Toma-a, a partir do texto de Tchekhov A Gaivota, que surpreendeu plateias e o rotulou como “coreógrafo do momento”, Victor Hugo Pontes é movimento, é vida. Em Uníssono [nome de uma das mais recentes peças apresentadas], podemos dizer que Victor Hugo Pontes é dança. 

Fotografia: Nuno Sampaio

Um início bastante atípico. Um miúdo que começou num rancho folclórico e que hoje é um dos coreógrafos mais conhecidos do nosso país. Como é que tudo isso aconteceu?

Há uma fase antes e depois do Teatro Oficina, ou seja, antes e depois de 1994. Posso dizer que antes era muito mais dedicado aos amigos, ao rancho e a uma cultura muito próxima da Igreja, já que os meus pais são muito religiosos. Durante algum tempo, segui também essa filosofia de vida, que depois altero quase radicalmente a partir do momento em que começo a fazer Teatro. Não é que uma coisa inviabilize a outra, tem a ver com o modo como olhas para o mundo – e também começas a questionar os ensinamentos que te tinham sido feitos. A fazer Teatro, guardo memórias muitíssimo boas. Este espaço do CCVF está carregado de memórias, por exemplo. Comecei a fazer Teatro no edifício do Palácio Vila Flor e sei ainda qual era a sala onde nós ensaiávamos, onde tudo começou. Mas eu nunca imaginei que seria aquilo que sou hoje. Nunca projetei muito aquilo que queria ser, fui sendo. Acho que foi a vida que foi decidindo por mim.

 

Isso foi notável nas suas escolhas de formação, em que segue dois caminhos...

Sim, segui dois caminhos e ramifiquei num terceiro. O que acontece é que eu sabia que queria Artes. Isso era muito claro, desde miúdo. Lembro-me de ir para a escola e depois ir para a casa da minha professora primária fazer atividades. O filho dela era arquiteto e, para mim, era um fascínio enorme ver o estirador e aquilo tudo... Inicialmente, pensei querer ser arquiteto, mas depois percebi que não. Acabei por escolher Pintura, mas teria feito outra coisa porque não era propriamente a ação de pintar que me interessava, era relacionar-me com os materiais e construir alguma coisa. Era um caminho não muito consciente. Ao mesmo tempo, tinha o Teatro. Não queria deixar de fazer Teatro, porque, para mim, o Teatro não era pura e simplesmente um hobby. Já que me deixavam fazer os dois cursos ao mesmo tempo, aproveitei. Terminando-os, percebo que é na Dança que encontro a linguagem que me era mais próxima (risos).

 

Mas o que o cativou nesse universo da Dança?

Tinha a ver com a abstração. Eu adoro Teatro, mas sou muito reticente em relação a uma coisa: o facto de contar uma história, que me deixa muito pouco espaço para criar alguma coisa em cima daquilo que me estão a dar. É uma narrativa e eu sigo apenas a narrativa. Eu posso identificar-me mais ou menos com a narrativa, mas aquelas palavras já estão escritas, aquela história é fechada em si. E a dança cria-me múltiplas possibilidades, portanto, eu sou um elemento ativo como espetador a construir a minha própria ficção. Foi isso que me fascinou na Dança, foi essa possibilidade de múltiplas leituras e, depois, a relação com o corpo. Ser o corpo o veículo principal, ser um corpo que vai desenhando no espaço é a coisa mais fascinante. Para mim, coreografar é estar a fazer constantes desenhos no espaço. A dança é uma relação de um corpo no espaço e no tempo. Como é que um corpo se relaciona num espaço e em relação ao tempo, sendo mais rápido ou mais lento, com que dinâmica, interessa-me. Isso tornou muito claro o caminho que queria seguir. Se bem que eu não deixo de fazer Teatro e quero voltar ao Teatro. Gosto muito da palavra, também. Mas o facto de poder construir um objeto com múltiplas leituras foi o que mais me interessou.

 

Foi isso que tentou fazer na sua A Gaivota, ou melhor, na Se Alguma Vez Precisares da Minha Vida, Vem e Toma-a? Foi transformar as palavras num silêncio que fala por si?

Foi retirá-las. A partir do momento em que retiramos as palavras e ficamos com a ação é como se estivéssemos a ver televisão sem som. Sou eu que construo ou que tento ficcionar o que se está a passar. É tirar o elemento da palavra, que é extremamente forte, e perceber o que é que fica. Foi esse o meu desafio n’A Gaivota, de Tchekhov, que eu optei por chamar-lhe Se Alguma Vez Precisares da Minha Vida, Vem e Toma-a. É um título longo, mas é muito bonito. É uma peça que correu muitíssimo bem. É curioso que estreou cá em Guimarães e não correu bem, a meu ver. Foi a primeira apresentação pública e senti aqui que não comuniquei aquilo que queria. E há pequenas alterações que resolvem isso: uma delas foi criar um intervalo na peça. Uma pausa para as pessoas respirarem e depois voltarem, com outra disponibilidade. A partir daí, a peça correu muitíssimo bem. Quando chegámos a Lisboa, ao Grande Auditório do CCB (eu já tinha apresentado no CCB, mas sempre em salas muito alternativas, tipo a Black Box), houve muito aquela estranheza do público: “O que é que é isto? De onde é que este rapaz veio? Isto é incrível! O que é que é?”. Depois as pessoas pensaram que as minhas peças eram todas assim (risos). Não! Eu fiz esta peça e cada objeto é muito distinto. Quem viu essa peça e viu o Uníssono a seguir percebe logo que esteticamente não tem nada a ver, apesar de haver sempre um cuidado plástico muito grande em todos os meus trabalhos – acho que isso vem do facto de eu ter estudado Belas Artes.

Considera-se um artista emergente?

Estes dias questionava-me sobre o que era ser um artista emergente, sendo que eu já não sou propriamente emergente. Estava numas jornadas de Teatro no Porto e havia uma coreógrafa bastante mais velha que eu a falar. Ela disse que se considerava emergente porque esteve um período afastada e depois voltou. Dizia que era emergente não no sentido de estar a aparecer, mas no sentido de se reinventar, de recomeçar. E, nesse sentido, eu sou emergente e vou ser emergente a vida toda! Quero estar constantemente a reinventar-me e a tentar descobrir coisas novas. Não me interessa repetir fórmulas. Interessa-me reinventar-me constantemente, pregar partidas a mim mesmo, criar obstáculos exatamente para perceber como é que os vou superando, porque só assim é que eu acho que consigo evoluir e ir para outro sítio. Depois tem o outro lado, o lado de eu procurar formação. Nós, coreógrafos, começamos a trabalhar e depois continuamos, sem pausas - ou melhor, eu felizmente não tive grandes pausas. Somos quase levados a criar, criar, criar e quase não temos tempo para nós. Então, sinto que estamos constantemente a dar e não temos tempo para receber. Não temos tempo para ir a exposições, para ler, para ver filmes, para nos alimentarmos para construir. Eu, neste momento, estou numa fase em que decidi acalmar um bocadinho e alimentar-me, porque preciso. Exatamente para me colocar na posição de ser eu a receber e não ter esta pressão de ter que chegar a um resultado, de ter de cumprir alguma coisa.

 

Mas sente essa pressão, depois deste reconhecimento? Isso mudou a sua forma de ver as coisas?

Não, eu relaciono-me da mesma forma. O que eu sinto é que há mais olhos postos em mim. Eu continuo a fazer aquilo que fazia, o que acontece é que tenho mais gente a olhar para mim. Nesse lado de pressão, sinto que há mais gente interessada em perceber o que é que eu estou a fazer. Mas acho que isso cria uma pressão positiva. A responsabilidade é maior? É, porque começamos a trabalhar com financiamentos maiores, com estruturas maiores... já não estamos a brincar ao faz de conta. Se isso influencia o ato criativo? Tento que não contamine. Tento continuar a fazer aquilo que quero, a seguir os meus instintos e a fazer da forma que sei fazer. Como tinha feito até aí.

 

E se falhar, é como diz Beckett: falha, falha melhor?

Sim, faz todo o sentido. Eu digo muito isso aos meus alunos porque é a minha filosofia de vida. É fazer. Gosto muito de fazer e pensar depois. Acabo por ser muito instintivo. Não sou uma pessoa que está constantemente a questionar porque é que está a fazer assim. Acho que devemos fazer e depois avaliar o que é que fizemos, também para nos posicionarmos.

 

O que tem planeado para a próxima temporada?

Vou estar envolvido num projeto em que vou dirigir uma atriz e uma bailarina: a Leonor Keil e a Rafaela Santos. A Rafaela sempre quis ser bailarina e a Leonor sempre quis ser atriz. O projeto assenta exatamente neste conflito entre o que cada uma queria ser e o que foi. Um conflito entre as nossas expetativas, entre aquilo que desejamos ser e aquilo que nos tornamos.

Depois terei um outro projeto, que vai estrear em janeiro de 2018, no CCB. É um projeto feito a partir dos Capitães da Areia do Jorge Amado e chama-se Margem. É com adolescentes e é para adolescentes. Questiona exatamente quem são os Capitães da Areia dos dias de hoje, quem são estas pessoas que são colocadas à margem ou que vivem em défice perante esta sociedade. Partimos de um trabalho muito documental, que será feito por mim e pela Joana Craveiro, que é quem vai escrever o texto, porque apesar do trabalho ser de Dança, tem palavra. Acho que esta realidade precisa do texto para ser concretizada, senão pode ser demasiado poética ou “fabulosa”.

 

E a nível de reposições de peças?

Vamos continuar a repor A Ballet Story, em setembro. Vamos estar também a circular bastante com o Nocturno, que é uma peça que eu fiz com a pianista bracarense Joana Gama. Voltaremos a Guimarães no próximo ano também. Posso dizer que, atualmente, já estou a pensar nos projetos para final de 2018 e a construir 2019.

 

Já interpretou as suas próprias criações, mas agora está mais ausente do palco. É diferente sentir o som dos aplausos enquanto está no backstage?

São emoções muito distintas. Inicialmente, era muito eu o intérprete dos meus trabalhos, mas a partir de 2011 comecei a ficar muito de fora. Depois, na peça Se Alguma Vez Precisares da Minha Vida, Vem e Toma-a acabei por entrar, no Noturno também, porque começava a ser muito aflitivo ficar de fora. Mas, por exemplo, Uníssono é uma peça que eu não consigo ver juntamente com o público. Vejo todos os ensaios, sim, mas no espetáculo fico muito stressado, muito irritado, é uma pressão muito grande que eu coloco a mim mesmo. Por isso, vejo o espetáculo atrás, vou ajudando e depois ouço os aplausos de lá de dentro. Há coreógrafos que fazem questão de ir ao palco todas as vezes. Eu, por norma, vou na estreia e depois não vou mais. Tanto que, grande parte das pessoas, não sabe quem eu sou. Nós somos sempre a face invisível. Eu digo sempre aos meus intérpretes: “isto correndo bem ou mal, são vocês que estão aqui a dar a cara por mim”. Aliás, estes dias vi um documentário de um coreógrafo que eu gosto muito e ele dizia uma coisa que me fez rir porque já tive muita vontade de dizer isso: “don’t fuck me, my life depends on you” (risos). Portanto, não me lixem porque a minha vida está nas vossas mãos! Porque se o espetáculo corre bem, corre bem para toda a gente. Se corre mal, a culpa é sempre do coreógrafo. E grande parte das vezes é! (risos). Mas quem está no palco são eles. E esse lado de impossibilidade de fazer alguma coisa para ajudar é que é angustiante.

 

Já teve oportunidade de estrear várias criações em Guimarães. Mesmo que o rumo da sua vida vá além-fronteiras, mantém uma ligação muito próxima com a cidade, não é?

Sim. Posso dizer que tenho uma relação muitíssimo forte com o Teatro Nacional de São João, no Porto, mas porque foi o sítio onde, pela primeira vez, estreei um espetáculo meu. Mas depois há um lado emotivo, afetivo muitíssimo grande em relação ao CCVF. Grande parte das pessoas nem sabem que eu sou de Guimarães, acham que eu sou do Porto. O Porto é o meu porto de abrigo, mas Guimarães acaba por ser sempre onde tudo começou. Foi aqui. Eu gosto muito de tudo aquilo que passei aqui, lembro-me bem do primeiro espetáculo que fiz como ator, chamado A Grande Serpente, na Fábrica de Couros. Foi muito marcante. Está escrito no corpo, mesmo. Isto acaba por ser a minha casa.


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