Revista Rua

Observar. Talento

Zé Teibão como Tàpies ou UT PICTURA POESIS

Texto: Helena Mendes Pereira |

Há cerca de quatro anos conheci Barcelona à margem de uma participação no Talking Galleries, simpósio destinado a galeristas e profissionais do mercado da arte, que se vai realizando anualmente, paralelamente a outras iniciativas de uma plataforma de debate mais alargada, para discutir e partilhar ideias sobre o setor. O encontro aconteceu no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA) e foi lá que respirei, verdadeiramente, a primazia da obra de Antoni Tàpies (1923-2012), pintor catalão que tendo partido de uma base surrealista, acaba, sobretudo a partir de 1952, por aderir a uma base mais abstrata de grande proximidade à Arte Informal e à Arte Povera, já após a década de 1970. A partir dos anos 50, Tàpies inicia um trabalho intenso de experimentação, apropriando para o seu processo plástico materiais como a areia, pó de mármore, efetuando incisões com reminiscências ao graffiti e trabalhando com superfícies em erosão. Todas as suas influências, afinidades e pinturas anteriores confluem para a denominada “pintura matérica”.

Quando descobri o vimaranense Zé Teibão (n.1984) e a sua pintura, em que utiliza café e caneta, mas, também, os trabalhos em acrílico sobre madeira, muito me recordei, a partir da proposta simples e sensível deste jovem artista, do legado de Tàpies e das suas inegáveis influências em gerações sucessivas, sobretudo pela abertura de possibilidades, não só na dispersão de recursos a utilizar, como na aproximação da arte e do pensamento ocidental ao oriental. Zé Teibão tem, à semelhança de um grupo muito alargado de artistas seus contemporâneos, uma derivação da pintura ao campo da ilustração e mesmo ao do design mais lato, motivada pela necessidade de sobreviver. A urgência de proliferar uma ideia, um princípio estético, em suportes de circulação mais democrática tem contribuído, ainda, para que Zé Teibão se encontre num estilo de figuração que faz dele um pintor de detalhes, de nostalgias e de sonhos.

É inegável a sua ligação à poesia e a uma trajetória da palavra escrita como elemento compositivo de uma proposta plástica. Na obra em destaque, com referência ao universo utópico de um dos heterónimos de Fernando Pessoa (1888-1935), é visível o seu interesse pelo designado movimento UT PICTURA POESIS, inspirado em Horário e na sua Arte Poética (c. 20 a.C.) e que marca um grupo de artistas da designada Poesia Visual, a partir de, sensivelmente, 1962. Em Portugal, retenhamos, a título de exemplo, as obras de Ana Hatherly (1929-2015), E.M. de Melo e Castro (n. 1923) ou António Barros (n.1953). Zé Teibão é assim um homem artista entre vários mundos que, gradualmente, tem vindo a construir-se num emaranhado de ideias e conceitos, movido pela vontade incessante de pintar e de ser livre nesse exercício que é a pintura. 


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