Revista Rua

Observar. Talento

l'homme et la nature por Miguel De

Texto: Helena Mendes Pereira |

No outono de 2013 corri a Paris para ver uma das exposições que marcava a temporada do Musée d’Orsay: Masculin/Masculin era, então, apenas a segunda grande exposição do mundo dedicada, única e exclusivamente, ao homem enquanto modelo nu, mas também como objeto de desejo. O título fazia uma derivação simbólica do filme Masculin, Féminin (1966) de Jean-Luc Godard, que explora a sexualidade na juventude e as transformações sociais que marcam a França da década de 1960. Voltando ao número 1 da Rue de la Légion d'Honneur, Masculin/Masculin incluía mais de 200 obras de arte, produzidas entre finais do século XVIII e a atualidade, de autores tão diversos como Ron Mueck, Egon Schiele, Nan Goldin, Rodin, Francis Bacon, Jean Cocteau, Pablo Picasso, Gilbert & George e, ainda, entre os retratados, por exemplo, Yves Saint Laurent ou a Andy Warhol. As artistas mulheres representadas eram, de facto, muito poucas. A mostra estava organizada em núcleos: os modelos clássicos, o nu heroico do desporto ou do bélico, o nu realista, a natureza e o prazer masculino/homem como objeto de desejo, variando entre várias disciplinas artísticas que, naturalmente, incluíam a fotografia.

No meu primeiro encontro com o projeto de fotografia A Body of Land, de Miguel De (n.1992) foi imediato o meu regresso àquela exposição do Musée d’Orsay e à distinção que me sugeria entre nudez e nu: na primeira, vemos o corpo simplesmente sem roupas, que causa embaraço com a sua falta de modéstia; diferente da visão radiante de um corpo reestruturado e idealizado pelo artista. Miguel De deixa-nos indecisos com estes dípticos em que relaciona, formal e compositivamente, o corpo masculino com paisagens, naturais ou da arquitetura. Os enquadramentos corpóreos, muitas vezes de pénis explícito, não nos revelam a beleza da intimidade, mas a poesia da observação e as imagens mais eróticas são, de facto, as menos reveladoras. A dimensão homoerótica é muito importante para a evolução do nu masculino e o exercício de utilização do corpo masculino como focus do processo criativo não é, portanto, novo, ainda que muito menos comum que as referências ao corpo feminino. Contudo, a aproximação imagética entre o homem e a natureza reveste este esboço conceptual de Miguel De de originalidade. As paisagens são as da sua biografia e, na combinação dos dois cenários (de prazer), o autor propõe uma viagem a territórios interiores e exclusivos. O corpo enquanto corpo e a fotografia na possibilidade de comunicação da mimesis do olhar.

Miguel De é natural de Ovar mas vive e trabalha em Braga. Desenvolve a sua atividade profissional na área da multimédia, entre a fotografia e o vídeo. A Body of Land marca o seu regresso (esperemos que definitivo) à fotografia enquanto arte, uma paixão antiga. Tomando o projeto como ponto de partida, perguntamo-nos para onde nos levará a seguir? 


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