Revista Rua

Paulo Brandão

A liberdade está nos livros

Texto: Paulo Brandão |

Poderia começar por Carl Jung e pelo seu ditado de que “Pensar é difícil, por isso é que a maioria das pessoas julga”. Provavelmente, o psiquiatra suíço referia-se aos arquétipos ou ao inconsciente coletivo, que muitos terão estudado no secundário, na disciplina de Filosofia (sim, isso mesmo, no século passado houve uma disciplina de Filosofia no ensino obrigatório por três anos).

Porquê tudo isto? Qual a razão de lembrar a dificuldade de pensar e julgar, pela falta de pensar, a maioria? Para dizer que a liberdade de pensar nas aulas foi o que me levou a descobrir os livros. Foram as aulas de Filosofia que me levaram a comprar e a ler compulsivamente. Que me levam, ainda, à curiosidade de todos os dias e de achar que a liberdade está mais nas palavras do que na realidade. Ou seja, o ato de falar, de escrever e de ler é, na minha opinião, o mais poderoso instrumento de validação do nosso corpo e do nosso cérebro (se os quisermos separar!).

Na verdade, diz-nos a neurociência, a nossa sociedade é um mix de personalidades-tipo e que encontrar a melhor combinação para que funcione, um achado. Sem uma mesma linguagem comum não há maneira (nem matéria) para nos entendermos (não é por acaso que, em plena democracia, há quem diga que, antes de 1974, não havia ditadura alguma e que Salazar havia sido, até cair da cadeira, um ótimo gestor das famílias portuguesas). Ponto. Ou seja, até ficar doente, apesar de sociopata, foi um viril governante. Até aí, acreditem, ele pensava e muito. Basta ler os seus discursos escritos a tinta da china pelo seu próprio punho e não por algum escritor fantasma assessor de ministro. Calculo que fosse bom leitor, que importa.

A PIDE polícia-política impediu livros e livros, o que nada valeu ou valia, pois muito do que somos tem muito mais a ver com o sistema dopamínico herdado dos nossos pais ou com questões químicas cerebrais, do que propriamente com o dióxido de carbono provocado pela queimada de livros. Podia controlar, de certa forma, o que líamos, mas não certamente o que pensávamos. E assim veio o 25 de Abril, penso eu, que nasci em 1967.

Sou criativo e focado no meu trabalho. Há mais lógica no meu trabalho do que no amor. Mas sei que ler faz parte de ambos os campos. Não me vou preocupar, pela idade, com a minha testosterona, muito menos com os níveis baixos de estrogénio ou da larga escala em ADN da procura enquanto caçador da dopamina. Tenho a ideia de que somos todos, de certa forma, dopamina. Enquanto leitor sou-o totalmente, e aparentemente não há nada que possa alterar essa bondade biológica. O homem foi feito para andar. Não foi feito para ler. E por isso mesmo lemos em andamento. O sedentarismo do meu escritório é muito mais vago e menos interessante do que a liberdade de amar o outro sem o habitual canibalismo de almas. Falar, escrever e ler é tão super-humano que, sem livros, seríamos privados de sermos. Não julguemos, pois, mesmo aqueles que não leem.