Revista Rua

Holofote

Alfredo Cunha - Um mundo a preto e branco

Texto: Holofote |

O seu olhar esconde-se por detrás da câmara fotográfica que o acompanha para onde quer que vá. Natural de Celorico da Beira, Alfredo Cunha tem 64 anos e é uma das poucas pessoas que, quando lhe perguntam onde esteve no dia 25 de Abril de 1974, pode responder com toda a perspicácia: no centro da Revolução dos Cravos. Com o seu olhar de miúdo de 20 anos, o fotógrafo que guardou o Minho no coração, mesmo que a carreira o tenha levado a inúmeros horizontes, eternizou um marco histórico através de fotografias que, ainda hoje, são bem conhecidas do público geral: o olhar tranquilo de Salgueiro Maia, a atitude pacífica dos militares, a posição das armas e dos tanques, que repousavam no Terreiro do Paço. “Daquele dia, não guardo memórias porque, para mim, 25 de Abril de 1974 foi ontem. É uma sensação estranha que eu tenho, mas uma sensação mesmo real! Foi o dia mais feliz da minha vida! Era muito novinho, mas já tinha muita consciência política. Tive noção daquilo que estava a acontecer, mas não imaginava a dimensão histórica que, por exemplo, Salgueiro Maia ia tomar”, conta-nos Alfredo Cunha.

Com 47 anos de carreira, Alfredo recorda os tempos em que, durante a adolescência, odiava fotografar. “Não queria ser fotógrafo, mas o meu pai não me deixou alternativa. Hoje agradeço-lhe”, afirma, acrescentando: “De repente, as coisas começaram a acontecer a um ritmo alucinante e, às tantas, os acontecimentos tomaram conta de mim. A única coisa que eu tinha consciência era de que tinha mesmo de fotografar”. A preto e branco, sempre.

Com a exposição Tempo depois do Tempo patente na Cordoaria Nacional até 25 de abril, exposição que apresenta grande parte do trabalho do fotógrafo, desde retratos políticos a fotografias do processo de descolonização da década de 1980, Alfredo Cunha aponta-nos já os seus planos futuros: a exposição sobre as aparições de Fátima, também em abril, o livro sobre Mário Soares, em junho, um livro de retratos, em 2018 e um livro comemorativo dos seus 50 anos de carreira, em 2020.