Revista Rua

Sílvia Sousa

Da desigualdade no presente à presente desigualdade

Texto: Sílvia Sousa |

Dezembro é mês de Natal. Aprecie-se ou não, é difícil não nos deixarmos contagiar pelas decorações, cânticos, celebrações e presentes. Estes, na maior parte dos casos, adquiridos, com maior ou menor ponderação, refletem os desejos das crianças, mas, muitas vezes, os desejos (e os estereótipos) dos adultos que as rodeiam. As grandes superfícies, atentas ao mercado, produzem as suas brochuras da época e, frequentemente, catalogam as suas sugestões distribuindo-as por idade, tipo e sexo. Este exercício, até para comodidade dos seus clientes, tende a ser replicado no próprio espaço de venda, orientando física (e psicologicamente) os visitantes. E, de facto, há, em regra, diferenças evidentes nos presentes que oferecemos às meninas e aos meninos.

A relação entre os jogos e brinquedos oferecidos às meninas e aos meninos e o seu desenvolvimento cognitivo ou social estará mais bem estudada em outras áreas do saber que não a Economia. Contudo, sendo a Economia uma ciência que estuda “escolhas”, a possibilidade dos presentes que as crianças recebem não só decorrerem, mas produzirem impacto nos seus gostos e preferências e, consequentemente, nas suas escolhas futuras, desde as suas atividades extracurriculares às áreas de estudo ou cursos superiores, torna-os relevantes na perspetiva da ciência económica. E se esta ainda terá um contributo diminuto na explicação da relação entre as escolhas dos jogos e brinquedos das crianças e as suas escolhas em termos de formação, o seu contributo na análise do impacto das escolhas dos jovens em matéria de educação é incontornável.

Efetivamente, quando confrontados com a realidade das mulheres, em Portugal, ganharem, em média, menos 20% do que os homens, realidade esta que resulta quer do facto de um menor número de mulheres ter acesso às profissões mais bem remuneradas, quer do facto de, na mesma profissão, as mulheres serem, em média, mais mal pagas, não podemos deixar de nos questionar sobre a relevância das escolhas realizadas pelos jovens, rapazes e raparigas, quanto à sua formação e, em particular, à sua formação superior. Neste domínio, é consensual a existência de um maior retorno salarial médio associado aos profissionais com formação nas áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), áreas essas que, não obstante a recente evolução positiva ao nível do número de licenciadas, em Portugal, continuam a ser dominadas por rapazes. A este consenso, associa-se a persistência de um estereótipo social da mulher enquanto cuidadora da família, penalizando-a, senão na sua participação, na sua evolução no mercado de trabalho.

E entre hipóteses e factos, fica a questão: até que ponto a desigualdade nos presentes que oferecemos às meninas e aos meninos, ou porque reforça o estereótipo social da mulher enquanto cuidadora da família, ou porque promove o domínio masculino nas áreas CTEM, de alguma forma, contribui para a presente desigualdade no mercado de trabalho?