Revista Rua

José Manuel Gomes

Há um ano na Rua e tanto ainda para falar

Texto: José Manuel Gomes |

    Pois bem, a Revista Rua celebrou recentemente um ano de existência.  Um ano que - num plano mais pessoal, claro -  trouxe-me o prazer enorme de poder escrever sobre música e cultura. Um ano findado, e em retrospetiva, ficam vários temas abordados, uns mais atuais do que outros, mas sempre com o intuito de falar e pensar sobre o panorama musical e cultural nacional, e não só. Há mais música, mais locais para se fazer música, onde tocar e sobretudo para quem tocar. Fazendo um balanço, por exemplo, dos últimos dez anos, o progresso da proliferação musical em Portugal é gigante e este é um assunto sobre o qual nos devemos debruçar. O que se passou para toda esta - boa - azáfama musical de bandas nacionais? Há melhores músicos hoje do que os que apareciam antes? Quais são os motivos?

    Há dias, e creio que não cometo nenhuma inconfidência por contar esta história, conversava com o João Carvalho - um dos principais programadores e responsáveis pelo NOS Primavera Sound Porto e pelo festival Vodafone Paredes de Coura – que me contava precisamente que há uns dez anos tinha uma tremenda dificuldade em levar projetos nacionais a Paredes de Coura e que, nos dias que correm, a dificuldade é precisamente o oposto: filtrar as bandas no meio de tanta oferta de qualidade que hoje existe. Passou-se dum canónico predomínio das cidades de Lisboa e Porto para praticamente termos nova música a aparecer - e a ser conhecida - de norte a sul do país. Um exemplo é o que se passa aqui perto, como em Braga e Guimarães. A proliferação e a produção musical são uma realidade mesmo ao lado da nossa porta. Acontece hoje e aqui. 

Algo que pode explicar, a meu ver, esta nova realidade, esta força que a música hoje possui, não passa tanto pelos meios que, à priori, seriam os mais óbvios e indicados, como por exemplo, a rádio. Claro que a rádio é a força motriz de qualquer banda, seja em Portugal, seja lá fora. Porém, quantas rádios se preocupam verdadeiramente com o que de novo se faz e, sobretudo, fora do quadrado comercial que tanto querem fazer as pessoas engolir? Quantas rádios cumprem a verdadeira missão de mostrar música nova e de apoiar estes que hoje aparecem, mas que amanhã estão nos principais palcos? São dez em 1000 e isso é muito pouco. 

De grosso modo, as bandas passaram a apresentar o seu trabalho, a sua música nas redes sociais, num mural que enche o nosso feed de notícias, e o papel de apresentar ou estrear na rádio começa a passar para um segundo plano. São novos tempos, com novas necessidades e que exigem novas soluções. O papel da internet, mais do que ter o poder de tornar uma música que é publicada às 10h da manhã ter cinco mil visualizações às 22h da noite, permite às pessoas que fazem música pensar ‘a’ música. Ou seja, permite às pessoas que compõem, fazê-lo inserido numa lógica de mercado: a eterna dicotomia procura e oferta. Se, por um lado, se conhece, por outro aprende-se. Pode parecer que não, mas são coisas distintas. E é aí que tudo muda: quando um grupo de pessoas comprometidas em compor música se junta num estúdio ou sala de ensaio e já tem linhas orientadoras para seguir. Claro, parte-se sempre do zero, mas é um zero fundamentado e isso faz a diferença. 

De resto, espero que, por daqui a um ano, esteja na mesma aqui a falar sobre a vivacidade ainda maior da música nacional e, se possível, do que se faz aqui nesta região tão bonita que é o nosso Minho. Parabéns à Revista Rua, venham muitos mais.